Petróleo e Energia

Segurança: Marco regulatório deve orientar perfuração de poços no setor offshore

Bia Teixeira
18 de agosto de 2015
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    Brasil ainda carece de regulamentação específica para garantir a segurança da atividade, embora desenvolva intensa campanha exploratória, com previsão de perfurar 2 mil poços até o final da década

    Os acidentes que ocorrem na exploração e produção de petróleo em todo o mundo passaram a ser acompanhados de perto não somente por autoridades, seguradoras, sindicatos e organizações ambientais como também por investidores e representantes da sociedade organizada. Afinal, os impactos socioeconômicos e ambientais desses acidentes não geram apenas perdas imediatas, sejam de vidas humanas, recursos financeiros, patrimônio, meio ambiente e ainda de imagem das empresas envolvidas.

    Petróleo & Energia, Número de incidentes comunicados por segmento

    Número de incidentes comunicados por segmento

    Cinco anos depois do acidente da sonda petrolífera semissubmersível de posicionamento dinâmico Deepwater Horizon, no prospecto de Macondo, no Golfo do México, a BP ainda não conseguiu ‘fechar as contas’ desse episódio, que abalou profundamente a reputação e os negócios da operadora britânica, assim como das norte-americanas Transocean, dona da sonda, e Halliburton, empresa que fez serviços de completação.

    Daí a grande preocupação em torno da segurança offshore, principalmente em atividades que podem incorrer em maior risco, como as relacionadas aos poços, em todas as fases do ciclo de vida deles – do projeto, perfuração e completação à intervenção (para manutenção e reparo) e abandono (descomissionamento).

    A segurança offshore inclui também a etapa de produção, quando é maior o risco de acidentes graves (MAH, sigla do inglês major accident hazards), que afetam um grande número de pessoas embarcadas, colocam em risco a unidade e podem resultar em desastre ambiental, principalmente quando ocorrem em unidades de produção que também armazenam óleo (como os FPSO).

    Nova regulamentação – Devido à intensificação das atividades exploratórias no Brasil, com a perfuração de um número expressivo de poços de grande profundidade e em ambientes severos, como o de águas ultraprofundas e da camada do pré-sal, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) vem trabalhando para consolidar um novo marco regulatório da segurança offshore.

    Desde 2012, a agência busca avançar na elaboração de dois novos regulamentos técnicos, relacionados a sistemas de gerenciamento: um de segurança operacional para dutos submarinos e outro para perfuração e gestão de integridade de poços. As resoluções que surgirem desse trabalho deverão estar alinhadas com as boas práticas e tendências internacionais, ainda que a regulamentação de segurança tenha variações, até mesmo pelas características específicas que podem ter a atividade offshore em uma região.

    No caso da perfuração, demandará que as petroleiras, bem como as fornecedoras de bens e serviços, alinhem seus padrões globais de operação aos regulamentos locais. O que implicará também na necessidade de supervisão/fiscalização permanente dessas atividades. Principalmente se o forem concretizadas as previsões para os próximos anos, de perfuração de mais de dois mil novos poços até o final dessa década, somente da Petrobras.

    Essa intensa campanha de perfuração visa acelerar o desenvolvimento do pré-sal, de forma a monetizar reservas e recuperar os investimentos efetuados até agora, como também as metas de produção – a da Petrobras é alcançar 4,2 milhões de barris diários de óleo em 2020. A maior parte, de reservas offshore: hoje, aproximadamente 93,3% da produção de petróleo e 75,5% do gás natural foram explotados de campos marítimos no Brasil, segundo dados da ANP, de março de 2015.

    Segurança em pauta – A questão da segurança offshore, que dever estar na ordem do dia da indústria brasileira de óleo e gás – e de todos os países produtores –, vem sendo enfatizada pela DNV GL, uma das principais consultorias internacionais nessa área.

    Formada pela fusão da norueguesa Det Norske Veritas (fundada em 1864) com a alemã Germanischer Lloyd (fundada em 1867), líderes na área de classificação marítima, certificação de sistemas de gestão e gerenciamento de riscos, a consultoria independente, com operação em mais de 100 países, vem colaborando com órgãos reguladores de diversos países para o aprimoramento da regulamentação de segurança na área offshore, entre outros aspectos.

    No dia 7 de maio, antes do encerramento da Offshore Technology Conference (OTC), maior evento do mundo nesse setor, realizado em Houston (Texas, EUA), a DNV GL Oil & Gas, divulgou o relatório “Regulatory Outlook: The way forward for offshore regulatory safety regimes”. Através de uma série de estudos de casos, o relatório fornece uma visão geral do status atual e de possíveis desenvolvimentos futuros das regulamentações de segurança offshore no Brasil, México, União Europeia, Angola e Austrália, além de países que desenvolvem atividades no ambiente ártico, como os EUA (no Alasca), Canadá, Groelândia, Noruega e Rússia.

    Petróleo & Energia, Elisabeth: lições de acidentes devem orientar normas do setor

    Elisabeth: lições de acidentes devem orientar normas do setor

    Além de avaliar cenários possíveis para o aprimoramento desse marco regulatório em distintos países, a equipe de estudos identifica fatores-chave para a redução de riscos de grandes acidentes em cada região. Entre os quais se destacam a implementação de regulamentações de segurança baseada em performance com verificação independente, o gerenciamento avançado das barreiras de segurança e intensificação da troca de informações e experiências entre reguladores e operadores, assim como maior fiscalização e punição mais efetiva no caso dos chamados MAHs.

    “A contribuição da DNV GL como especialista em gestão de riscos consiste em prestar assistência para o entendimento de riscos de grandes acidentes à indústria, que enfrenta ambientes cada vez mais complexos e desafiadores”, destacou Elisabeth Tørstad, CEO da divisão de Óleo e Gás da DNV GL, na divulgação do estudo. “Gostaríamos de ver o aprendizado decorrente de incidentes e grandes acidentes incorporado em regulamentações de segurança, bem como nas práticas operacionais das empresas.”

    Debate fechado – Na semana seguinte à OTC, a DNV GL trouxe o tema para o Brasil, que está entre os grandes produtores de petróleo offshore do mundo, ao promover o seminário Drilling and Well Integrity and Safety & Managed Pressure Drilling (MPD) – Integridade e Segurança de Perfuração e Poços & Perfuração com Pressão Gerenciada. Um evento fechado, com acesso restrito apenas aos convidados e palestrantes, entre os quais executivos e profissionais da Statoil, Petrobras, ANP e IADC (International Association of Drilling Contractors), que representa as principais empresas de perfuração do mundo inteiro.

    Petróleo & Energia, Oliveira: novas regras sempre enfrentam resistência inicial

    Oliveira: novas regras sempre enfrentam resistência inicial

    De acordo com Luiz Fernando Oliveira, vice-presidente da DNV GL Oil & Gas e gerente de P&D para a América do Sul, representantes de outras empresas e instituições estavam entre o público do evento, que foi dividido em nove sessões. O intuito foi aprofundar a discussão em torno de técnicas de segurança e perfuração, com foco na manutenção da integridade dos poços e uso de novas tecnologias – como a MPD, tema do evento. Também foram analisados alguns dos grandes acidentes ocorridos no Brasil e no exterior, assim como cases bem sucedidos de aplicação e desenvolvimento de tecnologias de perfuração e sistemas de gestão de integridade de poços.

    “O nosso objetivo foi reunir experiências diversas e o que vem sendo feito no exterior para um debate, pois entendemos que esse é o momento de aprofundar a discussão em torno da segurança, considerando a intensidade da perfuração de novos poços do programa offshore do Brasil. Essa é uma atividade que tem um risco inerente razoavelmente alto”, diz, avaliando que o Brasil concentra o maior número de sondas em operação em um único país (87, em 2014, segundo a ANP).

    Atividade que vem sendo alavancada pelo potencial do pré-sal, que, na avaliação de especialistas, mal começou a ser explorado, uma vez que se estende por 800 quilômetros da costa brasileira. Por isso mesmo, o número de novos poços exploratórios deve crescer exponencialmente em relação aos 117 perfurados na primeira década (de 2005 a março de 2015), com um índice de sucesso de 90%, segundo apresentação feita na OTC pela diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Solange Guedes.

    O mesmo se dá em relação aos poços de produção dos projetos de desenvolvimento dessa nova fronteira, que em maio deste ano, segundo a executiva da estatal, somava um total de 55 poços em 12 sistemas de produção – seis deles de plataformas que estão interligadas a reservatórios do pré-sal e do pós-sal, simultaneamente, pois já estavam operando na Bacia de Campos e tinham capacidade disponível para aumentar a produção. Seis a mais do que a ANP registrou em abril: 49 poços produtores do petróleo do pré-sal, sendo 26 na Bacia de Campos.

    Sem falar em outras bacias que vem atraindo atenção de petroleiras, como é o caso da Bacia de Sergipe-Alagoas (Seal), onde a Petrobras descobriu grandes reservatórios em águas ultraprofundas e hoje tem seis planos de avaliação da descoberta (PAD) em seu programa exploratório para a região.



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