Economia

Leilão Pré-Sal: Configuração do consórcio único foi a chave para conceber Libra

Bia Teixeira
11 de novembro de 2013
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    Petróleo & Energia, Maior campo offshore do mundo foi leiloado em dez minutos

    Maior campo offshore do mundo foi leiloado em dez minutos

    Decorreram menos de dez minutos entre o início da apresentação das propostas e a declaração oficial do consórcio vencedor do primeiro leilão do pré-sal da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Foi tempo suficiente para confirmar o que poucos se arriscaram a prever: o evento realizado em um hotel da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio, no dia 21 de outubro, foi apenas a formalização de um acordo muito bem alinhavado nos 15 dias que antecederam o leilão.

    O regime de partilha na exploração e produção do pré-sal brasileiro, inaugurado com o leilão da área de Libra, na Bacia de Santos, com reservas estimadas entre 8 bilhões e 12 bilhões de barris de óleo (cerca de 80% das reservas provadas atuais do país), foi o objeto de uma das mais ousadas estratégias financeiras da indústria petrolífera. E nem poderia ser de outra maneira, pois envolveu cinco das dez companhias petrolíferas com maior valor de mercado do mundo, segundo o ranking da PFC Energy: a anglo-holandesa Shell (3ª), a francesa Total (8ª) e as estatais chinesas CNPC (2ª maior) e CNOOC (10ª), além da obrigatória presença da Petrobras (7ª).

    A pré-partilha do maior campo de petróleo já leiloado no país – e no mundo – já estava definida quando Magda Chambriard, diretora-geral da ANP, abriu a solenidade, que teve uma duração total de cerca de 40 minutos. Duas horas antes, na mesa de um restaurante a aproximadamente 50 metros do hotel, alguns executivos de duas importantes organizações do setor de petróleo faziam uma aposta sobre qual seria o percentual da Petrobras e das outras três parceiras, apontando como certas a francesa Total, a anglo-holandesa Royal Dutch Shell e ‘uma das chinesas’.

    Erraram por uma. A China, o segundo maior consumidor de petróleo do mundo, entrou no páreo por meio de duas das suas três estatais formadas na década de 1980, quando o setor petrolífero do país foi reestruturado: a gigante China National Petroleum Corporation (CNPC), superada em valor apenas pela norte-americana Exxon Mobil, e a China National Offshore Oil Corporation (CNOOC), que foi barrada pelo governo dos Estados Unidos quando tentou comprar a Unocal.

    A equação foi quase perfeita: as parceiras entraram com 20% cada, levando em consideração que as duas chinesas são controladas pelo estado. Assim, coube à Petrobras os 10% restantes, uma vez que apenas 70% do campo de Libra estava em leilão. Os outros 30% já estavam assegurados para a estatal brasileira pelo marco regulatório da partilha.

    União de forças – Quem esperava uma disputa acirrada da valiosa área de Libra ficou frustrado pela entrada de uma única pessoa nos últimos 40 segundos dos três minutos regimentais para os interessados apresentarem seus lances perante a comissão de licitação e depositarem na urna a proposta financeira.

    A união de forças da Shell e da Total, ambas com reconhecida expertise em águas profundas e histórico de inovação em sistemas de produção offshore, similares aos da Petrobras, aliada à robusta capacidade financeira das duas chinesas, CNOOC e CNPC, resultou em um leilão sem concorrentes. Não tanto pelos R$ 15 bilhões de bônus de assinatura (em torno de US$ 7 bilhões) e dos 41,65% do excedente em óleo para a União oferecido pelo consórcio vencedor, que arrematou Libra sem pagar qualquer ágio ou exceder a cota mínima de óleo a ser repassada ao governo, estipulada pela ANP. A maior vitória está no lance único, oferecido pelo consórcio formado por cinco das sete empresas que, até a data do leilão, constavam como tendo depositado a garantia de R$ 156 milhões (US$ 72 milhões) para poder dele participar.

    Esse resultado atende a uma Petrobras que tem se empenhado em superar alguns obstáculos para atingir sua meta de produção. E é fruto de uma forte negociação, que pode ter tido até a participação do governo federal, após Graça Foster, presidente da Petrobras, ter dado o alerta de que Libra era estratégico para a empresa. “Nós descobrimos Libra e somos os mais qualificados a explorá-lo”, afirmou há cerca de um mês.

    Parece que a presidente Dilma Rousseff entendeu o recado e buscou dar suporte ao pleito de Graça Foster, que integra seu grupo de confiança. Tudo indica que houve um recuo por parte de todas as forças envolvidas neste leilão, ainda que a ANP mantivesse a posição de que haveria mais de um concorrente nesta disputa. “A possibilidade de apenas um consórcio está descartada; existem dois ou três pelo menos”, havia afirmado, dias antes, um dos diretores da ANP, Helder Queiroz, em um seminário do grupo de Economia de Energia da Universidade Federal Fluminense (UFRJ). O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, também negava qualquer negociação para formar um consórcio único. “Os depósitos feitos pelas petroleiras nos dão a previsão de dois a quatro consórcios disputando o campo de Libra”, afirmou.

    No entanto, uma semana antes do leilão, um diretor da ANP dissera que o mais complexo era acertar o percentual de cada participante, afirmando que “o consórcio havia avançado neste sentido e chegaria logo a um consenso”. Não no plural e sim no singular: o consórcio.



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    2 Comentários


    1. […] rentável um negócio completamente descabido e falido? Se o negócio era tão rentável, por que apenas um consórcio apareceu no Leilão, que durou cerca de 15 minutos para terminar e com claros sinais de um pré-acordo? A conta não […]


    2. LEILAO DE LIBRA NO PAÍS DAS MARAVILHAS
      Não foi tipicamente, um leilão no conceito a que estamos habituados, com vários consórcios concorrentes. Foi um leilão de perdedores: perde o leiloeiro (união) que vai receber menos na repartição do lucro petróleo – obviamente pela falta de concorrente. Perde a Petrobras que – já tendo a garantia mínima de 30% de participação como operadora única – foi obrigada a pagar 10% a mais em um momento de dificuldade de caixa. Aquele que faz o serviço da exploração recebe mais e não menos lucro futuro ao contrário do “leilão português”, no qual quem oferece o menor lance “carrega o piano”.
      Um leilão na forma de concessão traria mais recursos para exploração de outros campos, diretamente pela Petrobras na forma de prestação de serviço como sugere o professor da USP Ildo Sauer. Por exemplo: no leilão de Tupy (Lula) por “cessão onerosa” rendeu o triplo de Libra, conquanto menos promissor. Claro que não entrou dinheiro em espécie. Apenas maior participação estatal no capital da Petrobras, sacaneando acionistas minoritários.



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