Rio Oil & Gas: Petrobras divulga plano de negócios crível e realista

Petróleo & Energia, Parente: regime de partilha com presença obrigatória é inviável
Parente: regime de partilha com presença obrigatória é inviável

A Petrobras realinhou suas metas e projetos de investimento no Plano de Negócios e Gestão (PNG) 2017-2021, exibindo um perfil muito mais comedido e realista, apontando ao mercado a diretriz de reduzir o endividamento, aumentar a eficiência operacional e recuperar a higidez econômico-financeira. Por isso, o valor anunciado de investimentos próprios para esse período soma US$ 74,1 bilhões, 25% inferior ao valor anunciado (mas não realizado) no PN 2015-2019, que era de US$ 98,4 bilhões. E muito aquém dos delirantes US$ 236,7 bilhões do PN 2013-2017, que exigiram aumentar as dívidas da companhia.

Não apenas os investimentos foram reduzidos, mas também as metas. O PN 2013-2017, por exemplo, apontava para uma produção de 4,2 milhões de barris de óleo por dia (bpd) no Brasil em 2020. O PN atual parte de 2,52 milhões de bpd em 2017 para chegar a 3,34 milhões de bpd em 2021 (só no Brasil).

Alguns analistas questionam a viabilidade de alcançar esse objetivo com volume reduzido de investimentos. A diretora de Exploração e Produção, Solange Guedes, explicou que os grandes investimentos em novas plataformas e sondas foram concluídos nos últimos anos e a estatal vem obtendo resultados importantes na redução de tempo (e custos) na construção e interligação de poços submarinos. Na área do pré-sal da Bacia de Santos, em 2010, um poço consumia 310 dias de serviço, hoje reduzidos para apenas 89 dias. Aliás, a produtividade dos poços mais recentes dessa bacia – a atual prioridade de E&P – também cresceu: em 2010, um poço das áreas de concessão produzia a média de 20 mil bpd, volume que subiu 30% até 2016, chegando a 26 mil bpd. “Com isso, hoje conseguimos atingir a capacidade máxima de uma plataforma de produção com apenas seis poços interligados, contra oito de seis anos antes”, comentou.

Petróleo & Energia, Solange: recuperar geração de caixa é a prioridade inicial
Solange: recuperar geração de caixa é a prioridade inicial

A diretoria de E&P continua com a parte do leão dos investimentos da estatal. No PN atual, terá US$ 60,6 bilhões para investir, dos quais 76% serão alocados no desenvolvimento da produção e 11% em exploração, ficando os 13% restantes para suporte operacional. A região do pré-sal receberá 66% dos recursos, mantendo o status de prioridade nos planos da companhia.

“No primeiro momento, vamos gerir nosso portfólio com foco em rentabilidade e geração de caixa imediata; depois de 2018, passaremos a avançar nos campos já descobertos, ampliando o valor do portfólio mediante parcerias com outras companhias, como operadoras; e deixaremos para abrir novas fronteiras exploratórias a partir de 2020”, salientou a diretora de E&P. É preciso considerar que a Petrobras possui um enorme volume de reservas provadas, mais do que suficiente para suportar a produção de óleo e gás pelos próximos quinze anos. Nesse quadro, a exploração em águas profundas, nos campos de produção mais elevada, é a alternativa mais rentável no curto prazo, além de aproveitar a excelência tecnológica da companhia.

O custo de extração de óleo vem caindo consistentemente desde 2014, quando era estimado em US$ 14,6 por barril. Hoje, está por volta de US$ 11/bbl, mas tende a chegar a US$ 9,6/bbl até 2021. Isso será conseguido, segundo a diretora, mediante o aumento da participação do pré-sal na carteira exploratória, que tem custos mais baixos, renegociações contratuais mais vantajosas para a estatal, gestão adequada da ociosidade das sondas, otimização de gastos com frota de apoio e redução de gastos com pessoal.

Uma grande preocupação da estatal está no decaimento da produção das áreas da Bacia de Campos, que ainda respondem por 80% da oferta de óleo nacional. São campos do pós-sal, de formação turbidítica (o pré-sal é confinado em calcário), que entraram em declínio acentuado depois de 2013. O programa de recuperação então iniciado conseguiu estabilizar a curva de queda de produção para 9% ao ano, mas serão feitos investimentos para revitalizar Marlim, além de reforçar parcerias para aumentar o potencial de produção da bacia.

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Refino e petroquímica – O downstream da petroleira nacional será profundamente afetado pelo novo posicionamento estratégico. Dada a necessidade de gerar caixa, a companhia anunciou a alienação de ativos no valor de R$ 15 bilhões até o final de 2016, e mais R$ 19,5 bilhões entre 2017 e 2018. Uma parte dessas vendas se refere às participações em áreas exploratórias, mas grande parte das atividades antes compreendidas na diretoria de abastecimento será negociada. “Sairemos totalmente da produção de biocombustíveis, com a qual temos pouca sinergia, da distribuição de GLP, da fabricação de fertilizantes agrícolas, e venderemos nossas participações petroquímicas”, comunicou o presidente Pedro Parente. São atividades agora consideradas fora do core business.

Além disso, pretende-se reestruturar o negócio de energia elétrica, consolidando ativos termelétricos e outros do segmento, buscando elevar ao máximo o seu valor para a companhia. A produção de lubrificantes também passará por profunda revisão, de modo a acompanhar as tendências atuais de mercado por óleos básicos de melhor desempenho e qualidade.

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A área de refino e gás natural (RGN) da Petrobras terá disponíveis US$ 12,4 bilhões para investimento entre 2017-2021. A maior parte (33%) será destinada para operações de manutenção (continuidade operacional) em refino, transporte e comercialização (RTC), atividade que consumirá 25% desse montante em novos projetos. Em gás natural, a prioridade será concedida aos investimentos novos (24%), contra apenas 11% em continuidade operacional.

É preciso salientar que a companhia decidiu alienar parte de sua rede de gasodutos, tendo para isso fracionado a empresa Transportadora Associada de Gás (TAG) em 2015. Em setembro, a companhia vendeu 90% da malha Sudeste para a canadense Brookfield, por US$ 5,2 bilhões. Com isso, a estatal pagará para transportar gás por esses dutos. A malha Nordeste está à venda. Resta verificar se os operadores privados serão mais eficientes na gestão desses sistemas de transporte.

Quanto ao refino, a estatal pretende reduzir o custo unitário de processamento em suas instalações de US$ 0,49 por UEDC (unidade equivalente de capacidade de destilação) para US$ 0,29 até 2021. Isso será obtido pela interligação de atividades comuns às refinarias, otimização dos recursos de apoio, dos catalisadores e da energia consumida, além de avanços na manutenção.

Os grandes projetos de novas capacidades de refino foram postergados. A carteira da estatal até 2021 contempla apenas a conclusão da unidade de remoção de enxofre e nitrogenados da Rnest, que permitirá obter a licença do Ibama para aumentar a capacidade de refino de 110 mil bpd para 130 mil bpd. O projeto do segundo trem de refino, com mesma capacidade, devera ficar ao encargo de um parceiro. O Comperj também recorrerá a uma parceria para a construção da refinaria, mas a estatal vai concluir a unidade de processamento de gás natural do local. As rotas 1 e 3 de escoamento da produção do pré-sal estão em estudo e implantação, respectivamente.

A política de preços de venda dos derivados de óleo foi revista e atualizada às novas condições de mercado e ao caixa da companhia. “Quem decide o preço da gasolina e do diesel da Petrobrás, a pedido da sua diretoria, é o conselho de administração”, ressaltou Pedro Parente, refutando interferências políticas no processo. Ele admite que os preços praticados no Brasil para os principais derivados estejam quase 20% acima do valor de mercado internacional. “Eu prefiro que os preços locais acompanhem mais de perto as cotações internacionais”, comentou.

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A tendência global é preços contidos para o petróleo cru e seus derivados, posto que há capacidades excedentes de refino. O PN 2017-2021 considerou preços do Brent em elevação no período, chegando a US$ 71 por barril no fim do período. Valos bem mais alto que os atuais US$ 45/bbl, mas muito distantes dos mais de US$ 140/bbl de 2008.

A visão estratégica atual da companhia também considera a necessidade de acompanhar os compromissos assumidos na Conferência do Clima da Onu (COP-21), com o objetivo de limitar as emissões de gás carbônico. Olhando para dentro, isso implica rever as operações para reduzir as emissões. Para o âmbito externo, é preciso reforçar o foco na produção de energia, em suas variadas formas. Nesse contexto, o gás natural é considerado o combustível de transição para uma economia de baixo carbono e será incentivado.

Petróleo & Energia, Repsold: feira é oportunidade para explicar melhor o plano
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Mudanças esperadas – O quadro nacional e internacional do setor impõe dificuldades para a evolução da companhia. Nesse cenário, a diretoria da estatal recomenda rever o modelo de partilha, criado na administração federal anterior, que impõe a presença da Petrobras como operadora de todos os campos a explorar. “O modelo de partilha é inviável e estamos negociando uma fórmula para, pelo menos, retirarmos essa obrigatoriedade de participação da companhia”, comentou Parente. Da mesma forma, a exigência de conteúdo local deverá ser alterada, para reduzir o custo e os atrasos dos projetos.

Profundamente abalada em sua imagem e no seu caixa por diversas operações ligadas à corrupção, a Petrobras informa estar colaborando com todas as investigações oficiais, além de ter criado sindicâncias internas para averiguação de responsabilidades. Mais além: estão sendo adotados critérios e procedimentos com o objetivo de impedir que esses problemas se repitam. Entre eles, Parente citou a nomeação de membros da diretoria e do conselho mediante aspectos exclusivamente técnicos, sem apadrinhamento político-partidário, exigência de adesão ao código de ética e de conduta por parte de todos os empregados, canais independentes para receber denúncias, due dilligences de contrapartes, entre outras. A tomada de decisões da companhia será feita por comitês específicos, eliminado a possibilidade de aprovação por uma só pessoa. Segundo Parente, essas medidas não tornarão as negociações com a estatal mais morosas, mas se aproximarão dos padrões internacionais mais rigorosos, auxiliando a recuperar a reputação da companhia.

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