Notícias: Parques eólicos ganham impulso com leilões

Ainda animado com o resultado do mais recente leilão de energia eólica, de 23 de agosto, o diretor de Sustentabilidade e Comunicação da Renova Energia, Ney Maron, enaltece: “Já produzimos no Brasil a energia eólica ao menor custo do mundo.” Dependendo do projeto, assegura, essa energia alcança o mesmo patamar de competitividade da energia hidrelétrica, em custo e preço. “A energia dos ventos se tornou uma realidade no Brasil”, avalia.

No leilão de agosto, a Renova comercializou 159 MW ao preço médio de R$ 106,02 o MW/h e, assim, ficou de instalar na paisagem semiárida do sudeste da Bahia nove parques eólicos – um investimento previsto de R$ 634,9 milhões, com exíguo prazo de conclusão: 15 de setembro de 2015. O prazo, uma exigência do edital, é adjetivado de “desafiador”.

O Alto Sertão III, nome dessa futura floresta de aerogeradores, será o terceiro projeto eólico da Renova no sudoeste da Bahia, presente em municípios como Caetité, Bom Jesus da Lapa e outros.

Em julho do ano passado foi inaugurado o Alto Sertão I, conjunto de 14 parques com o total de 184 aerogeradores, que proporcionam 293,6 MW de capacidade instalada, um empreendimento resultante do leilão de energia de reserva (LER) de 2009. “É o maior complexo eólico da América Latina”, festeja o executivo. Embora pronto e inaugurado, esse empreendimento aguarda que a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) conclua a linha de transmissão, o “linhão”, que o interligará ao sistema elétrico nacional.

Os dois leilões seguintes – LER 2010 e LER 2011 – demandaram a instalação, ainda em curso, do Alto Sertão II e, consequentemente, de mais 15 parques eólicos, com 230 aerogeradores e capacidade reunida de 386,1 MW.

Em todos esses projetos, além de fornecer os aerogeradores, a francesa Alstom responderá pelas operações nos primeiros dez anos. Quanto à parte civil, a regra tem sido negociar a execução com empreiteiras. E assim a empresa espera acrescentar, anualmente, 250 MW, em média, à matriz dos ventos que está expandindo. “Em consonância com o seu plano de investimentos, a Renova acompanha o calendário de leilões de energia renovável, determinada a se manter na liderança, tanto no mercado regulado como no livre”, resume. Para Maron, o modelo de leilões foi fundamental para o crescimento da matriz eólica no país.

Com a execução do Alto Sertão Bahia III, a capacidade de geração da Renova alcançará 1.449,4 MW, procedentes da fonte eólica (1.407,60 MW) e das três Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) construídas no extremo sul da Bahia (41,8 MW), no âmbito do Programa de Incentivo a Fontes Alternativas, o Proinfa. As três centrais operam desde 2008 e formam o Complexo Hidrelétrico Serra da Prata.

Maron anuncia: para consolidar futuros empreendimentos em outros estados, a Renova elaborou “amplo portfólio de projetos eólicos” para Alagoas, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Minas, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Tocantins. Até presentemente, os empreendimentos da Renova estão concentrados na Bahia.

Nos dois leilões que ainda ocorrerão neste ano – 18 de novembro (A-3) e 13 de dezembro (A-5), a empresa deverá cadastrar cerca de 400 MW eólicos.

Energia solar – A Renova aposta também na energia fotovoltaica e já cadastrou os projetos que apresentará no leilão de estreia dessa fonte, previsto para 18 de novembro, com entrega da energia em 2016. Nesse leilão, a energia solar competirá com outras fontes, em princípio menos custosas, incluindo a eólica, admite o executivo.

Maron relata que desde 2011 a Renova coleta dados de irradiação solar (temperatura e frequência da luz) de uma área de 150 km² de extensão, no mesmo sudoeste da Bahia onde começou a instalar seus parques eólicos. Essa região de fortes ventos integra, também, a área de maior potencial de irradiação solar do país. “A meta da Renova é liderar o mercado de geração fotovoltaica no Brasil, repetindo o bom desempenho conquistado no setor eólico”, anuncia. Para começar essa jornada, conta com pouco mais de 200 MW em projetos cadastrados, “que já podem ser executados”.

Competitividade – Mas é justamente o salto da competitividade, expresso desde 2009 na curva acentuadamente declinante dos preços por MW/h propostos nos leilões, que despertou certo temor quanto à energia eólica. As autoridades ficaram temerosas quanto à possibilidade de a fonte eólica passar, de leilão em leilão, a responder por uma fatia excessiva da matriz energética nacional, em detrimento, principalmente, da fonte térmica convencional. Isso colocaria em risco a segurança do sistema.

As autoridades consideram que, embora poluente e mais onerosa como indicam os próprios reveses na disputa com a matriz eólica registrados nos leilões, a modalidade térmica também tem sua grande vantagem: não está submetida aos ciclos e humores dos ventos e da vazão dos rios. Este é o fator limitante das hidrelétricas a fio d’água que começaram a ser construídas na Amazônia.

Para o executivo da Renova não há, entretanto, razão para qualquer temor. “Nossa visão é a de que, para assegurar o crescimento do Brasil, é fundamental uma matriz elétrica diversificada, contando com todas as fontes”. Ressalta que cada uma delas tem as suas peculiaridades: “São relevantes para formar um mix, para que a matriz nacional não dependa somente de uma ou de outra fonte, e sim das quatro: hídrica, eólica, térmica e fotovoltaica, fora a nuclear. O papel do governo é minimizar os riscos de desabastecimento e apagões.”

Para ele, o fato de o governo sinalizar que criará oportunidades para a energia térmica denota preocupação em assegurar o abastecimento, e garantir que eventos mundiais, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, aconteçam sem sobressaltos. “As térmicas são mais caras e poluentes, no entanto, apresentam como vantagem o acionamento rápido para ingresso no grid”, argumenta.

Foi justamente em razão da necessidade de formar uma matriz diversificada que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) excluiu a matriz eólica do leilão de energia nova que contratará a demanda das distribuidoras em 2018. A EPE advertiu: se eólicas e térmicas forem misturadas, nessa e em outras licitações, apenas as eólicas ganharão. A solução para evitar que a energia térmica seja suprimida dos novos contratos foi realizar leilões distintos para as duas fontes, como o de 23 de agosto, exclusivo para projetos eólicos.

Em defesa da energia eólica, Maron alega que a fonte hídrica responde por mais de 80% da eletricidade utilizada no país, realidade que assegura uma das matrizes mais limpas do mundo. “No entanto, os últimos períodos de seca têm sido severos, elevando a exposição do suprimento hídrico a risco.” É aí que a fonte eólica mostra o seu alto valor estratégico, decorrente da circunstância de que os períodos de pouca chuva são, exatamente, aqueles com maior incidência de ventos. Maron resume: “Se venta mais, chove menos, se venta menos, chove mais.”

Essa complementaridade entre as matrizes hídrica e eólica dará mais segurança ao sistema elétrico, segurança essa “comprovada meteorologicamente”. Os estudos mostram que, historicamente, o Brasil apresenta variação hídrica média entre 13% e 17%, e variabilidade eólica em torno de 4%. “Logo, é mais fácil prever quando vai ventar, do que quando vai chover”, conclui, ressalvando: “Isso não significa que devemos deixar de lado a premissa de que é preciso ter uma matriz amplamente diversificada, segura e limpa.”

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