Sondas – Licitação cancelada para reduzir custos em ambiente eufórico

O cancelamento pela Petrobras, no apagar das luzes de 2011, do pro- cesso de licitação para a contratação de serviços e afretamento de 21 sondas de perfuração marítima, que devem ser construídas no Brasil, convulsionou, mais uma vez, a indústria naval brasileira.

O setor, que desde o início desse século vivencia uma retomada da produção depois de duas décadas de estagnação, graças à forte expansão da cadeia produtiva de óleo e gás, navega agora em uma nova onda. O incre- mento das atividades exploratórias e de produção e, consequentemente, as necessidades crescentes de serviços na área de drilling provocaram uma verdadeira explosão no segmento de sondas.

Com uma demanda maior por esse tipo de unidade, para operar em águas profundas e ultraprofundas, o mercado de sondas entra em uma fase jamais vista no país. “A construção das sondas de perfuração em estaleiros brasileiros será um marco para a indústria que se preparou muito para atender a esse segmento de mercado”, afirma o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo Rocha.

Segundo o dirigente, desde 2008, as empresas se prepararam, formando parcerias e investimentos na construção de novos estaleiros, a fim de conquistar as encomendas de naviossonda. “São equipamentos com alto valor agregado e que colocam a indústria naval brasileira em um novo patamar tecnológico”, observa.

“Esse processo representa um desafio para a capacidade empresarial brasileira não somente de articular recursos financeiros, como também de aprimorar a tecnologia existente no país, incorporando aquela que será obtida com os parceiros internacionais”, conclui Rocha.

Boom naval – Prevendo um aumento significativo da demanda por bens e serviços no Brasil, por conta da implantação dos projetos na Bacia de Santos, assim como das atividades exploratórias nas demais bacias produtoras pelas quais se estende a camada do pré-sal, como a de Campos e a do Espírito Santo, a Petrobras vem implementando uma ampla estratégia com foco na área naval.

O setor foi inicialmente alavancado pelo Programa de Modernização da Frota (Promef), da Transpetro, que criou a maior carteira de encomendas de navios do planeta, assim como pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado do Polo Pré-sal da Bacia de Santos (Plansal), que previa a construção seriada de unidades de produção, na chamada “Fábrica de FPSOs” – com cascos sendo construídos no Polo Naval de Rio Grande, no Rio Grande do Sul.

Sob os ventos da bonança, a indústria naval passou a navegar em ‘mar de almirante’ – ou seja, sob as mais promissoras condições. Em2010, afrota da Petrobras chegou a 190 navios, entre próprios e afretados, além de 240 barcos de apoio e 54 sondas. Mas a previsão da empresa é receber, até 2012, outras 88 embarcações.

Depois da explosão de encomendas por navios, plataformas, barcos de apoio e outras unidades, o setor ‘entrou em uma nova onda’ após a decisão da Petrobras, em 2008, de contratar 40 sondas para suprir suas necessidades de perfuração. Uma demanda que vem crescendo a cada ano, conforme a estatal alavanca seus projetos, principalmente na área do pré-sal.

Garantia de equipamentos – No ano passado, a Petrobras recebeu nove sondas de perfuração. Outras quatro estão em fase de recebimento e testes de aceitação. Neste ano, a estatal espera colocar em operação pelo menos doze sondas de perfuração, já contratadas. Com licitações e contratações em ritmo acelerado, a companhia quer garantir equipamentos que deem a ela respaldo no crescente esforço exploratório e também no aumento da produção. A estatal prevê perfurar pelo menos 66 poços exploratórios no mar em 2012: 18 na Bacia de Santos, 16 na de Campos, 11 na do Espírito Santo, nove em Sergipe, cinco na margem leste (sendo dois na bacia do Jequitinhonha e três em Camamu/ Almada) e sete na margem equatorial (dois na bacia de Barreirinhas, três na do Potiguar, um na Foz do Amazonas e outro na do Ceará).

Há sondas trabalhando no pré-sal da Bacia de Santos (em Sapinhoá, antigo Guará), onde o projeto piloto, com capacidade para produzir 120 mil barris de petróleo dia (bpd), deve entrar em produção até o final do ano. Outras sondas estão no pré-sal de Campos (Baleia Azul) e no pós-sal da Bacia de Santos (Tiro/Sidon), para possibilitar que os pilotos entrem em operação já no terceiro semestre: Baleia Azul, com capacidade de 100 mil bpd e Tiro/ Sidon, 80 mil bpd.

Para assegurar o aumento da produção em campos ativos, há sondas em ação na Bacia de Campos, perfurando novos poços para conectá-los à P-56,em Marlim Sul, que deverá atingir seu pico de produção (100 mil bpd) no primeiro trimestre, e também em Jubarte, para a P-57 atingir sua produção máxima (180 mil bpd) no terceiro trimestre. Novos poços também serão conectados ao FPSO Cidade de Angra dos Reis (no piloto de Lula), que está previsto para atingir o pico de produção (100 mil bpd) no decorrer deste ano.

O pré-sal é alto demandante de sondas, graças à grande quantidade de poços que serão perfurados, de acordo com estimativas feitas pela companhia no final do ano passado. A previsão inicial é que nas primeiras fases do planejamento uma média de 20 poços seja interligada a cada unidade de produção instalada.

Com dez unidades previstas, isso representaria nada menos que 200 poços somente no pré-sal daquela bacia, sem contar os que serão perfurados pela costa brasileira afora, tanto em busca de novas reservas como também para otimizar a extração de petróleo em campos maduros.

Petróleo & Energia, Ariovaldo Rocha, Presidente do Sinaval, Sondas - Licitação cancelada para reduzir custos em ambiente eufórico
Rocha: construção de sondas eleva padrão de qualidade dos estaleiros

Projeto Sondas – Isso explica as ações da Petrobras para viabilizar, o mais rápido possível, a construção de sondas, consideradas pela estatal como ‘recursos críticos’ para assegurar o crescimento da produção e agregar novas reservas. Perfurar mais e mais poços nas mais promissoras bacias é condição sine qua non para ela cumprir as metas de produção estabelecidas em seus planos de negócios.

É também vital para a empresa manter o seu índice de reposição nos mesmos níveis dos últimos anos, com a aquisição de novas reservas. Não foi por outro motivo que a estatal antecipou em um ano a declaração de comercialidade de Guará (batizada então de Sapinhoá), com reservas estimadas em 2,1 bilhões de barris. Caso contrário não poderia manter o equilíbrio entre reservas e uma produção crescente, superior a dois milhões de barris por dia.

Mas a indústria ainda não estava preparada. O próprio Sinaval reconheceu que os estaleiros brasileiros não teriam condições de atender os prazos para a entrega das primeiras doze sondas, que acabaram sendo contratadas no mercado internacional pelos vencedores da licitação realizada em 2008: Odebrecht, Queiroz Galvão, Petroserv e Schahin. A despeito de tudo, as duas primeiras decidiram fazer tudo no Brasil.

As 28 sondas restantes só começariam a ser licitadas dois anos depois, em um novo cenário, com a Petrobras alavancando o Projeto Sondas, uma iniciativa que visava a criar condições que tornassem “técnica e economicamente viável a construção de plataformas de última geração para águas profundas e ultraprofundas no Brasil”. A estatal quer replicar no segmento de sondas o que já vem fazendo na área de plataformas de produção, fabricadas integralmente no país, dentro dos parâmetros mundiais de qualidade.

Licitação feita no final de 2010 apresentaria o resultado em fevereiro do ano seguinte, com as sete primeiras sondas do pacote de 28 sendo encomendadas ao Estaleiro Atlântico Sul (EAS), que deu início à construção delasem Suape-PE. Aum preço unitário de aproximadamente US$ 670 milhões e com a primeira entrega prevista para 2015, essas sete sondas serão usadas no pré-sal, em águas profundas.

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Na primeira licitação, atendendo às exigências da própria Petrobras, as construtoras Norberto Odebrecht e Queiroz Galvão, juntamente com a UTC Engenharia S.A., em 2008, formaram o Consórcio Rio Paraguaçu e reativaram um estaleiro em Maragogipe-BA, próximo à Baía de Todos os Santos. Neste projeto – orçado em torno de R$ 2 bilhões, dos quais R$ 1,7 bilhão financiados pelo Fundo da Marinha Mercante (FMM) –, a Odebrecht tem 50% de participação e os outros dois parceiros, 25% cada um. O desafio do trio brasileiro é construir as duas sondas de perfuração autoelevatórias (jack-up), a P-59 e a P-60, que não eram fabricadas no país há mais de 30 anos, ao mesmo tempo em que erguem um moderno estaleiro, que vai processar 60 mil t/ano de aço. Caso similar ao do EAS, que tem sete sondas encomendadas.

O consórcio vai incrementar as atividades no canteiro da São Roque do Paraguaçu (com um total de 400 mil m2 de área), utilizado pela proprietária, a Petrobras, como base de apoio à frota de balsas, transbordo de cargas e equipamentos, além de ter outras instalações, entre as quais um heliporto.

Com cascos flutuantes e 11 mil toneladas de peso cada uma, essas unidades, que deverão ser entregues em 2012, são dotadas de pernas retráteis, que podem ser abaixadas até o leito do mar para elevar a estrutura do casco acima do nível da água. São indicadas para perfuração offshore em condições de alta pressão e alta temperatura, em lâminas d’água rasa de até110 m.

O contrato, em regime de EPC, orçado em cerca de US$ 750 milhões, prevê a entrega das unidades entre 2011 e 2012. O projeto de engenharia é da norte-americana Letourneau Offshore Products, que também forneceu os equipamentos de perfuração, sendo da brasileira Projemar o detalhamento do projeto de engenharia básica.

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Novo player – A grande novidade ficou por conta do anúncio de que o afretamento seria com a recém-criada Sete Brasil S.A. (Sete BR), que assumiria o contrato de construção com o EAS. Surgia assim uma nova empresa, constituída pelo Fundo de Investimentos em Participações – FIP Sondas, gerido pela Caixa Econômica Federal (CEF).

Com 90% de participação, o FIP teria quotistas investidores de mercado, inclusive fundos de pensão e bancos de investimentos brasileiros. Entre eles estão os bancos Santander, Bradesco, BTG Pactual, Caixa Econômica Federal, além de Previ, Petros, Funcef, Valia e Lakeshore Financial Partners Participações.

A Petrobras acabou ficando com pouco menos de 10% das ações da nova empresa, que somente foi formalizada em maio de 2011 (três meses após o anúncio do resultado da licitação). “Tratase de uma empresa com enorme potencial graças não apenas às demandas da Petrobras, mas de todo o setor”, destacou José Sérgio Gabrielli, então presidente da estatal, na solenidade de assinatura do contrato de criação da Sete BR.

Presidida pelo empresário João Carlos Ferraz, a Sete BR poderá escolher como parceiras e coproprietárias dos navios-sonda empresas com experiência para efetuar a operação dessas unidades, na prestação dos serviços contratados pela estatal. Especialistas do setor asseguram que a participação da Petrobras, inferior a 10%, não é impeditivo para a Sete Brasil participar de licitações da própria estatal. O fundo Petros tem 13% de participação.

Águas revoltas – Prova disso é que ela foi uma das empresas que participaram do novo processo licitatório, dessa feita em águas revoltas em razão do cancelamento de licitações anunciadas anteriormente, por não terem sido apresentados “preços vantajosos” para a estatal. Uma sinalização clara de que ela vai recorrer, e com o apoio do governo, a todos os recursos necessários para viabilizar sua grande carteira de projetos – mais de 600 até 2017.

O novo sistema de licitação adotado pela estatal é especial, pois não participam estaleiros. A licitação é para as operadoras das sondas, que terão direito de destinar as obras para os estaleiros de sua preferência, desde que dentro dos preços e especificações definidas no processo. Além da Sete Brasil, também participou a Ocean Rig do Brasil (subsidiária da Ocean Rig, do grupo grego DryShip), que pretende realizar as obras nos estaleiros fluminenses Eisa e Mauá, de Niterói, com unidades de perfuração da Huisman.

O processo de licitação dos quinze navios-sonda e seis semissubmersíveis navega em águas revoltas, com as duas operadoras alternando a liderança em diferentes etapas, uma vez que a Petrobras pediu revisão de preços mais de uma vez. Na primeira, a Ocean Rig foi a vencedora; e na segunda, a Sete BR.

Esta última, criada há menos de um ano e sem qualificação técnica reconhecida para operar unidades, contaria com parceiros de peso como Odfjell, Seadrill, e as brasileiras Odebrecht e Queiroz Galvão, que também dariam respaldo na construção da unidade, no estaleiro do Consórcio Rio Paraguaçu (ver box), na Bahia. A Sete Brasil também poderá distribuir as encomendas que receber nessa negociação a outros estaleiros, como Jurong (ES), Brasfels e OSX (RJ) e Rio Grande (RS).

Há uma disputa acirrada entre as duas operadoras. A tempestade nas águas da indústria naval poderá ser amainada com a decisão da estatal de cancelar mais uma vez a licitação, no apagar das luzes de 2011, para iniciar uma negociação direta com as duas proponentes, para obter melhores condições. E dividir o enorme bolo (cada unidade está em torno de US$ 700 milhões) a fim de evitar novos impasses e polêmicas.

Ganhando fôlego – Enquanto a negociação segue em frente, a Sete Brasil já dá os primeiros passos para compor sua frota. No final de 2011, um dia antes do cancelamento da licitação, a empresa anunciou acordo para construção de sua primeira sonda semissubmersível, no valor de US$ 809 milhões (R$ 1,5 bilhão) e entrega prevista para 2015.

O contrato firmado entre a Sete Brasil, pela subsidiária Urca Drilling B.V., e a Keppel Offshore & Marine Ltd (Keppel O&M), pela subsidiária Fernvale Pte., abrange a concepção e construção da plataforma semissubmersível de perfuração DSS 38E, da Keppel, com capacidade para perfurar até 10 mil metros (sob 3 mil metros de lâmina d’água).

“Estamos confiantes que a sonda será adequada para a costa brasileira”, afirmou João Carlos Ferraz, presidente da Sete Brasil, destacando que as plataformas projetadas pela Keppel têm um histórico de operação eficiente. “Ter como parceira a Keppel é uma garantia de termos um equipamento de qualidade dentro do prazo e custos esperados.”

Evitando falar na licitação pendente o executivo garantiu que nos próximos anos a empresa vai encomendar mais unidades para atender à demanda do mercado brasileiro, principalmente para a exploração do pré-sal. Adequado para esse cenário, o modelo DSS 38E, com108 metrosde comprimento, terá capacidade de deslocamento operacional de cerca de 45 mil toneladas e sistema de armazenamento de elevação vertical e horizontal.

“É importante estar associado à empresa brasileira no desenvolvimento de soluções de perfuração para os campos de petróleo em águas profundas”, afirmou Chow Yuen Yew, presidente da Keppel Offshore para a América Latina. Ele lembrou que será a terceira plataforma da Keppel a entrar em operação no país.

 

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