Perspectivas 2014 – Resinas: Elevar a sua competitividade e reduzir o déficit da balança comercial são desafios da indústria

Petróleo & Energia, Perspectivas 2014 - Resinas: Elevar a sua competitividade e reduzir o déficit da balança comercial são desafios da indústria
A indústria brasileira de resinas termoplásticas inicia 2014 com expectativas tímidas de aumento de consumo doméstico, entre 3,0% e 3,5% sobre 2013, percentual um pouco acima das projeções admitidas para o avanço do PIB (Produto Interno Bruto), da ordem de 2% a 2,2%. As perspectivas pouco alentadoras de crescimento econômico do país, aliadas a um cenário desafiador para a petroquímica nacional em termos de competitividade, como comprova o ascendente déficit na balança comercial da indústria química e petroquímica, embasam as estimativas de Luciano Nitrini Guidolin, coordenador da Comissão Setorial de Resinas Termoplásticas (Coplast) da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) e presidente do Sindicato das Indústrias de Resinas Plásticas (Siresp). Ele informa que só esses segmentos acumulam um saldo negativo de 32 bilhões de dólares.

Petróleo & Energia, Guidolin atribui às matérias-primas o maior custo produtivo
Guidolin atribui às matérias-primas o maior custo produtivo

O fato é que a indústria brasileira como um todo atravessa uma fase crítica de falta de competitividade, o que culminou, em 2013, no maior déficit comercial de produtos manufaturados da história do país, de US$ 105,015 bilhões (contra US$ 94,162 bilhões em 2012), resultado de exportações de US$ 93,090 bilhões e importações de 198,105 bilhões, dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

“Isso se reflete no desafio da indústria para recuperar a sua competitividade, não só nas condições internas de inovação, de redução de custo, mas também contribuindo nas proposições políticas de visão da competitividade”, pondera Guidolin, que atribui ao segmento petroquímico brasileiro um desafio ainda maior: o fato de se sentir pressionado pela diferença nas condições de produção muito mais competitivas, que favorecem as resinas oriundas de gás de baixo custo, fabricadas no Oriente Médio e nos EUA, particularmente.

“É um grande desafio para o país buscar incentivos à sua indústria para aumentar as exportações de manufaturados, para que a pauta exportadora do Brasil possa ser mais de manufaturados e não com a preponderância de recursos naturais”, opina o coordenador. Na visão dele, os entraves à competitividade da indústria de manufaturados plásticos não diferem dos enfrentados por outros setores industriais e envolvem várias dimensões de custos, entre os quais financeiros, logísticos, de mão de obra, de produção etc. “São os desafios que a indústria tem como um todo”, diz.

O coordenador da Coplast ressalta que mesmo diante dessa alta nas importações, a maior parcela do mercado brasileiro ainda é suprida por produtos transformados nacionais. “O índice de importação na transformação, embora tenha crescido, ainda é baixo; talvez alguns setores tenham importação maior, como o de pré-formas de PET, mas os outros mercados têm menor índice de importação”, infere.

Segundo informações da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), o consumo aparente brasileiro de transformados plásticos em 2013 atingiu 7,236 milhões de toneladas, sendo que, desse volume, aproximadamente 731 mil toneladas (algo em torno de 10%) equivalem a produtos importados.

Guidolin enfatiza que o setor industrial brasileiro, em especial o petroquímico, precisa estar focado na sua batalha para reverter situações estruturantes, com a adoção de medidas mais amplas em âmbito industrial, e que proporcionem maior competitividade a todos os elos. “As questões estruturantes são o grande desafio, como a desoneração da folha de pagamento, desoneração do custo de energia elétrica etc.” Por conta desse cenário, o coordenador da Coplast lamenta que as importações já correspondam a mais de 30% da demanda brasileira do setor químico e petroquímico.

Particularmente no caso das resinas, o maior impacto nos custos é imputado por Guidolin às matérias-primas, como a nafta e outros intermediários, que têm seus preços dolarizados. Mesmo com peso variado de resina para resina, ele estima que os custos das matérias-primas equivalham a dois terços do custo do polímero. Também os gastos com energia são significativos.

Esses ingredientes comprometem a competitividade da indústria brasileira ante as condições privilegiadas de produção no Oriente Médio, favorecido com ampla oferta de gás barato, e nos Estados Unidos, com o shale gas, que derrubou drasticamente as cotações de gás no país.

Um parêntese: o advento do shale gas (gás de xisto) e a dimensão gigantesca dessa nova fonte de gás natural promoveu uma revolução energética nos Estados Unidos, tornou a sua indústria petroquímica extremamente competitiva e abriu novas perspectivas para a produção de polietilenos com matérias-primas a custos bastante atrativos (ver PM no 438, de abril de 2011, pág. 25). Esse contexto ameaça a competitividade do mundo petroquímico global, de cabelos em pé desde então, particularmente os produtores que se abastecem com matérias-primas de alto custo.

O caminho apontado pelo coordenador da Coplast para que a indústria brasileira consiga igualar as condições de competitividade passa pela disponibilidade futura de hidrocarbonetos, tanto de petróleo como de gás, das reservas do pré-sal. Ele aposta nessas riquezas como uma fonte competitiva de matéria-prima para a indústria petroquímica brasileira; e também vislumbra uma possibilidade nas próprias reservas nacionais de gás de xisto. “É importante que se tenha um direcionamento dessas matérias-primas para que as indústrias químicas e petroquímicas possam ter essa condição competitiva”, atenta.

Muitas polêmicas – Outras discussões que prometem acalorar este ano envolvem os preços praticados no país para as principais resinas brasileiras; o recente redesenho da petroquímica nacional, que concentrou também a oferta de PVC nas mãos de um único produtor, a Braskem, que já detinha toda a produção de PE e PP do país; e o acréscimo recente de outro pedido de antidumping provisório para o polipropileno da África do Sul, da Coreia do Sul e da Índia, sendo que vigora, desde 2010, medida de defesa comercial para o PP dos Estados Unidos. Além de antidumping, com mais de vinte anos, para o PVC dos Estados Unidos e do México. A concentração produtiva e as medidas protecionistas incomodam a indústria de transformação nacional, que reclama de ter cerceado o seu acesso aos mercados nos quais há disponibilidade e preço competitivo de matéria-prima e de ter de pagar pelas resinas brasileiras preços, em média, 35% acima dos patamares internacionais.

“Eu não tenho delegação para falar de política comercial e de preços dos associados da Abiquim”, preserva-se Guidolin. Mas ele comenta que os produtos químicos e petroquímicos seguem com a precificação internacional. “Se sobe no Brasil é porque teve alta no restante do mundo também; com o mercado global, os procedimentos são globais.”

Com respeito às proteções antidumping adotadas pela indústria petroquímica nacional, o coordenador da Coplast comenta que se trata de medidas de defesa comercial, mecanismos legítimos da indústria para se defender contra práticas de comércio desleais e validados pela Organização Mundial do Comércio. “Não podemos discordar da legitimidade de se defender contra práticas desleais de comércio. É legítimo o estabelecimento de medidas antidumping que resultam de investigações feitas com bastante profundidade pelo governo; e recentemente a própria indústria de transformação tem buscado também esses mecanismos, solicitando investigações com relação aos seus produtos.”

Um acordo firmado no final de 2013, para a compra de 70,59% do capital da Solvay Indupa, produtora de soda/cloro e de PVC na Argentina e no Brasil, eleva a Braskem à posição de maior produtora de PVC da América Latina e a quarta das Américas. O negócio, que ainda depende das aprovações dos órgãos reguladores, acresce 540 mil toneladas anuais à capacidade instalada de PVC da Braskem, elevando-a para 1,25 milhão de toneladas anuais (ver PM no 470, de dezembro de 2013). Ainda assim, a oferta da resina em solo brasileiro é deficitária diante das necessidades de abastecimento local – a importação de PVC representa quase um terço do mercado brasileiro.

O último investimento da Braskem em ampliação de capacidade de PVC, de R$ 1 bilhão, aconteceu em 2012, com a inauguração de uma planta, em Marechal Deodoro-AL, de 200 mil toneladas anuais, após dois anos para a sua construção. O empreendimento, somado às outras unidades produtoras da empresa, elevou a disponibilidade total do polímero para 710 mil toneladas anuais.

Em outubro do ano passado, a petroquímica anunciou investimentos de R$ 50 milhões para expandir a sua capacidade de produção de polietileno linear de baixa densidade em 120 mil toneladas anuais, direcionando 100 mil toneladas desse volume aos tipos sintetizados com catalisadores metalocênicos. Para tanto, a Braskem planeja converter uma de suas linhas industriais de produção de polietileno em Camaçari-BA. A ideia é iniciar a nova operação no primeiro semestre de 2015. Os polietilenos de base metalocênica oferecem propriedades de maior resistência, brilho, transparência e selagem e se destinam particularmente às aplicações em filmes especiais, bobinas técnicas e filmes industriais. A atual capacidade produtiva desses polímeros, segundo informações da fabricante, supera as 350 mil toneladas anuais.

O mercado de poliestireno no Brasil vem modificando o seu contorno nos últimos anos e a incorporação da Innova (então Petrobras), ocorrida também no segundo semestre do ano passado, deve dar musculatura competitiva à Videolar em estirênicos, mas deixa o fornecimento local mais enxuto, restrito a apenas dois produtores: a Videolar e a Unigel.

A Videolar produz PS em Manaus-AM e agora passa a dispor da produção integrada de etilbenzeno, de estireno e de poliestireno da Innova, localizada no Polo Petroquímico de Triunfo, no Rio Grande do Sul. A capacidade instalada da compradora sobe para 275 mil toneladas anuais.

A Unigel lidera o negócio da resina no país, também com uma produção integrada, com uma capacidade nominal de 310 mil toneladas anuais, produzidas nas fábricas de São José dos Campos-SP (190 mil t/ano) e do Guarujá-SP (120 mil t/ano). As plantas de químicos e de petroquímicos da Unigel se encontram na Bahia, em São Paulo e no Rio Grande do Sul. A fabricante ainda tem capacidade para produzir 15 mil toneladas anuais de policarbonato e 20 mil toneladas de resinas acrílicas, além de diversos insumos petroquímicos.

As expectativas de crescimento do mercado de poliestireno apontam uma taxa média anual de 3,8%, nos próximos cinco anos, sinal de um mercado maduro, mas ainda com potencial de desenvolvimento, segundo estudos da consultoria Maxiquim, especializada na área química e petroquímica.

Sobre esses movimentos na petroquímica nacional, Luciano Guidolin comenta que essas transformações, com os processos de fusões e aquisições, buscam ganhos de escala em âmbito global, de competitividade e de inovação. No entender dele, as preocupações deveriam girar em torno de como criar condições para que as indústrias químicas e petroquímicas brasileiras aumentem os seus investimentos em todas as suas linhas de produtos e revertam o déficit comercial do setor.

Na sua avaliação, a aquisição de uma empresa não significa prejuízo para a transformação, pois considera que a dinâmica de formação de preços do segmento de resinas, e da maior parte dos petroquímicos, tem por baliza o mercado internacional. “O foco da discussão deveria ser a busca por uma forma de criar condições de investimento e que mais empresas queiram vir para o mercado brasileiro, investir em produção de resinas e químicos.”

Retrospectiva – Com base nos dados computados até setembro pela Coplast –  números não divulgados – , o coordenador prevê que a demanda de resinas termoplásticas no país cresça entre 7% e 8% sobre o volume de 2012, considerando as vendas internas somadas às importações. Na avaliação de Guidolin, essa alta representa um restabelecimento do mercado de resinas, em relação a 2011 e 2012, anos marcados por baixo crescimento. “Recupera a média dos últimos três anos”, avalia. Segundo atesta, esse desempenho teve por principais carros-chefes os setores de infraestrutura, automotivo, linha branca e filmes e sacolas.

Para se ter uma ideia do desempenho do mercado, em seu último relatório divulgado à imprensa, a Braskem, que supre em torno de 70% da demanda nacional das principais commodities, detectou uma queda de 8% na demanda brasileira de resinas termoplásticas no terceiro trimestre de 2013, em relação aos três meses anteriores, motivada, segundo avaliação da fabricante, pela utilização de estoques precedentes e da queda da produção industrial. No acumulado do ano (até setembro), a empresa registrou a venda doméstica de 2,8 milhões de toneladas de resinas, o que corresponde a uma elevação de 7% sobre o mesmo período do ano anterior, ante uma demanda de 4,0 milhões de toneladas, volume 9% acima do registrado entre janeiro e setembro de 2012.

O coordenador da Coplast destaca em 2013 avanços como o Regime Especial da Indústria Química (Reiq), que proporcionou uma desoneração de impostos similar à de mão de obra, que favoreceu outras indústrias. A Abiquim ainda promete novas evoluções. A entidade, ele relata, participa junto com outras instituições, no contexto dos conselhos de competitividade da indústria química, com propostas de apoio à inovação e ao investimento, com o objetivo de reduzir o déficit da balança comercial do setor. Entre essas sugestões, ele menciona alguns mecanismos de desoneração de tributos para investimentos, de incentivos fiscais para inovações, e a redução dos custos da energia e do gás para a indústria petroquímica. “São várias propostas que estão sendo criadas dentro do conselho de competitividade da indústria.”

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