Indústria Naval

Indústria naval – Suape tem problemas para manter qualidade e prazos

Adriana Guarda
26 de maio de 2012
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    Custo dos navios – Mais do que a multa, o atraso na entrega do João Cândido provocou um efeito dominó na execução das encomendas, e isso vai sair caro ao Atlântico Sul. O primeiro navio custou R$ 495 milhões, enquanto o valor contratado com a Transpetro era de R$ 323 milhões. A diferença de R$ 172 milhões será bancada pelo EAS. “Os valores dos contratos foram fixados e terão apenas as devidas correções monetárias. O aumento de custos por problemas na execução será de responsabilidade do estaleiro”, reforçou Sérgio Machado.

    Nas demonstrações financeiras apresentadas pelo Atlântico Sul em abril deste ano, as perdas reconhecidas na construção dos três primeiros navios somam R$ 333,4 milhões. O valor é suficiente para construir outro petroleiro do mesmo tipo. Historicamente, o navio número 1 de um empreendimento chega a custar entre 15% e 20% mais caro, dentro de uma curva de aprendizagem. No EAS, esse ágio chegou a 53%.

    “No caso do Atlântico Sul, já era esperada essa explosão no custo. Um navio que fica dois anos a mais dentro de uma empresa significa aumento dos custos fixos. Isso sem falar no superdimensionamento da mão de obra para concluir as entregas e no retrabalho por conta dos erros de projeto do petroleiro”, observou Floriano Pires Júnior, especialista em engenharia naval da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). A situação não foi diferente com o casco da plataforma P-55, que foi contratado por R$ 823,6 milhões, mas custou R$ 1 bilhão.

    O problema também contaminou a edificação do Zumbi dos Palmares (o segundo navio do EAS). “A embarcação está 90% edificada e será a nossa próxima entrega”, comemorou Otoniel Silva Reis. Apesar da comemoração, o navio também está atrasado e sofreu pressão nos custos. O petroleiro começou a ser construído em agosto de 2009 e a previsão é de entregá-lo à Transpetro até o final deste ano. Se a data for cumprida, serão três anos em construção, com aplicação de multa e elevação nos custos. Para evitar perdas maiores, o estaleiro precisa melhorar a produtividade e diluir os custos na construção do restante da carteira de navios.

    Prejuízo – O tsunami de problemas impactou o desempenho financeiro do Atlântico Sul. O ano de 2011 vai ficar na história como um dos piores exercícios para o empreendimento, desde a sua criação. A empresa amargou prejuízo de R$ 1,4 bilhão e queda de receita de R$ 1 bilhão para R$ 249 milhões. Para entender o significado do prejuízo bilionário, basta dizer que o investimento total na empresa, entre 2007 e 2012, foi de R$ 2,1 bilhões e que o patrimônio é estimado em R$ 3,7 bilhões.

    A empresa alegou que o péssimo resultado foi motivado pelas dificuldades técnicas e operacionais ao longo de 2011. “Mas estamos introduzindo uma série de medidas de reestruturação operacional e financeira, buscando restabelecer o equilíbrio econômico e financeiro”, afirmou no balanço.

    A dificuldade de gestão provocou uma verdadeira dança das cadeiras em cargos de liderança no empreendimento. Pelo menos uma dezena de diretores deixou a empresa e quatro executivos ocuparam a cadeira da presidência em cinco anos. A debandada também chegou aos sócios. Até este ano, Camargo Corrêa (46,5%), Queiroz Galvão (46,5%), PJMR Empreendimentos (1%) e Samsung Heavy Industries (6%) dividiam participação no Atlântico Sul. A PJMR não conseguiu acompanhar a necessidade de investimentos e teve sua parcela diluída. No ano passado, os sócios aportaram R$ 1,3 bilhão para manter o negócio.

    Um capítulo à parte foi a saída da Samsung. Os coreanos começaram sua parceria no EAS apenas como fornecedores de tecnologia e depois viraram sócios. Nos bastidores, comenta-se que a intenção dos asiáticos era levar parte das encomendas para o estaleiro coreano. Um dos questionamentos: se contava com a assessoria técnica do segundo maior construtor de navios do mundo, por que o primeiro navio apresentou tantos defeitos?

    No início deste ano, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, recebeu carta branca da presidente Dilma Rousseff para ajudar o Atlântico Sul a negociar o aumento da participação da Samsung no empreendimento. O governo federal receava que o EAS não tivesse condição de entregar a tempo os sete navios-sonda, destinados para a exploração do petróleo do pré-sal. A primeira sonda precisa estar pronta até junho de 2015.

    Foster tentou convencer os coreanos a elevar a participação no negócio de 6% para 30%, sem sucesso. A Samsung não aceitou a proposta e os sócios Camargo Corrêa e Queiroz Galvão pagaram US$ 40 milhões pela parte do grupo coreano, cada um ficando com 50% na sociedade.

    Empossado recentemente, ainda em maio, o engenheiro mineiro Otoniel Silva Reis chega num momento de crise para o estaleiro com a missão de acelerar as encomendas, além de conseguir um novo parceiro tecnológico e um sócio estratégico para a empresa. Sem experiência no setor naval, as empreiteiras não dispõem de tecnologia para fabricar as embarcações. O novo sócio deverá, também, aportar US$ 400 milhões para sanar o fluxo de caixa do empreendimento.

    Sem parceiro, sem navio – No dia 25 de maio, os 5 mil funcionários do Atlântico Sul comemoraram com festa a entrega do primeiro navio do estaleiro pernambucano. A despeito da demora, a partida do João Cândido carregou o simbolismo de ser o maior navio com bandeira brasileira em operação e o primeiro petroleiro edificado no Nordeste.

    A festa durou pouco. Mal o navio cruzou a baía do Porto de Suape em direção ao Rio de Janeiro, para fazer seu primeiro carregamento de petróleo, chegou a má notícia. A Transpetro decidiu suspender os contratos de compra e venda de 16 dos 22 navios encomendados ao EAS, dentro do Promef. Foram mantidos apenas seis navios, incluindo o João Cândido, que ainda contam com assistência técnica da Samsung.



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