Mercado Regional de softwares tem potencial imenso de negócios

Foto: Rodrigo Mantovani

Com apenas 42 anos, o vice-presidente regional e diretor-geral das operações latino-americanas da Aspen Technology, Inc., Filipe Soares Pinto, é um verdadeiro globetrotter. Nascido e criado no Porto (Portugal), formou-se engenheiro químico na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, para depois graduar-se mestre e doutor pela Universidade de Manchester, sempre direcionando o foco de estudos para modelação e simulação de processos industriais. Voltou a Portugal para trabalhar em uma petroquímica local, passando depois para uma unidade na Coreia do Sul. Em 1998, passou para a área comercial de softwares de engenharia de processo em Barcelona, na Espanha, na filial da canadense Hyprotech, comprada pela Aspentech em 2002. Lá permaneceu mais quatro anos e foi indicado como vice-presidente da companhia para o Sudeste Asiático, de onde veio para São Paulo para criar a estrutura regional da companhia, em novembro de 2011.

Petróleo&Energia: Como o sr. classifica o mercado regional para softwares de engenharia?
Filipe Soares Pinto: A região toda apresenta um potencial enorme de negócios, por exemplo, no Brasil, México e Venezuela. Há dois anos, a companhia dividia seus interesses em três regiões: Ásia, Américas e Europa. Ao verificar as oportunidades, foi preciso considerar a América Latina como a quarta região, exigindo montar estrutura local.

P&E: Quais são as etapas de instalação?
Filipe: Estamos montando as equipes em cada localidade relevante, com a coordenação em São Paulo. Atualmente, nosso ritmo de atividades é muito forte, precisamos contratar algumas pessoas altamente qualificadas, embora em pequeno número. Esse modelo de negócio usa equipes pequenas, temos 1,2 mil pessoas em todo o mundo. Os trabalhos são distribuídos entre toda a equipe global, quando necessário, aproveitando as especialidades e disponibilidades de pessoal.

P&E: O que a Aspentech pode oferecer para a região?
Filipe: Oferecemos softwares de engenharia que podem aumentar a produtividade e a eficiência das operações nos ramos de óleo e gás, petroquímica, química básica, química fina e empresas de construção, por exemplo. A Aspentech iniciou seus trabalhos dentro do MIT [Massachussets Institute of Technology, nos EUA], em 1981, com um projeto de um simulador de processos, que deu origem ao famoso Aspen Plus, hoje integrado ao sistema aspenONE.

P&E: Para que serve o aspenONE?
Filipe: Trata-se de um conjunto único de soluções informatizadas nos campos de engenharia, otimização e cadeia de suprimentos. Em engenharia, o sistema integra ferramentas para design de linhas completas de produção, o sistema mais usado no mundo para engenharia conceitual, além de contar com simuladores para verificar o funcionamento virtual dos processos. Para otimização, temos um sistema próprio para aquisição de dados do processo que auxilia a determinação de parâmetros que orientam o nosso programa de controle avançado de processos (APC), que é independente dos produtos oferecidos por algumas empresas fornecedoras de produtos e sistemas de automação e controle. Contamos com o auxílio de uma biblioteca de dados dos principais equipamentos termodinâmicos em processos, para orientar novas instalações. No campo do supply chain, temos softwares específicos para gerenciar compras, estoques, transportes e prazos de matérias-primas e insumos críticos, por exemplo, de óleo para refinarias de petróleo. Isso permite reduzir custos, ao selecionar os óleos processáveis mais econômicos. É uma forma de planejamento inteligente, operado por computadores. Fazer isso sem um programa específico daria um trabalho imenso e haveria o risco de ocorrência de erros.

P&E: Há exemplos de uso real desses programas?
Filipe: Aqui no Brasil, a Refinaria Henrique Lage (Revap), da Petrobras, obteve ganho de US$ 13 mil por dia com o uso de ferramentas de otimização em tempo real (OTR) da Aspentech. Trata-se de uma refinaria para 250 mil barris/dia, na qual o programa facilitou o uso ao máximo de óleos crus nacionais pesados, com menor necessidade de misturar óleos leves, importados e mais caros, sem prejuízo da qualidade e diversificação do portfólio de produtos, que até melhoraram. No exterior, a Chevron conseguiu reduzir o tempo necessário para restabelecer as operações de refino após paradas, diminuindo perdas.

P&E: A instalação do programa e a adequação ao cliente são complexas?
Filipe: Pelo contrário. Diferentemente de todos os demais sistemas oferecidos no mercado, o nosso é entregue completo, com todas as ferramentas, para cada cliente. Cabe a este decidir o que pretende instalar e quantos usuários serão habilitados a operar o sistema. Quando concluímos a negociação, licenciamos os módulos desejados e entregamos tokens, pequenos aparelhos eletrônicos que geram senhas para permitir o uso dos programas. Desse modo, o cliente precisa definir quantas pessoas entrarão simultaneamente no sistema. A instalação é feita em minutos e a adequação ao processo pode demorar mais ou menos, dependendo de cada caso.

P&E: Há situações mais demoradas que outras?
Filipe: Cada cliente tem suas características. Em geral, os grandes clientes possuem departamentos internos de TI que podem fazer tudo sozinhos. Outros contam com implantação completa feita pela Aspentech, opção preferida na América Latina, enquanto um outro grupo pode contratar os serviços de um solution provider autorizado por nós. O software de engenharia é convencional, todos os engenheiros o conhecem e sabem como operá-lo. Os sistemas de APC e supply chain precisam de algum grau de customização.

P&E: Qual a vantagem de entregar o programa completo, com programas a mais do que o cliente solicitou?
Filipe: A ideia é favorecer o uso mais amplo do software e das ferramentas disponíveis. Tendo o programa todo em mãos, o cliente pode pedir licenças adicionais a qualquer tempo, com facilidade e rapidez. Os produtos adicionais e as atualizações são transmitidos on-line.

P&E: Como se distribui a demanda por esses softwares no Brasil?
Filipe: Há três segmentos distintos. O primeiro é formado pelas companhias nacionais de grande porte, como Petrobras e Braskem, que já têm grande experiência com essas tecnologias. O segundo inclui as filiais das empresas internacionais, muitas das quais são nossas clientes, com acordos globais de fornecimento. O terceiro segmento é altamente diversificado, com pequenas e médias indústrias e empresas de engenharia. Neste segmento há grandes oportunidades de negócios. As empresas de maior porte, em geral, usam nossos produtos, mas também têm possibilidades de crescimento.

P&E: Esses sistemas evoluem?
Filipe: Sim, muito. Há um grupo de clientes em todo o mundo que é mais ativo. Esses clientes participam de reuniões periódicas e nos informam sobre novas necessidades. A cada dois anos, a Aspentech promove um encontro com mais de 500 clientes e usuários para discutir novas demandas e aplicações. O próximo está marcado para maio de 2013, em Boston (EUA). As melhorias incluem interfaces mais amigáveis, com operação mais intuitiva. Além disso, sempre se procura aumentar a integração entre os componentes, para fazer a engenharia básica, design, orçamentos, cálculo de custos e outras atividades dentro do mesmo sistema. Também existe demanda para novas funcionalidades, a exemplo da modelagem específica para determinação da pegada de carbono em atividades novas, um ponto muito útil para investimentos em biocombustíveis e biotecnologia.

P&E: As iniciativas da chamada economia verde pedem muitas mudanças?
Filipe: Um pouco. Em geral, as atividades biotecnológicas operam mais por bateladas do que em linhas contínuas, ao contrário dos processos de refino e petroquímicos. Isso exigiu alguma adaptação do software e a adequação de parâmetros mais específicos. Mesmo na petroquímica, a chegada do shale gas nos EUA provoca a revisão dos parâmetros técnicos e econômicos dos projetos.

P&E: O sistema se prende mais ao nível de campo ou ao top management?
Filipe: A ambos. Temos um coletor e gerenciador de dados de processo que recolhe informação ao nível MES. Como é preciso enxergar o processo como um todo, para balanços de massa e energia, por exemplo, temos uma interligação também com o ERP corporativo. O controle avançado de processos atua no controle de campo. Então, tudo se interliga. Temos um acordo mundial com a SAP para interfaceamento entre nossos produtos, que é feito sem maiores dificuldades.

P&E: A produção de etanol é importante para a Aspentech?
Filipe: Especialmente no Brasil, as usinas de açúcar e álcool representam um campo enorme para crescimento dos softwares. Na área de engenharia, temos um grande número de clientes, vários se interessam pelos simuladores e há muita gente nas usinas interessada em adotar o controle avançado de processos. Também em supply chain há boas oportunidades, e isso é um ponto crucial para as usinas. Mesmo a decisão de produzir mais açúcar ou mais álcool é uma forma de otimização de processos, e o nosso software ajuda a fazer a opção mais econômica.

P&E: Há um grande número de outras aplicações?
Filipe: De fato. Verifica-se uma falta generalizada de engenheiros em todo o mundo, não é exclusividade da América Latina. Os softwares devem facilitar a vida dos engenheiros, reduzir trabalhos redundantes e evitar erros. Temos um sistema de gerenciamento de transição de grades em polímeros, por exemplo, que reduz ao mínimo a geração de off-specs nas fábricas de resinas termoplásticas. A simulação dinâmica de processos permite ver o que pode acontecer em determinados eventos, ajudando a prevenir danos. Há sistemas para gerir o scale up de processos, até em produtos farmacêuticos, acelerando a entrada em escala comercial. Tudo fica mais fácil e seguro com a aplicação da tecnologia.

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