Perspectivas 2014 – Moldes: Ferramentaria nacional encara concorrência de asiáticos com preços imbatíveis e qualidade

Petróleo & Energia, Perspectivas 2014 - Moldes: Ferramentaria nacional encara concorrência de asiáticos com preços imbatíveis e qualidade
Bastante pulverizada e constituída de um sem-número de microempresas, a ferramentaria nacional deve enfrentar grandes desafios este ano. As projeções de crescimento empolgam pouco. Nas estimativas do presidente da Câmara Setorial de Ferramentarias e Modelações (CSFM) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Alexandre Fix, também dono da Polimold, uma das maiores empresas brasileiras fabricantes de porta-moldes, a expansão do setor não passou de 3% ou 4% em 2013 e as estimativas para 2014 são incertas. Se repetir a dose, já estará de bom tamanho, diante dos percalços que esse mercado deve enfrentar.

Petróleo & Energia, Fix: política industrial fraca sucateia a produção nacional
Fix: política industrial fraca sucateia a produção nacional

A começar pela elevada e constante perda de competitividade e o consequente processo de desindustrialização do segmento. O assédio dos produtos asiáticos, com preços baixíssimos, tira o sono dos ferramenteiros há anos. Agora com um agravante: eles agregaram qualidade aos seus moldes. Se tempos atrás o transformador brasileiro levava preço em detrimento da qualidade quando optava por moldes da região, hoje ele traz para casa produtos de ótima qualidade a preços ainda imbatíveis.

E quem atesta esse avanço tecnológico nos produtos asiáticos é o próprio Alexandre Fix. “O que nos deixa muito preocupados é que hoje em dia existem várias ferramentarias de altíssima qualidade na China, em Taiwan, em Singapura e em outros países da região oferecendo preços muito baixos; a qualidade do produto asiático subiu, mas os preços continuam bem menores; então nós vamos perdendo competitividade”, lastima o presidente da Câmara Setorial.

Sua própria empresa teve a oportunidade de constatar o fato, pois alguns de seus clientes compram moldes desses países, mas pedem que a Polimold insira neles a sua câmara quente. “Então nós mandamos a câmara quente para a ferramentaria, onde ela é montada no sistema e depois volta no molde; e nós ficamos abismados com a qualidade das ferramentarias da região, em Singapura, por exemplo, não deixa nada a dever”, comenta. O que preocupa é exatamente esse fato, pois se antigamente a indústria brasileira podia reclamar que os moldes asiáticos tinham baixíssima qualidade, hoje essa queixa não procede mais. “Isso me assusta, também na Índia existem ferramentarias de altíssimo nível e preço lá embaixo”, admite Fix.

Na opinião dele, o Brasil tem boa tecnologia na área de moldes, mas não tem investido em máquinas. Acontece que para ganhar competitividade as ferramentarias nacionais precisam adquirir equipamentos mais modernos e produtivos. Medida adotada por pouquíssimas empresas da área. Enquanto isso as importações avançam e devem fechar em torno de 205 milhões de dólares em 2013, nas estimativas do presidente da câmara setorial.

Um dos motivos: a dificuldade em obter financiamento do Finame/BNDES. Trata-se de um problema antigo. As empresas não conseguem porque a maioria não tem certidão negativa, atestando que estão com todos os impostos em dia. É raro quem consegue financiamento do governo. Dificilmente os pequenos e médios empresários são bem-sucedidos nessa empreitada. Na opinião de Fix, o atual sistema tributário brasileiro sufoca o pequeno empresário, que não está estruturado para lidar com toda a sua complexidade. O setor de ferramentaria nacional é constituído em sua maioria por empresas muito pequenas.

Trata-se de um mercado bastante pulverizado, com ferramentarias de todos os portes e especialidades variadas. Sem estatísticas oficiais disponíveis na câmara setorial para o tamanho do setor, até mesmo pela sua alta informalidade, Fix arrisca um número baseado na atuação da sua empresa. Ele estima a existência de 4 a 5 mil ferramentarias no país.

A ferramentaria brasileira ainda tem outro desafio pela frente: encurtar os prazos de entrega, atualmente muito longos e, na verdade, resultado da falta de investimento em maquinário mais atualizado. Essa situação preocupa Fix. “Daqui a pouco o setor não vai conseguir produzir mais.” O representante defende os ferramenteiros, justificando que a máquina brasileira custa muito caro. “A indústria não é ineficiente porque quer. Nós temos alta tributação, o nosso trabalhador custa caro em comparação com o trabalhador da Ásia. A política industrial brasileira é muito fraca e está sucateando a nossa indústria, de uma forma geral, não é só o nosso setor”, lamenta.

A falta de competitividade e a concorrência vigorosa de moldes estrangeiros favoreceu a “criatividade brasileira”, assim mesmo, entre aspas, e acarretou outro problema: a queda no número de moldes fabricados no país gerou uma acirrada guerra de preços entre as ferramentarias sobreviventes. Fix relata que os clientes criaram um target price, ou seja, um preço objetivo. Segundo ele explica, a nova moda funciona assim: o cliente procura algumas ferramentarias e diz: “eu pago x nesse molde.” E uma dessas aceita a proposta e executa o serviço com o preço aviltado. A baixa rentabilidade, consequência dessa atitude, deixa as empresas sem margem para investir. Além disso, muitas ferramentarias acabam fechando as portas. Preocupado, Fix afirma que esse aperto na rentabilidade agravou o quadro de inadimplência, na opinião dele, um dos mais severos dos últimos tempos.

As ferramentarias ainda precisam lidar com outro sinal de alerta: o seu fluxo de caixa. “É um problema terrível”, adverte Fix. As montadoras lideram um movimento de não dar qualquer sinal para a confecção do molde. Só depois de pronto é que as ferramentarias recebem. “Dificilmente dão sinal, só em casos raríssimos, e ainda demoram para pagar; então o fluxo de caixa da ferramentaria é muito complicado.” Daí tamanha inadimplência. “Não é que eles não queiram nos pagar, é que eles não têm como.” Ainda existem alguns setores que dão sinal, mas a maioria não.

Mesmo difícil de enxergar, ainda há uma luz no fim do túnel, afinal existem diversos empresários que continuam lutando e mantendo a sua empresa. “Individualmente, há ferramenteiros que estão indo bem, porque eles não pegam moldes a preço vil”, pondera. Mesmo diante de tantas dificuldades, ainda existe um espaço para o ferramenteiro nacional. “Quem é pequeno pode até se sair bem em época de crise se descobrir diferenciais.”

Uma área que representa um bom negócio para o setor é a de cosméticos, por conta da fabricação de tampas. Graças à maior distribuição da renda, aumentou a demanda desse mercado, proporcionando desenvolvimento e vantagens aos ferramenteiros que atuam com moldes para tampas de embalagens de cosméticos.

Hoje a ferramentaria brasileira é fraca na confecção de moldes de grande porte e complexos, justamente por falta de investimentos em máquinas. O que pode significar uma grande oportunidade para empresários dispostos a fazer a diferença.

O setor também se animou com o Inovar-Auto, que promete favorecer e impulsionar a produção local. Mas o programa, que prevê benefícios fiscais para as montadoras que lançarem modelos de automóveis com elevado índice de nacionalização de peças, previsto para o início do ano passado, ainda não foi regulamentado. O lado positivo é que isso dá tempo para a ferramentaria brasileira se estruturar para abastecer a demanda, pois, como diz Fix, “se funcionar a pleno vapor, não temos capacidade de fazer moldes para abastecer o mercado”.

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