Marintec South America: Cadeia naval se mobiliza para disputar mercados no exterior

Petróleo & Energia, Marintec South America: Cadeia naval se mobiliza para disputar mercados no exterior
Tonar-se uma protagonista mais atuante no cenário internacional é a grande meta da indústria naval e offshore brasileira, propalada e reafirmada nos diversos eventos realizados nos três dias da Marintec South America, a 11ª Navalshore, realizado entre os dias 12 e 14 de agosto, no Centro de Convenções SulAmerica, no Rio de Janeiro-RJ. Para isso, toda a cadeia produtiva deve se mobilizar, incluindo o setor de navipeças e equipamentos, que ainda não foi fortemente impactado pelos benefícios do conteúdo local.

Todos os atores desse mercado sinalizaram, dentro e fora do evento, que a estabilidade proporcionada pelo conteúdo local e a grande demanda por bens e serviços da indústria petrolífera e offshore não asseguram a longevidade no médio e longo prazos.

Na percepção do setor é fundamental conquistar outros mercados, até mesmo para poder concorrer, dentro e fora do país, com os estrangeiros que vêm se instalando no Brasil por meio de incorporações, aquisições e parcerias com empresas locais. Com este mote, há uma onda inversa, que defende a flexibilidade (com revisão de alguns pontos das regras de conteúdo local) em relação à participação de empresas estrangeiras de países que têm forte tradição no setor, como os asiáticos, mas disputras pelas encomendas das estatais.

Petróleo & Energia, Machado, com Bueno e Van Wijk: conteúdo local, com melhor gestão, ampliará a produtividade
Machado, com Bueno e Van Wijk: conteúdo local, com melhor gestão, ampliará a produtividade

O presidente da Transpetro, Sérgio Machado, discorda de mudanças, afirmando que o setor vive outra etapa e precisa enxergar longe. “Sou contra a diminuição da exigência de conteúdo local nos projetos realizados no país, pois devemos pensar em aperfeiçoar a gestão e chegar a 50% de produtividade para competir internacionalmente, não podemos ficar em 10%”, diz o dirigente da empresa que criou o programa de modernização da frota (Promef) do setor de óleo e gás, o maior demandante de novos navios.

Essa melhoria na gestão pode ser acelerada com a interação com players que têm expertise, tecnologia própria e competitividade internacional. Atributos que a indústria local precisa e deseja incorporar, reforçando a conexão internacional. E não é preciso fazer muito esforço nesse sentido: eles já estão singrando os mares, em busca de ‘portos’ brasileiros, associando-se a estaleiros nacionais.

Mercado atraente – O número de empresas estrangeiras que participaram do evento confirma o interesse internacional no mercado brasileiro: a Marintec – Navalshore 2014 teve 380 marcas expositoras (das quais, 70 estreantes) de 17 países. As empresas se apresentaram em estandes próprios ou em um dos 12 pavilhões internacionais: Argentina, Uruguai, China, Japão, Reino Unido, Polônia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Alemanha, Canadá e Coréia do Sul.

“Os R$ 100 bilhões em entregas programadas até 2020 tornaram o Brasil uma das principais carteiras de construção naval do mundo. O desafio agora é fortalecer a cadeia de suprimentos e a formação de mão de obra para atender essa demanda no país”, destacou Joris Van Wijk, diretor-geral da UBM Brazil, subsidiária local do grupo internacional.

O encontro naval reuniu lideranças governamentais e setoriais, empresas e especialistas do setor e recebeu 16.600 visitantes, vindos de 40 países, público formado, em boa parte, por executivos e gestores com poder de decisão nas empresas do segmento.

O que mostra a força dessa feira cujo principal objetivo é propiciar um ambiente voltado para a geração de negócios, exposição de tecnologias e melhores práticas, assim como do portfólio de produtos e serviços para toda a cadeia produtiva.

O potencial do mercado brasileiro atraiu, há quatro anos, a gigante UBM, uma das maiores empresas do mundo em mídia de negócios, que adquiriu o controle da Navalshore, que neste ano assumiu definitivamente a denominação Marintec South America.

Um dia antes do evento, foi anunciada a aquisição pela UBM da Seatrade Communications, um dos principais grupos de mídia especializados no cenário naval. Com isso, ficou ainda mais robusta a projeção da UBM na indústria marítima internacional, fortalecendo o portfólio de feiras organizadas: passou de nove para 14 o número de eventos de negócios e de conteúdo realizados na Ásia, Europa e Américas.

Petróleo & Energia, Rocha: projetos padronizados melhorariam a competitividade
Rocha: projetos padronizados melhorariam a competitividade

Estabilidade sem âncora – “Esta feira reflete o momento positivo do setor no Brasil: além de termos hoje 82 mil trabalhadores diretos envolvidos, há cerca de 700 mil empregados na cadeia produtiva como um todo; queremos ampliar a competitividade e a ampliação de mão de obra qualificada”, disse o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo Santana da Rocha.

Júlio Bueno, secretário de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços do Governo do Rio de Janeiro, concorda com Rocha. Mas salienta: “agora, precisamos olhar para frente e pensar na competitividade internacional, em como podemos inserir ainda mais o Brasil no cenário mundial.”

Para os especialistas, somente a competitividade poderá ‘ancorar’ essa estabilidade e assegurar o ‘combustível’ necessário para o setor se arriscar em trajetos de longo curso, rumo a mercados no exterior, assim como atender a demanda local. O que só será possível se for estabelecido um novo modelo de negócios, como pleiteia o Sinaval, a Associação Brasileira das Empresas de Construção Naval e Offshore (Abenav) e a Associação Brasileira de Empresas de Apoio Marítimo (Abeam).

Novo modelo – “Precisamos de um modelo de negócios que possibilite a construção local de um estoque de cascos de plataformas, em ação integrada entre estaleiros locais e internacionais”, diz Ariovaldo Rocha, lembrando que estão previstas 56 novas plataformas até 2030, com grande concentração de entregas até 2025. “Uma das soluções possíveis seria adotar projetos padronizados de sistemas de produção, como o das plataformas replicantes, em construção no Rio de Grande do Sul”, apontou.

Petróleo & Energia, Gouvêa Vieira recomenda definir prioridades e firmar alianças
Gouvêa Vieira recomenda definir prioridades e firmar alianças

Hoje, há quatro modelos de negócios usados no mercado de plataformas de petróleo: construção total da plataforma no país; construção parcial no Brasil, com integração de módulos em cascos convertidos no mercado internacional; construção local de cascos com sub-blocos e partes fornecidos por estaleiros internacionais; e contratação de afretamento da plataforma integralmente construída no mercado internacional.

No modelo novo, os estaleiros locais atuariam como contratantes líderes, mobilizando sua rede de fornecedores e também os agentes financeiros para a construção dos diversos elementos, do casco aos grandes sistemas dos módulos de produção.

Essa proposta vem ao encontro de sugestões feitas pelas petroleiras internacionais durante o World Petroleum Conference (WPC), realizado em junho, em Moscou, na Rússia, quando as oil companies defenderam a urgente necessidade de enfrentar a questão dos custos crescentes. É outro ponto que mostra o quanto é crítica a questão da competitividade da indústria naval brasileira, que não ‘cresce’ na mesma velocidade que a carteira de encomendas.

“Temos ainda o desafio de ampliar a formação de mão de obra para atuar nas 380 novas embarcações previstas”, complementou Ronaldo Lima, presidente da Abeam, destacando a parceria celebrada com a Marinha para a formação de novos oficiais de Marinha Mercante.

“Não dá para fazer tudo. Precisamos priorizar e definir no que podemos ser melhores. Se nos focarmos, poderemos ampliar em um milhão o número de empregos. Temos que nos estruturar para competir e estabelecer alianças para aumentar a participação do País no cenário internacional”, afirma Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, presidente do Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Rio). Segundo ele, a saída é descobrir as vocações que podem agregar valor para as empresas e para os trabalhadores.

O presidente da Transpetro discorda dessa visão, entendendo que o setor precisa pensar grande, melhorando sua competitividade internacional.

De olho no Brasil – Essas questões ganharam espaço na Marintec, no workshop técnico organizado pelas entidades do setor e que reuniu alguns players locais e internacionais. Na pauta, formas de superar os desafios que impactam a produtividade e a competitividade da indústria naval e offshore do Brasil, sob a ótica dos países que deram certo.

Especialistas do Japão, Noruega e Reino Unido debateram o modelo de desenvolvimento de cada país e o interesse das empresas estrangeiras em participar do mercado brasileiro.

Shinichiro Otsubo, diretor de Construção Naval do Ministério de Terra, Infraestrutura, Transporte e Turismo do Japão, um dos três maiores do setor naval, junto com Coreia do Sul e China, mostrou um pouco da visão japonesa sobre a indústria brasileira, enfatizando a participação de companhias daquele país em quatro estaleiros locais: Atlântico Sul (IHI), Ecovix (Mitsubishi), Enseada (Kawasaki) e EBR (ToyoSetal). “O Brasil precisa estabelecer a sua indústria naval e o Japão tem empresas dispostas a trabalhar em cooperação para que isso se concretize”, afirmou o representante do governo japonês. Helle Moen, diretora da agencia de fomento da Noruega, Innovation Norway, falou sobre a política industrial do governo norueguês para o setor e as ações governamentais que buscam dar suporte às empresas que buscam maior visibilidade externa. “Temos experiência na construção naval e queremos aprofundar a cooperação com a indústria brasileira. É um momento em que há uma competitividade muito grande, envolvendo players que apresentem soluções inovadoras e otimizem os processos”, destacou. “A Noruega tem muito a oferecer.”

Para Augusto Mendonça, presidente da Abenav, o workshop técnico e a troca de experiências, possibilitou uma visão sistêmica da indústria naval brasileira sob os olhos de países que obtêm sucesso no setor, e a formação de parcerias.

Outras parcerias podem ter sido alinhavadas na rodada de negócios, promovida pela Abenav. “Essa feira vem melhorando ano a ano; tivemos de ampliar o horário da rodada de negócios, pois foram 90 empresas inscritas para mostrar suas soluções em produtos e serviços para 11 âncoras (das quais seis estaleiros)”, revela Mendonça. Os encontros reuniram grandes players como a EBR, Eisa, Aliança, Vard, MRM, São Carlos, Brasfels, Galáxia, Web e Tek Sea.

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