Máquinas e Equipamentos

26 de junho de 2012

Válvulas – Fabricantes nacionais investem para enfrentar importações

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Publicado por: Hamilton de Almeida
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    OS FABRICANTES de válvulas in­dustriais instalados no Brasil pa­decem dos efeitos do processo de desindustrialização que os pressiona desde 2005. A situação adquire contornos mais dramáticos para a indústria em geral, pois uma onda de desnacionalização está varrendo o setor e “tende a aumentar”, na avaliação de Pedro Lúcio, presidente da Câmara Setorial de Válvulas Industriais (CSVI), da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). O cenário ruim não é suficiente para ocultar, entretanto, um fundo de esperança: há vários projetos de investimentos produtivos em andamento.

    Atualmente, o mercado está “praticamente estagnado” e a ex­pectativa da CSVI é que as recentes políticas de apoio ao setor industrial anunciadas pelo governo federal aliadas ao andamento de projetos de porte, como os da Petrobras, forcem a retomada da economia. “Se 2012 repetir o desempenho do ano passado, será uma vitória”, consola-se Lúcio.

    A invasão de válvulas chine­sas é uma das principais razões da chamada desindustrialização. Lúcio calcula que esse produto chegue ao Brasil com um preço médio cerca de 40% mais barato que o similar local, tornando muito difícil a competição. Nem sempre a qualidade do produto importado se equipara à do produto made in Brasil; o preço, porém, faz toda a diferença no momento da compra.

    A concorrência com o produto importado “é desleal”, na avaliação de Djalma Bordignon, gerente comercial da KSB Válvulas Ltda. “O ‘custo Brasil’ é um dos maiores do mundo e falta isonomia, princi­palmente por parte da Petrobras, quanto aos requisitos técnicos nor­matizados e de inspeção”, adverte. De acordo com Bordignon, os pre­ços das válvulas nacionais “estão mais de 20% acima dos europeus”. Em comparação com os asiáticos, a relação é “absurda, pois os preços praticados sem internação não pagam sequer a nossa matéria-prima”. Ele afirma que os governos dos outros países concedem novos incentivos à exportação a cada me­dida que o governo brasileiro adota para resguardar a indústria local.

    Luiz Vieira Machado, gerente-geral da divisão de válvulas da Flowserve, declara que os preços no mercado interno estão “em constante declínio, em razão da pressão advinda da questão cambial e da excessiva concorrência, que é uma particularidade desse setor”. Ele defende o ponto de vista de que “a grande questão” ao redor das importações é de caráter cambial: “A excessiva valorização da nossa moeda representa automaticamente um incentivo às importações.”

    Alejandro Hube, diretor da Durcon, também concorda que as importações estejam afetando o ritmo dos negócios locais, mas não foge à luta: “Entendemos que não há nada a fazer a não ser competir, ou seja, melhorar a qualidade e a produtividade, diminuir os custos de matéria-prima (com importa­ções), melhorar o atendimento aos clientes e buscar aumento de escala de produção por meio de vendas no mercado internacional.”

    Hube não deixa, contudo, de enfatizar o lado paradoxal dessa história: “O mercado de válvulas industriais está crescendo no Brasil e demanda volumes cada vez maiores. Para os fabrican­tes locais, as mudanças no ambiente de negócios que aconteceram nos últimos sete anos criaram uma situação muito difícil.”

    Competição impossível – Na realidade, reconhece Hube, é “impossível” competir com os produtos de origem asi­ática ou com os fabricantes que, geograficamente, estão sediados no Primeiro Mundo, mas fabricam as válvulas na Ásia. A porta de saída para a Durcon foi fabricar produtos em menor escala e considerados especiais, de alta tecnologia. Esses produtos não são atraentes para os asiáticos, que fo­cam em produtos de grande escala, importantes para gerar os empregos necessários em suas economias em desenvolvimento.

    Em tom mais ameno, Carlo Rego, gerente-geral da Tyco Valves & Controls no Brasil, endossa os comentários: “Acompanhamos de perto o impacto que a concorrência internacional muitas vezes repre­senta, algo que está ocorrendo em praticamente todo o mercado bra­sileiro. Temos visto também as ini­ciativas da Abimaq para justamente incentivar a indústria local pela aplicação de uma regulamentação mais rígida da concorrência entre a indústria nacional e a estrangeira.”

    Petróleo & Energia, Válvulas - Fabricantes nacionais investem para enfrentar importações

    Lúcio: produção de válvulas especiais segue competitiva

    Lúcio aponta a valorização do real e a elevada carga tributária como fatores limitantes para o desenvolvimento da indústria na­cional. Estima-se que os tributos representem 40% dos preços dos produtos industrializados. O real se valorizou 49,9% em relação ao dólar no período 2006-2011. A indústria de transformação cresceu apenas 9,2% naquele espaço de tempo.

    Hube acrescenta: “Com a crise mundial, os mercados internacio­nais de válvulas dos países de­senvolvidos se contraíram e esses fabricantes vêm comercializar os seus produtos no Brasil, oferecendo condições de financiamento muito competitivas, garantidas pelos go­vernos dos países exportadores para assegurar postos de trabalho.”

    Em meio a essa instabilidade, desencadeou-se um crescente mo­vimento de fusão e aquisição de empresas. Nos últimos dois anos, multinacionais adquiriram cinco empresas com atuação no país: a Cameron comprou a Vescon; a GE adquiriu a Dresser; a Tyco ficou com a Hiter; a Circor incorporou a SF Válvulas; e a IMI absorveu a Interativa. Lúcio acredita que outros negócios semelhantes irão aconte­cer e vê com preocupação o avanço das poderosas transnacionais sobre as empresas de capital nacional: “Essas empresas não têm raízes aqui. Assim como estão chegando, podem resolver deixar o país de uma hora para outra se os negócios não forem muito bons”, apontou.


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