Perspectivas 2016 – Energia: Empresas buscam suprimento de eletricidade no mercado livre para reduzir riscos adicionais

Petróleo & Energia, Perspectivas 2016 - Energia: Empresas buscam suprimento de eletricidade no mercado livre para reduzir riscos adicionais

Pelas atuais projeções, as tarifas da energia elétrica regulamentadas pelo governo não devem aumentar este ano em índices tão drásticos quanto aqueles registrados em 2015, que chegaram ao patamar de 50% e complicaram ainda mais a conjuntura já bastante adversa para a atividade industrial no Brasil. Porém, interessadas em reduzir os impactos hoje muito significativos desse insumo no processo de composição de seus custos e, simultaneamente, precaver-se das idas e vindas das políticas governamentais, quantidade ainda maior de indústrias deve recorrer ao chamado mercado livre, cujas tarifas são diretamente negociadas entre compradores e vendedores.

Cerca de 2 mil empresas já são atendidas pelo mercado livre, atualmente responsável por cerca de 27% da energia consumida no país (e 60% do total destinado à indústria). No ano passado os preços desse mercado caíram e atraíram ainda mais a atenção dos potenciais clientes: considerando-se, por exemplo, o conjunto das regiões Sudeste e Centro-Oeste – comprador de mais de 60% da energia ali comercializada –, entre dezembro de 2014 e o mesmo mês do ano passado o preço do MWh (megawatt-hora), caiu cerca de cinco vezes, passando de R$ 601 para R$ 116 (valores referentes ao chamado PLD – Preço de Liquidação das Diferenças –, uma espécie de preço de referência desse mercado).

Entre as razões dessa queda aparecem a redução estimada em 1,7% na demanda por energia no país, em comparação com 2014, e uma situação hidrológica mais favorável, aumentando os volumes armazenados nos reservatórios das usinas, ampliando-se então a disponibilidade de energia hidrelétrica.

Petróleo & Energia, Vlavianos: políticas oficiais são sempre uma caixa preta
Vlavianos: políticas oficiais são sempre uma caixa preta

Para aderir a esse mercado livre, empresas precisam cumprir alguns requisitos, relacionados principalmente a um patamar mínimo de consumo de energia (ver box). Porém, de maneira geral, quem tem uma conta de energia próxima a R$ 110 mil mensais pode pensar em migrar para o mercado livre, afirma Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc (maior empresa desse mercado, responsável pela gestão de cerca de 15% da carga de energia por ele fornecida). “Com essa migração, conseguirá reduzir sua conta mensal em cerca de 30%”, acrescenta.

Mas o preço não é o único atrativo do mercado livre: nele estabelecendo contratos que podem durar três, quatro, cinco anos, ou mais, as empresas podem trabalhar com maior previsibilidade a sua dependência desse insumo. “Já a política governamental é sempre uma caixa preta, veja-se o que aconteceu no ano passado com os preços do mercado regulamentado”, ressalta Vlavianos.

Ancorada nesse benefício, desenvolve-se agora uma “segunda onda” de adesão de empresas ao mercado livre (na primeira, vieram os consumidores intensivos desse insumo, quase todos já integrados a ele). “Agora chegam também shoppings centers, hospitais, indústria automobilística, indústria do plástico, entre outras”, detalha o presidente da Comerc.

Petróleo & Energia, Camila: preços livres tendem a ficar estáveis até 2017
Camila: preços livres tendem a ficar estáveis até 2017

Esse aumento da procura se reflete na carteira de clientes da Cromerc, que engordou de aproximadamente 250, no final de 2014, para quase quinhentos atualmente. “Ou seja: apenas no último ano agregamos uma quantidade de clientes similar àquela conquistada nos quatorze anos anteriores de nossa existência”, enfatiza.

E, ao menos até meados de 2017, não há perspectivas de aumento dos preços da energia do mercado livre, destaca Camila Schoti, gerente de energia da Abrace (Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres). “Só haverá elevação desses preços se ocorrer uma mudança no atual regime de chuvas, ou uma expansão na demanda por energia”, pondera. Mas Camila salienta: no Brasil essa demanda permanece caindo, e segundo estimativas da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), em janeiro último foi 8,7% inferior àquela registrada no mesmo mês de 2015. “É uma queda muito significativa”, observa a gerente da Abrace.

 

O mercado regulamentado – Enquanto no mercado livre não parece haver nenhuma tendência de elevação dos preços, no outro mercado fornecedor de energia elétrica hoje em operação no país – no qual esse insumo é adquirido de concessionárias de distribuição, cujos preços são controlados – essa tendência parece bem menos vigorosa que a observada em 2015. Na verdade, o governo vem até anunciando algumas reduções nesses valores, em decorrência de alterações na vigência das chamadas “bandeiras tarifárias” (que definem taxações adicionais para compensar o uso de energia mais cara, proveniente de termelétricas).

Petróleo & Energia, Mello: tarifas oficiais devem subir mais do que a inflação
Mello: tarifas oficiais devem subir mais do que a inflação

Mas, diferentemente do que ocorre no mercado livre, nesse segmento também conhecido como ‘mercado cativo’ deve haver elevação de preços, crê João Carlos Mello, presidente da consultoria na área de energia Thymos: “Nos próximos quatro anos as tarifas de energia elétrica regulamentada devem continuar tendo altas substancialmente superiores à inflação, na faixa de 10% a 15% ao ano, ou até mais”, projeta.

Dívidas que concessionárias precisam quitar, justifica Mello, tornam inevitável a continuidade dos reajustes dos preços do mercado cativo de energia. E assim como Vlavianos, da Comerc, ele estima em aproximadamente 30% as reduções médias que as empresas podem obter passando a comprar do mercado livre.

Mello observa: a decisão por essa migração não pode demorar muito, pois caso a economia do país volte a crescer aumentará a demanda no mercado livre e seus preços subirão. “Mas nele ainda existe boa sobreoferta, e pelo menos até 2020 ele deverá ter reajustes inferiores aos do mercado cativo”, projeta o presidente da Thymos. Segundo ele, caso todas as empresas que podem recorrer a essa modalidade exercessem tal opção, o mercado livre passaria a responder por aproximadamente 46% da energia consumida no Brasil.

Mas, agora, mais que sua participação no total da energia consumida no país, crescerá o número de empresas atendidas pelo mercado livre, destaca Vlavianos, da Comerc. A razão: “Praticamente todas as empresas que consomem muita energia já estão nesse mercado”, justifica.

Por sua vez, Camila, da Abrace, lembra que a atual crise da economia nacional torna urgente a oferta de energia para a indústria em condições mais competitivas: “Segundo estudos da consultoria Ex-Ante, a disponibilidade de energia elétrica e gás natural em condições competitivas para a indústria grande consumidora desses insumos pode representar uma diferença de 0,5 ponto percentual no ritmo de crescimento da economia brasileira. E, para cada 10% de aumento no custo da energia, observa-se uma redução média de 1,2% nos investimentos da indústria”, finaliza Camila.

Comércio livre – Formalmente denominado ACL (Ambiente de Contratação Livre), o mercado livre é uma das duas vertentes do atual modelo de comercialização de energia elétrica no Brasil. O outro é o ACR (Ambiente de Contratação Regulada), no qual os chamados ‘consumidores cativos’ compram a energia das concessionárias de distribuição às quais estão ligados.

Dois gêneros de consumidores são atendidos pelo ACL: o Livre e o Especial. Este último precisa demandar carga igual ou superior 500 kW – inclusive pela soma das cargas de várias unidades de uma mesma empresa, ou de empresas distintas localizadas em áreas contíguas – e contratar apenas a chamada ‘energia incentivada’, proveniente de fontes como geração eólica, biomassa, pequenas centrais hidrelétricas, energia solar e resíduos (o termo ‘incentivada’ provém do fato de haver aí estímulos tarifários na etapa de uso dos sistemas de distribuição, aliás desenvolvida na mesma rede empregada para a energia convencional). Já o consumidor Livre pode adquirir tanto a energia convencional quanto a incentivada, mas deve contratar pelo menos 3.000 kW (mais informações em www.mercadolivredeenergia.com.br)

Petróleo & Energia, Perspectivas 2016 - Energia: Empresas buscam suprimento de eletricidade no mercado livre para reduzir riscos adicionais

Vlavianos, da Comerc, sugere a uma empresa interessada em migrar para o mercado livre que projete as variações dos custos tanto nele quanto no mercado cativo por períodos mais longos de tempo, talvez três ou quatro anos (até porque, caso realize essa migração, normalmente ela só poderá voltar para o mercado regulado avisando à respectiva concessionária com cinco anos de antecedência). “Feito isso, ela deve avaliar qual mercado lhe será mais vantajoso”, recomenda.

Uma consultoria especializada em energia pode auxiliar nessa análise, assim como a escolher o melhor fornecedor de energia e a negociar com ele. Além disso, os contratos de compra de energia no mercado livre devem ser renovados ao serem encerrados e, para não haver problemas de interrupção na oferta, as negociações devem ser iniciadas de maneira antecipada. “Uma consultoria também pode colaborar com essa gestão”, diz Mello, da Thymos.

Segundo ele, após realizar a obrigatória denúncia do contrato de fornecimento junto à distribuidora da qual recebe energia, uma empresa que migra para o mercado livre passará a receber energia dessa nova fonte em um prazo que pode variar entre três e seis meses.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios