Notícias: Brasil aproveita mal a energia

O país precisa ter uma política energética mais efetiva para assegurar energia para todas as atividades da economia. Esse foi o tema central do XV Congresso Brasileiro de Energia, realizado entre 22 e 24 de outubro, na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), na capital fluminense.

O aumento da participação nacional na indústria de petróleo, a interrupção das privatizações do setor de energia, com a volta do planejamento central energético, o crescimento da geração eólica e o programa Luz para Todos, entre outros, foram alguns dos avanços citados pelo professor Luiz Pinguelli Rosa, presidente do XV CBE e diretor da COPPE/UFRJ.

Realizado exatamente no dia seguinte ao leilão de Libra, o tema petróleo deu o tom da abertura do evento. Pinguelli afirmou que as mudanças no marco regulatório – que hoje tem, além do regime de concessão, a partilha e a cessão onerosa – são um fator positivo no cenário energético.

Petróleo & Energia, Abertura do CBE: especialistas pedem política energética efetiva
Abertura do CBE: especialistas pedem política energética efetiva

O presidente da Empresa de Planejamento Energético (EPE), Maurício Tolmasquim, destacou que o novo modelo tornará possível à União reter até 85% da renda proveniente da produção do campo e aumentar seu poder geopolítico no cenário mundial. “Não poderia haver escolha melhor. Fica difícil dizer que foi um mau negócio”, afirmou.

“O que precisamos é transformar a riqueza do petróleo em desenvolvimento econômico e social”, complementou Helder Pinto Queiroz, diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que participou da abertura do congresso.

Mas nem tudo são rosas no setor. Pinguelli destacou que há algumas questões que precisam ser equacionadas, e logo, entre as quais o atraso na construção de refinarias, a redução do uso de etanol, por causa da atual política de preços, a importação de etanol de milho dos Estados Unidos, e a dificuldade conjuntural da Petrobras.

Os gargalos na indústria de equipamentos para a produção petrolífera e de maior desenvolvimento tecnológico na indústria de energias alternativas foram apontados por Pinguelli como fatores críticos. Ele também chamou a atenção para o aspecto ambiental, principalmente no que diz respeito aos riscos de vazamento de óleo na exploração em águas profundas e ultraprofundas.

O diretor de Gás e Energia da Petrobras, José Alcides Santoro Martins, afirmou que o leilão de Libra foi o grande marco deste ano, acrescentando que a companhia também ampliou seus investimentos em geração elétrica. “Sol, vento, biomassa, gás, nenhuma fonte deve ser excluída. Cada uma deve ser considerada, conforme a especificidade de cada estado”, afirmou, defendendo a diversificação na geração energética no país, que terá outra grande oportunidade com o leilão de áreas com potencial de gás natural ainda este ano.

Ingerência política – O professor Edmilson Moutinho dos Santos, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), abriu de forma polêmica os debates do segundo dia do XV CBE. Ao iniciar a palestra “O custo de energia como fator de produtividade”, ele pediu desculpas prévias à Firjan, ao afirmar que ela e a congênere paulista, Fiesp, estão erradas em lutar pelo barateamento da energia.

“A política econômica tomou conta da política energética. O modo de cobrança dos diferentes insumos vai frear investimentos e reduzir a competitividade não só das empresas de energia, como de toda a indústria nacional”, afirmou. “A prioridade deveria ser alocada para novos investimentos. Mas, com a política atual, os nossos projetos de eficiência energética ficarão na academia.”

Com 340 projetos em carteira na área de energia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é um dos fomentadores do setor, como mostrou Eduardo Chagas, gerente do Departamento de Energia Elétrica da área de Infraestrutura do banco, que enfatizou o forte crescimento de aportes.

O gerente executivo da diretoria de Gás e Energia da Petrobras, Hugo Repsold Júnior, afiança que a pesquisa e o desenvolvimento na área são fundamentais para o Brasil reduzir sua dependência desse energético, frisando que o mercado termoelétrico já consome mais de 1/3 da produção nacional de gás.

Ele destacou os resultados do Programa Onshore de Gás Natural (Pron-Gás) na avaliação do potencial das bacias sedimentares brasileiras: nos últimos 18 meses foram feitas 55 descobertas, das quais 27 marítimas (16 no pré-sal). E lembrou que, desde 2000, tem havido reposição das reservas, principalmente em decorrência do potencial exploratório, e destacou o aumento das descobertas de gás não associado ao óleo, o que facilita e reduz o custo da exploração.

Para Zevi Kann, consultor de Regulação da Abegás, associação que reúne as distribuidoras de gás natural no país, o maior desafio do setor é a interiorização. “Apesar de existirem cerca de 20 empresas estaduais de distribuição, algumas delas existem apenas no papel, pois o gás não chega àquela região”, alertou, afirmando que estão em plena atividade apenas as distribuidoras que estão localizadas na costa brasileira, próximas às reservas de gás offshore.

Gargalo da qualificação – “Novos talentos: a questão da qualificação de mão de obra e a valorização profissional no setor energético” foi o tema de uma das mesas do último dia do evento, com a participação do engenheiro da Petrobras Bruno Moczydlower.

Representante dos chamados ‘Jovens Talentos’ da Sociedade de Engenheiros do Petróleo (SPE), ele lembrou que houve intensa perda de postos de trabalho na área de engenharia, em âmbito mundial, nas décadas de 1980 e 1990. Segundo ele, essa perda somou 1,1 milhão de pessoas, com o argumento da retração econômica e dos processos de fusão e aquisição entre grandes players.

A questão da geração de conhecimento e de tecnologia também foi tema dos debates coordenados pelo superintendente de Planejamento, Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da ANP, Elias Ramos. Ele frisou que a Petrobras, uma das maiores geradoras de tecnologia no país, deposita anualmente em torno de 60 novas patentes, enquanto a Exxon alcança 300 patentes, e a chinesa CNPC, uma das sócias da petroleira brasileira em Libra, 1.500 patentes ao ano. “Os dados dão a dimensão da necessidade do salto tecnológico que o país precisa dar”, concluiu Ramos.

O debate sobre qualificação e inovação foi incrementado com a apresentação de Adília de Assis, gerente de Capacitação Profissional da Petrobras e representante do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp). Para dimensionar o desafio, ela lembrou que até 2017 a Petrobras vai construir 38 plataformas, 88 navios e 28 sondas de perfuração e que a indústria de petróleo vai dobrar de tamanho até 2020. “Há uma grande quantidade de pessoas envolvidas nesses projetos, a indústria de óleo e gás é intensiva em mão de obra”, afirmou a gerente do Prominp, destacando que tem havido dificuldades até mesmo para encontrar professores. A atividade de engenharia nessa área é divulgada por meio de treinamentos, edição de cadernos técnicos e eventos.

A interação entre academia e indústria é apontada como um dos caminhos para vencer os desafios e gerar inovações. Quem mostrou isso foi a gerente geral de Gás e Energia do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras (Cenpes), Viviana Coelho. Pontuando que os investimentos da companhia nessa área cresceram sete vezes nos últimos dez anos, somando, só de 2010 a 2012, US$ 3,6 bilhões, ela frisou que hoje há mais de 100 parcerias com universidades e instituições de pesquisa em 49 redes temáticas, que recebem recursos de R$ 300 milhões ao ano.

Na mesa “Garantia da oferta de energia”, que encerrou o evento, foram discutidas as alternativas para a expansão energética. Gilberto Hollauer, da secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Energético do MME, afirmou que a intenção do governo é manter na faixa de 40% a parcela de uso de energias renováveis na matriz energética. “No mundo, a média é de 13%. Nesse curso, o Brasil é o primeiro da classe”, afirmou, pontuando que a parcela de aproveitamento hídrico é declinante: de 75,4% em 2011, deve ficar em 67,3% em 2021, enquanto o uso da biomassa deve subir de 5,7% para 8,7% no mesmo período.

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