Lubrificantes – Apelo ambiental impulsiona uso de óleos de fontes renováveis

 

A conjunção entre a demanda por práticas mais sustentáveis e o emprego de máquinas e equipamentos de grande porte, com maior capacidade produtiva e operação ininterrupta – muitas vezes sob condições adversas –, impõe novos desafios para os lubrificantes industriais, impulsionando seu desenvolvimento comercial e tecnológico.

Na seara tecnológica, a aparentemente inexorável tendência de substituição dos óleos minerais básicos por outros de origem sintética ganha agora uma nova vertente: a busca por óleos provenientes de fontes renováveis. De maneira geral, óleos sintéticos são ainda usados em escala muito menor do que os minerais, mas conquistam espaço mesmo entre os usuários de lubrificantes mais tradicionais. Afinal, embora seus custos iniciais sejam superiores, permitem desempenhos inalcançáveis pelos minerais, cujo desgaste é muito mais acelerado. Além disso, requerem quantidades menores e, assim, reduzem os passivos ambientais.

Ao lado da crescente presença dos óleos sintéticos na fabricação de lubrificantes industriais, tornam-se mais palpáveis as perspectivas de oferta de óleos minerais básicos de melhor qualidade produzidos no país. O Brasil – leia-se, Petrobras –, por enquanto, produz apenas óleos colocados no Grupo I da classificação estabelecida pelo American Petroleum Institute (API), com grupos que vão de I a V. Já houve, porém, o anúncio do início da produção, com o rerrefino de óleos do Grupo II, de melhor qualidade.

Daqui a quatro anos, também a Petrobras deverá produzir óleos desse grupo: “Em seu plano de negócios 2011-2016, a empresa anunciou um investimento no Comperj para a produção, a partir de 2016, de 400.000 m³por ano de óleos básicos do Grupo II”, salientou Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento da estatal. Segundo ele, entre 2006 e 2011, a procura por óleos básicos no Brasil cresceu em média 4,2% ao ano, e no ano passado chegou a 1,45 milhão de m³.

A maior parte dessa demanda não se destina aos lubrificantes industriais, que representam, pelas estimativas de Maurício Matta, diretor do Sindicato Interestadual das Indústrias Misturadoras, Envasilhadoras de Produtos Derivados de Petróleo (Simepetro), algo entre 25% e 30% do total dos lubrificantes produzidos no país (o restante corresponde aos lubrificantes automotivos).

No ano passado, ressalva Matta, o crescimento do consumo de lubrificantes se deveu apenas aos produtos automotivos – no segmento industrial, houve queda estimada em algo entre 4% e 5% em relação a 2010. Por que esse recuo? “De maneira geral, a indústria brasileira teve dificuldades no ano passado”, responde Matta. “Além disso, embora cresça o consumo de produtos automotivos, as montadoras fabricantes dos veículos consumidores desses produtos hoje importam muitas peças da China, e assim impactam a indústria metal-mecânica, assim como a siderurgia, um segmento muito importante para os negócios do nosso setor”, acrescenta.

Petróleo & Energia, Antonio Ennes, Diretor da unidade de lubrificantes da Chevron, Lubrificantes - Apelo ambiental impulsiona uso de óleos de fontes renováveis
Ennes: disponibilidade de óleos sintéticos cresce no mundo

Atualmente, diz o diretor do Simepetro, o maior mercado da indústria nacional de óleos lubrificantes é composto pelos produtos hidráulicos, responsáveis por algo entre 55% e 58% do volume total produzido. E, para ele, a produção de óleos básicos de melhor qualidade no Brasil não decorrerá apenas dos investimentos já programados pelos fabricantes. “Na camada do présal, foi identificada a presença de óleos de melhor qualidade”, ressalta Matta.

Lubrificantes verdes – Por enquanto, produtos confeccionados com bases sintéticas ainda respondem, no máximo, por algo entre 5% e 10% da demanda brasileira por lubrificantes industriais, como estima Antonio Ennes, diretor da unidade de lubrificantes da Chevron no Brasil. Mas ele também confirma ser crescente o interesse pelos óleos sintéticos, especialmente os semissintéticos (mistura adequada de bases sintéticas e minerais).

Além disso, prossegue Ennes, há hoje um uso mais intenso de produtos fabricados com óleos minerais do Grupo III, qualificado nesse mercado como “sintético” por apresentar alta pureza. “Há hoje maior disponibilidade internacional desses óleos”, explica.

Agora, outro desafio se coloca para essa indústria: “É preciso encontrar matérias-primas renováveis com a mesma performance das demais”, destaca Rosimeire Zilse, gerente de vendas e marketing da operação brasileira da multinacional de origem alemã Klüber (do grupo Freudenberg).

A própria Klüber lançou um lubrificante destinado à indústria naval composto por um óleo de origem 100% renovável, de origem não revelada pela gerente. “Ele é altamente adesivo, com excelente resistência à água, protegendo cabos de aço e engrenagens abertas da corrosão e do sal”, explicou Rosimeire. Brevemente, a Klüber colocará no mercado outro lubrificante “de origem totalmente renovável e biodegradável”, agora para engrenagens abertas e moinhos utilizados na mineração e na produção de cimento.

A ITW Chemical, atuante no campo dos lubrificantes industriais com a marca Rocol, também amplia sua oferta de lubrificantes verdes. Recentemente, lançou um óleo de base vegetal para substituir o óleo mineral na parte hidráulica de equipamentos agrícolas, por exemplo, nas colheitadeiras de cana, que exigem lubrificantes capazes de suportar elevadas temperaturas e em regime de trabalho de 24 horas em cada um dos dias da safra. A ITW atende tal demanda com um produto que combina óleos extraídos de vegetais – como girassol e soja – com ésteres e aditivos.

Óleos vegetais, explica Ricardo Neves, supervisor técnico da ITW Chemical, têm maior resistência térmica e, por isso, permitem ampliar significativamente o intervalo entre trocas do lubrificante dos equipamentos agrícolas: “Normalmente, a relubrificação de uma colheitadeira de cana é feita a cada oito horas, mas já conseguimos prolongar isso para até quinze dias”, ele detalha. “E, caso haja o rompimento de uma das mangueiras da colheitadeira, com o óleo vegetal não há contaminação do solo”, complementa Mário João Gazeta, diretor de operações da ITW Chemical, cujo portfólio inclui lubrificantes com bases de origem renovável também para uso em cabos de aço.

A ITW desenvolveu também a linha Rocol Foodlube Extreme, fundamentada em polialfaolefinas e ésteres, capaz de ampliar o intervalo entre trocas nas peletizadoras de rações para alimentação animal. “Essa aplicação encontra temperatura constante de 140ºC, e a graxa comum vai embora rapidamente. Com nosso produto, o intervalo de lubrificação, antes situado entre seis e oito horas, chega até a setenta horas”, compara Neves. “Temos outro produto que inclui um pacote antidesgaste, antioxidante e de lubricidade para combater o micropitting (desgaste do metal), especialmente em engrenagens”, acrescenta o supervisor técnico da ITW.

Novos horizontes – Há hoje na indústria de lubrificantes, como informa Rosimeire Zilse, da Klüber, uma demanda crescente por materiais auto- lubrificantes, nos quais um tipo de politetrafluoretileno (PTFE), ou um silicone, recobre os componentes a serem lubrificados, dispensando assim o uso de óleo ou graxa. Tecnicamente denominado coaching, tal solução ainda é majoritariamente empregada em componentes de automóveis e eletrodomésticos da linha branca. Mas ganha espaço também em equipamentos produtivos. “A indústria alimentícia já busca esteiras e correntes dotadas de coaching”, menciona a gerente da Klüber.

Ela cita a geração de energia eólica e a indústria naval como segmentos de mercado que, embora por enquanto ainda pouco significativos, ampliam o uso de lubrificantes industriais. E afirma ser crescente no Brasil, ao menos no segmento dos sintéticos, a demanda por lubrificantes industriais: “E nós esperamos um 2012 melhor que 2011, aquecido especialmente em segmentos como indústria cimenteira e siderurgia”, projeta Rosimeire.

Petróleo & Energia, Rosimeire Zilse, Gerente de vendas e marketing da Klüber, Lubrificantes - Apelo ambiental impulsiona uso de óleos de fontes renováveis
Rosimeire: linha terá produto biodegradável

Gazeta, da ITW, também prevê um desempenho comercial melhor no decorrer deste ano. Sua empresa amplia os negócios em setores como produção agrícola, indústria papeleira e transportes (especialmente ferrovias). “Desenvolvemos uma linha de graxas para trilhos de trens à base de óleos vegetais e ésteres”, especifica.

A ITW, conta Gazeta, estruturou comitês globais para atuar com foco muito específico em segmentos como lubrificantes atóxicos, cabos de aço, limpadores e desengraxantes, energia eólica, entre outros. “Com exceção da indústria aeroespacial, o Brasil tem presença marcante em todos esses comitês”, comenta.

Petróleo & Energia, Mário João Gazeta, Diretor de operações da ITW Chemical, Lubrificantes - Apelo ambiental impulsiona uso de óleos de fontes renováveis
Gazeta prepara estrutura para logística reversa de embalagens

O Brasil segue atraindo a atenção dos grandes players globais desse setor. É o caso da alemã Avia-Bantleon, que inicia em abril uma parceria comercial com a Lubrisint (antiga Lubriquim, nome agora reservado apenas a uma marca dessa empresa), com a intenção de participar de forma mais incisiva no mercado local.

De acordo com Vinícius de Medeiros, diretor técnico e comercial da Avia-Lubrisint, além da tecnologia, a intenção é trazer ao Brasil produtos fabricados no exterior pela parceira internacional, com forte presença em segmentos de óleos hidráulicos, óleos de corte de alto rendimento e óleos protetivos, entre outros. Ao mesmo tempo, isso permitirá à Lubrisint colocar em outros países suas graxas, especialmente as aplicadas na indústria alimentícia. “Ainda neste ano, fabricaremos aqui e venderemos com a marca Avia algumas bases sintéticas, como polialfaolefinas e ésteres”, conta Medeiros.

Aprimoramento e sustentabilidade – A recente entrada em vigor da Resolução nº 18 da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) deve reduzir a quantidade de fabricantes de lubrificantes existentes no Brasil, como prevê Gazeta, da ITW. Ele estima a existência de mais de trezentos desses fabricantes, nem todos aptos a atender às rígidas determinações da nova resolução, abrangendo áreas como produção, estocagem e controle. “Essa resolução moralizará o mercado, havia muitas reclamações sobre produtos que não atendiam às finalidades às quais se propunham”, avalia Gazeta.

Para ele, essa indústria será agora crescentemente acionada para atender às exigências de sustentabilidade. Isso implica atuar em outras vertentes do processo, entre elas a chamada logística reversa. Além do rerrefino, isso inclui coletar e destinar corretamente as embalagens nas quais fornece seus produtos. Ele projeta também a necessidade de uma estrutura talvez similar àquela já dedicada ao rerrefino, composta por empresas especializadas, e apoiada com recursos dos fabricantes de lubrificantes. “Na ITW, já temos contratos com alguns clientes para logística reversa de embalagens”, conta Gazeta.

Também a Klüber, conta Rosimeire, mantém alguns contratos desse gênero. Essa empresa busca se integrar ao conceito da sustentabilidade, até mesmo em seus aspectos econômicos, mostrando que suas soluções têm impacto direto não apenas no desempenho de máquinas e equipamentos, mas também em itens como consumo de energia e água, e na emissão de CO2.

No quesito energia, a Klüber garante que a substituição de produtos tradicionais pelos seus na indústria siderúrgica – consumidora de nove milhões de litros de lubrificantes por ano – pode gerar redução no consumo de nove milhões de MWh a cada ano, suficientes para atender a uma população de 6,4 milhões de pessoas, e pelos quais a indústria é obrigada nesse mesmo período a um dispêndio de R$ 2,25 bilhões. No setor da mineração – cuja demanda soma oito milhões de litros por ano –, haveria redução de oito MWh anuais; em valores monetários, economia de R$ 2 bilhões. “Esse projeto da eficiência energética é global, mas o Brasil está mais adiantado, até porque a energia aqui é muito cara”, destaca Rosimeire.

Petróleo & Energia, Vinícius de Medeiros, Diretor técnico e comercial da Avia-Lubrisint, Lubrificantes - Apelo ambiental impulsiona uso de óleos de fontes renováveis
Medeiros: parceria com alemã traz tecnologia e abre mercado

Também atenta à sustentabilidade, a Lubrisint, conta Medeiros, busca trabalhar preferencialmente com aditivos não poluentes: “Procuramos produtos sem cloro, sem enxofre e sem chumbo, ainda hoje utilizados por alguns fabricantes”, critica.

Ennes, da Chevron, ressalta: determinadas aplicações – não oxidantes, por exemplo – ainda exigem uso de metais nas formulações. Sua empresa tem presença forte em mercados como óleos para usinas de açúcar, óleos hidráulicos, indústria automobilística – tanto nas autopeças quanto nas montadoras –, mineração e construção. Mantém, no município fluminense de Duque de Caxias, a segunda maior fábrica da Chevron em todo o mundo, com capacidade de produção suficiente para atender cerca de 40% da demanda nacional por lubrificantes. “Estamos investindo na estrutura de tancagem dessa fábrica”, ele conta.

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