Perspectivas para o mercado de lubrificantes industriais

Perspectivas para o mercado de lubrificantes industriais ©QD Foto: iStockPhoto

Os formuladores do mercado de lubrificantes industriais terão novos desafios, mas também novas oportunidades para aumentar o valor agregado aos seus produtos nos próximos anos

O mercado brasileiro de lubrificantes industriais passa por um momento particularmente desafiador, pois – além das incertezas sobre a retomada do crescimento da nossa economia e da produção industrial no novo cenário político pós-eleições de 2018 – também tem sido pressionado de modo crescente por seus clientes para o desenvolvimento de formulações que reduzam o custo operacional total desses insumos.

Ao mesmo tempo o mercado industrial, bem como o de lubrificantes automotivos, seguirá sendo impactado direta ou indiretamente por novos desenvolvimentos e fundamentos dos mercados global e local de lubrificantes acabados, óleos básicos e aditivos, bem como dos mercados de energia/petróleo, combustíveis e downstream, entre outros.

A pressão pela redução do custo operacional total dos lubrificantes industriais, ou do TCO (Total Cost of Ownership), passa pelo desenvolvimento de formulações que suportem o aumento da produtividade das máquinas e equipamentos, por exemplo, operando em condições mais extremas e com alongamento dos intervalos de troca, e que contribuam também para o aumento da eficiência energética.

Complexidade das formulações – A ênfase no atendimento de novos requisitos na aplicação dos lubrificantes, nos serviços técnicos e na busca de soluções taylor made para os clientes fez a complexidade das formulações dos lubrificantes crescer significativamente ao longo dos anos.

Na figura 1 observamos que mais de 40% das formulações podem ser classificadas como de alta complexidade, com a necessidade do uso de três a quatro tipos diferentes de óleos básicos, e oito até 25 diferentes tipos de aditivos para se atingir o desempenho desejado na aplicação do produto final.

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Em paralelo com o aumento do número de óleos básicos e aditivos que os formuladores necessitam, temos um aumento da dificuldade de obtenção de pelo menos alguns deles, pois ao longo dos anos ocorreu uma significativa consolidação na indústria química e petroquímica, e isso leva a uma redução de complexidade do lado da oferta.

Outro tema a ser acompanhado de perto nos próximos anos são os impactos do Reach (Registration, Evaluation, Authorization and Restriction of Chemicals) e do GHS (Globally Harmonized System of Classification and Labeling of Chemicals) que potencialmente podem reduzir ainda mais a disponibilidade de algumas matérias-primas para o mercado de lubrificantes industriais.

Mercado brasileiro – Conforme vemos na figura 2, o mercado brasileiro de lubrificantes industriais representa cerca de 30% do mercado total de lubrificantes. Embora esse mercado seja bastante fragmentado, em termos de número de diferentes aplicações, os óleos hidráulicos, óleos de processo e MWF (Metalworking Fluids) respondem por cerca de dois terços do mercado brasileiro de lubrificantes industriais.

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Outras aplicações importantes para os lubrificantes industriais incluem os óleos para engrenagens, óleos para motores industriais, graxas industriais e óleos para turbinas, circulação, compressores e refrigeração.

A participação do mercado de lubrificantes industriais na demanda total de lubrificantes acabados é relativamente menor no Brasil, em comparação com o mercado global, no qual representa cerca de 45% da demanda.

De certo modo, esse percentual abaixo da média global retrata o impacto do baixo crescimento econômico do país, em especial em comparação com os demais países emergentes, e a preocupante perda de participação do PIB industrial brasileiro em relação ao PIB total ao longo dos anos.

A LubeKem estima o mercado brasileiro de lubrificantes industriais em cerca de 360 mil toneladas em 2018 e, para os próximos anos e em diferentes cenários simulados, estima que esse mercado deverá atingir um patamar entre 380 mil t e 420 mil t em 2023, conforme a figura 3.

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Top trends – Em um trabalho recentemente publicado pela STLE (Tribology and Lubrication Engineering Society), Report on Emerging Issues and Trends in Tribology and Lubrication Engineering, foram levantados os principais temas que potencialmente terão um impacto significativo na produção industrial global nos próximos anos, cujos resultados estão compilados na figura 4.

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Não é surpresa que em primeiro lugar apareçam agrupados o aumento da produtividade das máquinas e equipamentos e o aumento da eficiência energética que, em resumo, se traduzem na redução do custo operacional total, ou TCO.

Em segundo lugar vemos os temas relacionados ao desenvolvimento da Indústria 4.0, tópico que está em alta na mídia e nas simulações de diversos cenários futuro para a manufatura industrial, e que inclui os avanços na automação industrial, manufatura aditiva, acompanhamento da produção real time e a Internet of Things (IoT).

Em terceiro lugar, estão agrupados os desenvolvimentos em lubrificantes sintéticos, biolubrificantes e a demanda crescente por soluções de reciclagem dos óleos lubrificantes que de fato se correlacionam com os dois primeiros tópicos agrupados.

Embora existam desafios específicos nas diferentes aplicações dos lubrificantes industriais (oléos hidráulicos, óleos para engrenagens, graxas industriais, etc.), as tendências futuras apontam em comum para o aumento da demanda de óleos básicos de alta qualidade (óleos básicos Grupo II, Grupo III/III+ e sintéticos) e a necessidade de desenvolvimento de aditivos mais robustos para atender aos novos requisitos nas aplicações e para o aumento do desempenho do produto final, bem como nos serviços prestados aos clientes.

Tendências nos principais mercados de lubrificantes industriais

Óleos hidráulicos – As preocupações ambientais continuarão a ser um dos fundamentos mais importantes no mercado de fluidos hidráulicos, já que muitas aplicações estão em locais e ambientes em que vazamentos ou mangueiras rompidas podem resultar em um derramamento significativo. Assim, empresas de aditivos e os formuladores permanecerão pressionados para criar fluidos biodegradáveis com aditivos não tóxicos e que não apresentem bioacumulação.

A tendência seguinte é reduzir os custos dos sistemas de fluidos (tornando o equipamento menor para reduzir o risco de derramamentos de óleo em grande quantidade) e o descarte de resíduos.

Há também um desejo simultâneo de estender os ciclos de troca de óleo. Isso exige sistemas que operem em temperaturas mais altas (já que os reservatórios são menores e menos capazes de resfriar o fluido). O uso prolongado a temperaturas mais altas, por sua vez, exige fluidos com melhor resistência à oxidação.

Para lidar com esses fatores, os formuladores precisarão evoluir no uso de óleos básicos do Grupo II, Grupo III/III+ e Polialfaolefinas (PAO).

Os aditivos terão que ser compatíveis com esses óleos altamente refinados e temperaturas mais altas. Os aditivos antioxidantes também precisarão de aprimoramentos.

Metalworking Fluids – As regulamentações ambientais, restrições ao uso de produtos químicos e novas opções de lubrificantes e métodos de usinagem aumentarão a necessidade dos formuladores de MWF a se adaptarem a um mercado complexo, em rápida evolução e com foco em soluções de longo prazo.

Ao longo dos anos, deveremos ver o uso crescente de biolubrificantes em MWF que hoje já superam os lubrificantes equivalentes à base de petróleo na maioria dos testes de lubrificação padrão, apresentando excelente lubricidade com ausência de emissões de compostos orgânicos voláteis (Volatile Organic Compounds, ou VOC).

O aumento da demanda global por carros elétricos também terá um impacto bastante significativo no mercado de MWF, pois com a redução da demanda global por veículos com motores de combustão interna (Internal Combustion Engines ou ICEs) a necessidade de peças para ICE, como pistões, blocos de motor de pistão, válvulas e outros, não será mais necessária.

Potencialmente, o impacto do Reach e GHS em MWF tende a ser maior que nos demais mercados de lubrificantes industriais dado que este mercado é um dos maiores consumidores de aditivos para lubrificantes acabados.

Outras tendências importantes para esse mercado são o aumento da demanda por soluções de reciclagem e o movimento em direção à lubrificação por quantidade mínima (Minimum Quantity Lubrication ou MQL) e, ainda mais, à usinagem a seco, uma tendência à qual o mercado de MWF deve prestar muita atenção.

Óleos para engrenagens – Nesse campo, encontramos aplicações como guinchos, equipamentos móveis, moedores, perfuratrizes, misturadores, entre outros, e aplicações nas quais o objetivo é reduzir ou aumentar a velocidade.

As engrenagens usadas nessas diversas aplicações variam consideravelmente em tamanho, design e material de construção, e os óleos de engrenagens usados nessas aplicações geralmente têm requisitos muito variados para atender. Ao mesmo tempo, o arsenal do formulador, por razões ambientais, perdeu materiais, como os compostos de chumbo e solventes clorados.

As caixas de engrenagens de hoje são projetadas para reduzir o peso e melhorar a eficiência, resultando em velocidades mais altas, assim como cargas e temperaturas, e as principais tendências para óleos de engrenagens envolverão o desenvolvimento das seguintes propriedades:

• Melhor resistência à oxidação

• Melhor desempenho de EP de alta temperatura

• Melhor estabilidade térmica

• Melhor resistência à fadiga superficial

• Demulsibilidade prolongada

• Menor atrito

• Melhor controle de espuma

Óleos para compressores – Óleos usados em compressores de alta pressão requerem lubrificantes estáveis em altas temperaturas por longos períodos. Além disso, como as temperaturas de descarga podem chegar a 500°F (260ºC), esses óleos não tendem a formar depósitos em pontos quentes das válvulas. Óleos para tais aplicações são geralmente formulados a partir de diésteres e ésteres de poliol.

Os compressores de palhetas rotativas requerem óleos que reduzem o desgaste e problemas de aderência. O gás que está sendo comprimido também afetará a química do óleo.

À medida que o futuro se desdobra, os óleos de base mineral ainda serão usados em aplicações normais e não críticas, em que os gases não são reativos.

Diésteres, ésteres de poliol e PAO serão utilizados para aplicações mais exigentes. Mais uma vez, a necessidade de maior estabilidade à oxidação é crítica e requer o uso de óleos minerais sintéticos do Grupo III e aditivos mais resistentes à oxidação.

Óleos de turbina – Óleos para turbinas a vapor e a gás devem fornecer lubrificação de rolamentos e engrenagens, remover o calor através de sistemas de circulação, ser estáveis à oxidação, resistir à formação de sedimentos e depósitos, resistir à formação de espuma, permitir a separação da contaminação da água e funcionar como fluido hidráulico para controle do sistema.

Os óleos de turbina já estão entre os lubrificantes mais eco-friendly, pois seus aditivos são isentos de metais. Os óleos de turbina, no futuro, precisarão de uma resistência à oxidação cada vez maior e tendência reduzida para formação de lodo e depósitos. Assim, é esperado um uso crescente dos óleos básicos do Grupo III e PAO, bem como a aumento da necessidade de aditivos de melhor qualidade e mais resistentes à oxidação.

Graxas Industriais – As graxas industriais variam consideravelmente em termos de aplicações e composição, então as generalizações são um pouco complicadas. No entanto, como muitas graxas são usadas em sistemas abertos não restritos, a contaminação ambiental tem sido e continuará a ser uma grande preocupação. Relacionado a isso está a redução dos custos de descarte de resíduos.

Futuras formulações não terão aditivos com metais pesados, pós metálicos usados em compostos de rosca e certos aditivos sólidos. Outra tendência é o aumento do uso de rolamentos selados para lubrificação permanente, que reduzem o potencial de contaminação ambiental e os custos de manutenção associados à reciclagem.

Os fabricantes de graxa usarão cada vez mais óleos básicos do Grupo III e PAO, e deve aumentar o uso de espessantes a base de poliureia e, é claro, formularão inibidores de oxidação compatíveis.

O impacto do aumento da demanda dos carros elétricos já aportou na área de graxas, desde 2015, quando os preços do hidróxido de lítio (LiOH), uma das matérias-primas mais utilizadas como espessante nessa aplicação, dispararam no mercado internacional.

Na figura 5, vemos que as previsões para os próximos anos de aumento da demanda global do lítio em carros elétricos, bem com a expectativa da redução da demanda global de veículos com motores de combustão interna, devem manter os preços dos derivados de lítio em alta, desafiando os formulares tanto de graxas industriais como automotivas a buscar alternativas de redução do custo de suas formulações.

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Lubrificantes Industriais 2019-2023 – Em resumo, os mercados de lubrificantes industriais e de suas matérias-primas (óleos básicos e aditivos) continuarão impactados por diversos fundamentos, alguns novos e outros já bastante conhecidos dos formuladores, e que estarão moldando não só o mercado em tamanho, como principalmente em qualidade e valor agregado, conforme vemos na figura 6.

Perspectivas para o mercado de lubrificantes industriais ©QD Foto: iStockPhoto

 

Há muitos desafios e incertezas para o mercado de lubrificantes industriais, e alguns dos principais fundamentos e tendências realmente apontam para uma potencial redução na demanda global no cenário futuro, porém também apontam para o aumento significativo da qualidade e para ganhos em termos do valor agregado dos lubrificantes acabados. Essa é, de fato, a grande oportunidade a ser perseguida pelos formuladores em uma estratégia de aumento da rentabilidade no mercado de lubrificantes industriais nos próximos anos.

Petróleo & Energia: Perspectivas para o mercado de lubrificantes industriais
Claudio Pereira da Silva é sócio-diretor da LubeKem

O AUTOR

Claudio Pereira da Silva é sócio-diretor da LubeKem desde 2012, empresa de consultoria de negócios especializada nos mercados de lubrificantes, óleos básicos, Arla 32, química/petroquímica e petróleo/derivados. Desenvolveu uma carreira durante mais de 20 anos em empresas como ABB, Ultraquímica, Oxiteno, Arinos Química, Chimex Brasil, Grupo Mundial, assumindo cargos de responsabilidade e liderança em compras, vendas, distribuição, desenvolvimento de novos negócios, estratégias e comércio exterior.

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