Qualidade: Certificar ou Não Certificar, eis a questão

Mark H. Masters

Nas duas últimas décadas, foi vertiginoso o crescimento do mercado mundial de equipamentos submetidos à pressão para as indústrias de óleo & gás e para outras nas quais ocorrem processos contínuos. Ao mesmo tempo, fabricantes e clientes desses equipamentos assistiram à proliferação de códigos e normas que assegurassem, cada vez mais, que um equipamento de pressão estivesse apto a operar de forma segura e confiável. O Código Asme “Boiler and Pressure Vessel Code” (BPV Code) da American Society of Mechanical Engineers é, sem nenhuma dúvida, o código mais amplamente adotado e, de fato, a base para muitas especificações locais.

No entanto, apesar do amplo uso, ainda restam conceitos equivocados de como pode ser obtida a “conformidade” com o Código Asme, ou sobre o valor agregado pela Certificação Asme formal, quando comparada à solicitação genérica do comprador que requer que o equipamento seja projetado e fabricado “em conformidade com o Asme”. Neste artigo, apresento um breve histórico do Código Asme e seus critérios de certificação. Refuto, ainda, alguns maus conceitos comumente utilizados quanto aos custos de certificação e, finalmente, apresento um estudo de caso que ilustra bem o valor da Certificação Asme.

Petróleo & Energia, Qualidade: Certificar ou Não Certificar, eis a questãoHistória – O primeiro Código Asme de caldeiras foi publicado há 100 anos, em 1914. Desde então, ele foi sendo ampliado, agregando regras para projeto, fabricação e testes sobre uma ampla variedade de equipamentos submetidos à pressão, inclusive geradores nucleares de vapor, trocadores de calor e outros não sujeitos à chama, além dos códigos para tubulação de vapor e de diferentes processos. A evolução dos códigos foi marcante, agregando novos processos fabris e também novas tecnologias, tais como a mudança da fabricação rebitada para a soldada. Essa evolução foi alcançada pela abordagem única do Código Asme no tratamento e no desenvolvimento de códigos e normas, resultado do trabalho dos comitês constituídos por voluntários representantes de fabricantes, organismos reguladores e proprietários/usuários de equipamentos submetidos à pressão.

O processo de certificação – A Certi­ficação Asme – ou seja, a obtenção dos Certificados de Autorização e da Marca de Certificação do Código – requer, primeiro, que o fabricante prepare a descrição escrita do seu Sistema de Controle da Qualidade (SCQ), por meio de um Manual de Controle da Qualidade (MCQ), complementado por procedimentos específicos. O SCQ deve contemplar, no mínimo, os seguintes itens:

· Autoridade e responsabilidade

· Organograma

· Desenvolvimento e controle de desenhos, cálculos de projeto e especificações técnicas

· Controle de Materiais, incluindo aquisição e recebimento

· Programa de exames e inspeções

· Correções das não-conformidades

· Soldagem

· Exames não-destrutivos (END)

· Tratamento térmico

· Calibração de equipamentos de medição e testes

· Retenção de registros

· Interação com o inspetor autorizado ou a agência certificadora Asme

· Certificações (métodos utilizados para demonstrar autorizações e aprovações)

Petróleo & Energia, Certificação oferece mais segurança às indústrias
Certificação oferece mais segurança às indústrias

Após a implementação satisfatória do SCQ, o fabricante deverá também ser submetido a uma auditoria do Sistema de Controle de Qualidade – conhecida como Asme Joint Review – e demonstrar fisicamente sua habilidade para implementar o sistema. Para isso, deverá ser utilizado um equipamento para demonstração ou um equipamento referente a uma ordem de serviço real. Ressalvando-se que essa demonstração, especificamente, deverá representar fiel e integralmente cada elemento do Programa de Qualidade descrito no MCQ. O Asme Joint Review é realizado por uma equipe de composta de um líder (representante da Asme), do Inspetor Autorizado Supervisor e do Inspetor Autorizado (representantes da Agência de Inspeção Autorizada Asme).

Caso na avaliação da equipe o programa, tal como escrito e implementado, atenda aos requisitos do Código Asme, então, será feita a recomendação ao Comitê de Credenciamento e Certificação da Asme para que seja emitido o Certificado de Autorização para esse fabricante. Uma vez emitidos os certificados, eles são válidos por três anos. Depois desse período o fabricante deverá solicitar formalmente a renovação da certificação, que exigirá o mesmo processo aplicado à auditoria inicial, e assegurar que o SCQ continue fiel aos requisitos referentes ao código.

A certificação do equipamento é evidenciada pelo Relatório de Dados do Fabricante, o MDR (Manufacturer’s Data Report) e pela aplicação da Marca de Certificação do Código Asme diretamente na placa de identificação do equipamento. O MDR é emitido e certificado pelo fabricante e assinado também pelo Inspetor Autorizado Asme da Agência Autorizada (AIA, Authorized Inspection Agency). Ambos, a Marca de Certificação Asme e o MDR, são igualmente exigidos para a emissão do certificado do equipamento, mas o Relatório de Dados é em particular importante, já que alguns compradores de equipamentos submetidos à pressão solicitam genericamente equipamentos “fabricados e/ou projetados de acordo com o Asme”, mas não exigem a certificação, ou seja, os dois elementos que a integram: a Marca de Certificação e o MDR. Essa prática nos remete a uma questão prática: afinal, qual é a diferença entre um equipamento certificado e um não-certificado?

Verificação de terceira parte – Pri­meiro, há que se considerar que o parâmetro de qualidade tratado no Código Asme incorpora o aspecto de uma norma de segurança, mais do que propriamente um padrão de qualidade. Considerando a possibilidade real de riscos a pessoas e propriedades, inerente a equipamentos submetidos à pressão, o Código Asme exige que uma terceira parte, qualificada e objetiva, verifique se os requisitos do Código estão sendo atendidos. Essa terceira parte é o Inspetor Autorizado (Al, Authorized Inspector) que é funcionário de uma AIA. Ambos, o inspetor e a agência, devem demonstrar seu máximo conhecimento, tanto ao avaliar a conformidade com o código quanto para as entidades credenciadoras. A Agência Autorizada também detém o Certificado de Credenciamento do Asme que deverá ser revisto ou auditado em um processo similar ao qual é submetido o fabricante.

As atribuições específicas do Inspetor Autorizado incluem:

· Verificação e aceitação do Sistema de Controle da Qualidade documentado;

· Verificação de cálculos, desenhos e especificações técnicas;

· Ressalte-se que é responsabilidade do fabricante assegurar que os cálculos estejam acurados e corretos e que atendam aos requisitos do Código Asme;

· Verificação e aceitação das qualificações do pessoal de END, soldadores e operadores de soldagem ou brasagem;

· Verificação e aceitação das qualificações dos procedimentos de END, soldagem e brasagem;

· Monitoramento do Sistema de Controle da Qualidade, incluindo calibração, controle de materiais, inspeção e testes, tratamento térmico etc.;

· Executar a inspeção interna e externa do equipamento acabado;

· Presença in loco durante o teste de pressão final do equipamento;

· Verificação da correta descrição do equipamento no MDR e evidenciar pela sua assinatura com a respectiva indicação do número do seu registro de qualificação como Inspetor Autorizado Asme;

· Assinatura no campo de certificação da Agência de Inspeção Autorizada, atestando que o equipamento atende aos requisitos do Código Asme.

Porque certificar – O Código Asme é absolutamente claro e específico no que diz respeito aos requisitos a serem atendidos para que um equipamento seja certificado. Caso contrário, não há uma definição clara do que é requerido quando um equipamento é especificado como “fabricado ou construído de acordo com o Código Asme”. Com base na experiência, posso afirmar que esses equipamentos, geralmente, apresentam pelo menos um dos problemas seguintes:

· A inspeção de terceira parte não foi efetuada por um Inspetor Autorizado Asme;

· O Código Asme pode ter sido utilizado para projeto, mas os requisitos de fabricação talvez não tenham sido observados;

· O Código Asme pode ter sido utilizado apenas para algumas atividades de fabricação;

· O fabricante não demonstrou a implementação do Sistema da Qualidade em conformidade com o Código Asme;

· Materiais de qualidade inferior podem ter sido utilizados, em vez dos materiais requeridos pelo Código Asme;

· Procedimentos e pessoal de END e/ou de soldagem podem não ter sido qualificados de acordo com os requisitos do Código Asme.

São muitos os argumentos, apa­rentemente sólidos, capazes de justificar um vaso de pressão fabricado “de acordo com o Código Asme”, mas na realidade, são falhos os que servem de base para essa argumentação. Vejamos as justificativas mais comumente ouvidas, e facilmente refutáveis, para que não se proceda à Certificação Asme.

“A inspeção requerida pelo Asme adiciona custos desnecessários”. Sendo obrigatória a presença de inspetores de terceira parte para a verificação dos equipamentos submetidos à pressão e considerados críticos, é, portanto, inevitável o custo de inspeção. Contornar essa questão, implica assegurar que se gere valor agregado aos custos assumidos. Com o Código Asme, o valor é aumentado porque isso requer o trabalho do Inspetor Autorizado, cujo desempenho dependerá da responsabilidade assumida pela Agência de Inspeção Autorizada. Além disso, a expertise do Inspetor Autorizado resulta em menos tempo de inspeção.

“É difícil encontrar fabricantes certificados”. No website da Asme (www.asme.org) está disponível uma lista de fabricantes certificados composta por um número cada vez maior, sobretudo sediados fora dos Estados Unidos. A América do Sul, em particular, tem apresentado aumento expressivo no número de empresas certificadas. Omitindo a inspeção autorizada e a Marca de Certificação Asme, os compradores acabam por encorajar os fabricantes que investiram na Certificação Asme a abandonar suas certificações e a manutenção do Sistema de Controle da Qualidade em conformidade com o Asme.

“Materiais requeridos pelo Có­digo Asme não estão disponíveis localmente”. Ainda que o Código Asme enumere os requisitos para materiais usados na construção de equipamentos submetidos à pressão, é permitido que os fabricantes certificados, recertifiquem materiais para uma especificação aceita pelo código, desde que atendidas as de propriedades químicas, mecânicas e metalúrgicas desses materiais. O Asme elenca materiais cuja substituição por outros inferiores, isso comprovado em serviço, pode levar a sérios comprometimentos durante a operação, com consequente inadequação ao serviço e também a redução da vida útil dos equipamentos submetidos à pressão.

“Não existe diferença entre equipamentos certificados e não-certificados.” Existe sim, há diferenças significativas entre eles. Algumas delas podem incluir:

· A verificação de terceira parte assegura que os requisitos do código são efetivamente atendidos e que o fabricante controla seus processos. Isso é fundamental para conter o eventual impacto em casos de alteração na equipe de funcionários e para manter o aspecto de melhoria contínua do Código Asme;

· O projeto das juntas soldadas e a qualificação dos procedimentos de soldagem e soldadores são verificados quando é requerida a certificação. A qualidade da soldagem, invariavelmente, resulta comprometida quando há omissão da certificação;

· Os registros requeridos pelo código (MDR, desenhos, cálculos, relatório de teste final etc.) são indispensáveis para eventuais reparos no futuro e para alteração ou venda do equipamento;

· A segurança em saber que o equipamento cumpre com as especificações do Código Asme.

Estudo de caso – O valor único do Código Asme está bem ilustrado em um projeto recentemente implementado na área de geração de energia. Os produtos em questão foram duas caldeiras de recuperação para a geração de vapor (tipo HRSG, de 500 MW), certificadas pelo Asme para serem instaladas na Usina Astoria II, em Queens, Nova York. Os geradores de vapor foram projetados por uma empresa canadense certificada Asme e com componentes (spools de tubulação, painéis da caldeira de recuperação, tubulões de vapor) fabricados e providos como “partes certificadas Asme” por fabricantes certificados Asme na Indonésia, na Malásia e nos Estados Unidos. Os materiais foram fornecidos por empresas vietnamitas, americanas e de outras regiões. A montagem, os testes finais e a certificação dos geradores foram realizados no México por empresa equatoriana também certificada Asme e, de lá, transportados por barcaça através do Rio Queens para a usina. Eis algumas vantagens na utilização do Código Asme e das empresas certificadas, nesse empreendimento:

· Garante-se a otimização dos custos mediante a aquisição “globalizada”, sem comprometer a qualidade, pois os requisitos do Código Asme são mantidos, seja qual for o local de implantação do projeto;

· A identificação facilitada dos materiais e sua adequação à fabricação dos geradores de vapor (HRSG) são vantajosas para o caso de futuras alterações e/ou reparos nos equipamentos;

· Em razão da qualificação para Inspetores Autorizados locais ou regionais, requerida pelo código, ocorre a redução de tempo e de custos com deslocamentos e comunicação;

· Eliminação dos custos redundantes de inspeção de produtos e a verificação da documentação pela aceitação dos Asme Data Reports (MDRs) para os componentes e para a montagem completa dos geradores;

· O fato de a Certificação Asme ser requisito na maior parte dos estados americanos e das províncias canadenses e ser aceita na maioria dos países facilita enormemente a conformidade com as regulamentações nos locais de implantação dos projetos, ao contrário do que ocorre com outros requisitos mal definidos;

· Aplicação uniforme das regras do código;

· Verificação física independente em todo o processo.

Retomando a questão provocada pelo título desse artigo – por que certificar, quando se especifica que o equipamento submetido à pressão deve atender aos requisitos do Código Asme? – posso afirmar que a dúvida provém da própria natureza do padrão conceitual do código. Ou seja, esse conjunto de normas é de tal forma abrangente e minucioso que, ao tratar do projeto; da seleção e do controle de materiais; dos testes; das qualificações de pessoal e procedimentos; da certificação e da verificação de terceira parte, é capaz de assegurar que todos os elementos-chave foram devidamente controlados e implementados de maneira sistêmica e repetitiva. O selo Asme, ao final, sinaliza aos stakeholders – compradores, proprietários/usuários, seguradores e regulamentadores – que todos os benefícios aqui indicados e descritos puderam ser plenamente alcançados.

O AUTOR

O Engenheiro Mark H. Masters, P.E., tem mais de 20 anos de experiência em inspeção de equipamentos submetidos à pressão. Atualmente, ocupa o cargo de Gerente-Geral para América Latina em The Hartford Steam Boiler Inspection and Insurance Company of Connecticut, Agência de Inspeção Autorizada Asme. Para mais informações a respeito dos assuntos apresentados, seu e-mail é:  [email protected].

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