Indústria Naval – Exploração offshore estimula estaleiros e pede mais aço

A fase atual não tem comparação com nenhum outro momento da história da indústria naval e offshore. Esse parece ser um consenso entre estaleiros e fornecedores de bem e insumos do setor. Nunca a indústria naval brasileira teve uma carteira de projetos de tal porte: são cerca de 300 embarcações, entre navios de carga de distintos portes, petroleiros, gaseiros, graneleiros, porta-contêineres, de apoio marítimo, rebocadores portuários e comboios fluviais, além de mais de 100 plataformas e navios-sondas.

Esse pacote de encomendas, a cargo de quase quatro dezenas de estaleiros distribuídos de norte a sul do país, ainda é pequeno comparado às oito mil embarcações da carteira da indústria naval mundial. No entanto, já atrai a atenção de investidores de todos os cantos do mundo, interessados no aquecimento desse setor, que está trabalhando a toque de caixa.

“A estimativa é de que a capacidade atual de processamento de aço dos 37 estaleiros associados ao Sinaval, estimada em 560 mil toneladas ano, aumente para cerca de um milhão de t/ano, considerando os projetos de expansão e implantação de 13 novos estaleiros”, calculou o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo Rocha.

Ele observa que o setor da construção naval tem ciclo longo de planejamento e produção, fabricando um bem de capital sob encomenda (de navios de todos os tipos a petroleiros, plataformas e sondas, além de barcos de apoio). “Em todos os países onde a construção naval tem papel de destaque, existe uma forte decisão política da sociedade para apoiar o setor”, frisou o dirigente, lembrando que a maior parte dos pedidos vem da indústria de óleo e gás.Petróleo & Energia, Indústria Naval - Exploração offshore estimula estaleiros e pede mais aço

A alavanca do Promef – Além das encomendas da Petrobras e dos projetos previstos para o desenvolvimento do pré-sal, expansão da produção e prospecção de novas fronteiras exploratórias, há também as da Transpetro, que darão um novo perfil à subsidiária ligada ao setor de transportes.

O Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef), um dos principais projetos estruturantes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na área naval, teve um papel chave nessa retomada da indústria brasileira e gerou mais de 15 mil empregos diretos.

As primeiras duas fases do programa, que prevê a construção de 49 navios (todos já licitados), são aponta- das como fator crucial para esse renascimento da indústria em bases mundialmente competitivas. O programa praticamente dobrará a frota da Transpetro, que deverá ter mais de 110 navios em 2014.Petróleo & Energia, Indústria Naval - Exploração offshore estimula estaleiros e pede mais aço

Hoje, o Brasil possui a quarta maior carteira de encomendas de navios-petroleiros do mundo. Ao longo dos próximos anos, a expectativa é de que sejam gerados, apenas com a construção de navios para a estatal petroleira, 40 mil empregos diretos e 160 mil indiretos.

“Nos últimos dez anos, o setor demonstrou claramente sua capacidade de investir e promover renda e emprego em diversas regiões do país”, disse Ariovaldo Rocha, lembrando que os estaleiros continuam em plena atividade, para cumprir os contratos assinados em anos anteriores.

Também são esperadas novas contratações de plataformas, navios de apoio e navios-petroleiros. Recentemente a Petrobras contratou o primeiro lote de sete navios-sondas com o Estaleiro Atlântico Sul, em Pernambuco, abrindo um novo segmento de construção e de agregação de tecnologia.

As propostas da última etapa de licitações do Promef, relativas à licitação de oito navios de transporte de produtos derivados de petróleo, foram entregues no final de março pelos estaleiros Ilha S.A. (Eisa) e Mauá, ambos no Rio de Janeiro.

Os demais 41 navios foram encomendados e representam um investimento total de R$ 9,6 bilhões, distribuído aos Estaleiros Atlântico Sul (EAS), Promar, Mauá, Eisa e Superpesa. Somente no ano passado, foram lançados ao mar os três primeiros navios do programa: o suezmax João Cândido, pelo EAS, e os navios de produtos Celso Furtado e Sérgio Buarque de Holanda, pelo Estaleiro Mauá.

Uma semana antes, no dia 18, começou a ser construído no Estaleiro da Ilha o primeiro dos quatro navios panamax encomendados pelo Promef. Nesse estaleiro, um dos mais antigos do país, mas que desde 1977 não tinha nenhuma encomenda para a Petrobras, serão construídos quatro navios do tipo panamax, com228 metrosde comprimento e capacidade para transportar 550 mil barris de petróleo. Dois deverão ser lançados ao mar no próximo ano e os outros dois, até 2013, dentro de um contrato de R$ 856 milhões.

“Das 437 embarcações construídas pelo Eisa desde sua fundação, cem foram encomendadas pela estatal. Hoje, depois de catorze anos, iniciamos a construção do 101º navio. E é para a Transpetro”, comemorou o presidente do Eisa, Jorge Gonçalves.

“Quando falávamos que poderíamos voltar a construir navios, as pessoas não acreditavam. Hoje, a indústria naval brasileira renasceu e já emprega 50 mil pessoas”, complementou o presidente da Transpetro, Sergio Machado, durante a solenidade de início da construção do panamax, marcada pelo corte do aço.

Além de o projeto ser nacional, outras novidades marcam essa nova etapa da indústria naval: as embarcações terão calado reduzido (shallow draft), que melhor atende os portos brasileiros, e um sistema de carga capaz de armazenar quatro produtos diferentes simultaneamente, com duplo bloqueio de válvulas.

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Exploração offshore precisa de navios de apoio

Os navios do tipo panamax serão usados pela Transpetro no transporte de óleo cru e dos chamados produtos escuros (como o óleo combustível). Ao todo, serão utilizadas 56 mil toneladas de aço na construção dos petroleiros, fato que vem aquecendo outro segmento: a siderurgia.

Aço aquecido – A indústria brasileira tem capacidade para produzir mais de 42 milhões de toneladas de aço bruto e prevê crescimento com as novas siderúrgicas que estão sendo construídas ou projetadas. O Instituto Aço Brasil (IABr) estima que, até 2016, essa capacidade chegue a 77 milhões de toneladas – 83% a mais do que a atual.

Pelas projeções do setor, somente a demanda da indústria naval brasileira pode superar 1,8 milhão de toneladas nos próximos cinco anos, considerando as encomendas já anunciadas de navios em estaleiros brasileiros. Isso representaria a média de 370 mil t/ano até 2015.

A Transpetro estima em 680 mil t a demanda total de aço para as duas fases do Promef. Sem falar nos navios de apoio marítimo — em torno de 120 unidades, ainda sem encomenda — que vão demandar outras 250 mil toneladas. Isso representará um aumento significativo dessa frota, que vem crescendo a cada ano. De acordo com o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Apoio Marítimo (Abeam), Ronaldo Lima, a frota total do segmento começou o ano com 361 embarcações, das quais 203 de empresas estrangeiras e 158 de empresas brasileiras.

“Atualmente, as empresas operadoras da frota de apoio marítimo estão construindo cerca de 60 novos navios para entrega nos próximos quatro anos. Novas encomendas estão previstas em 2011 e 2012, o que deve duplicar o quadro de construção local de navios de apoio”, pontuou o dirigente, lembrando que a demanda estimada da Petrobras é de mais 200 novos navios de apoio marítimo até 2020.

“A demanda é ainda maior quando considerada a necessidade de outras petroleiras. Portanto, a entrada em operação de novos estaleiros e a expansão dos atuais é fundamental para manter a participação da bandeira brasileira na frota de navios de apoio”, concluiu Ronaldo Lima.

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Como se não bastasse o Promef, a Petrobras também criou o Programa Empresas Brasileiras de Navegação (EBN), com o objetivo de reduzir a dependência externa do país em fretes marítimos. O programa prevê a contratação, em regime de afretamento, no período de quinze anos, de 39 navios que devem ser construídos por empresas brasileiras, em estaleiros estabelecidos no país. Além disso, o programa exige o registro da embarcação sob bandeira brasileira durante toda a duração do contrato.

Os primeiros 19 navios da fase 1, com prazo de entrega até 2014, foram contratados entre o final de 2009 e meados de 2010, nos seguintes estaleiros: Kingfish – três petroleiros de 45 mil TPB (tonelada de porte bruto) para produtos escuros (petróleo, óleo combustível, entre outros); São Miguel – três navios de 4.300 TPB para óleo bunker; Pancoast – quatro navios de produtos de 30 mil TPB, sendo dois para claros (nafta, diesel, querosene, gasolina) e dois para escuros; Elcano – três navios gaseiros pressurizados de7.000 m³; Delima – três navios para bunker de aproximadamente 2.500 TPB; e Global – três navios para claros de 45 mil TPB.

Na fase2, aPetrobras recebeu propostas de 40 armadores, entre nacionais e internacionais, mas para construção da embarcação no país, para afretamento de 20 navios petroleiros, que deverão ser entregues entre 2014 e 2017. O diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, observou que a concorrência pode motivar a criação de mais estaleiros no Brasil, já que o parque industrial está com a capacidade instalada ocupada pelos próximos anos. A licitação prevê um índice de nacionalização mínimo de 50%. “Em mais um mês ou um mês e meio estaremos definindo a concorrência”, disse Costa.

Os 20 navios são: três Aframax de 150 mil TPB; três Panamax de 110 mil TPB; oito navios de produtos (claros e escuros) de 45 mil TPB; dois navios de 18 mil TPB para escuros; quatro gaseiros, sendo dois de 12 mil m³ e dois de 8 mil m³.

Desse total, já foi contratado o afretamento de 12 embarcações: da Kingfish – oito navios de 45 mil TPB, sendo quatro para produtos claros e outros quatro para escuros; Brazgax-Brazil Gás Transportes Marítimos – quatro navios de GLP (gás liquefeito de petróleo), dois com capacidade de 8 mil m³ e dois de 12 mil m³.

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Petróleo & Energia, Ariovaldo Rocha, Presidente do Sinaval, Indústria Naval - Exploração offshore estimula estaleiros e pede mais aço
Rocha: construção naval forte conta com política de incentivo

O consumo de aço é crescente levando-se em consideração que, mesmo sem contabilizar todos os empreendimentos necessários para viabilizar o desenvolvimento da camada pré-sal e o aumento da produção de petróleo e gás em todo o país, a Petrobras vai demandar quatro milhões de toneladas de aço até 2015, na forma de cascos de navio, plataformas, sondas, além de tubos e equipamentos. Isso equivale a mais de um terço da produção brasileira de aços planos.

Em janeiro desse ano, a Usiminas venceu licitação para fornecer as 13 mil toneladas de chapas de aço destinadas à construção de navios do Promef no Estaleiro Ilha. Ela foi a grande vencedora da licitação que reuniu doze usinas siderúrgicas de cinco países. Com essa vitória, o grupo já soma 66 mil toneladas de aço contratadas para empreendimentos do Promef, ou seja, cerca de 40% do total de chapas compradas para o programa até o momento, que somam 168 mil toneladas.

“Nosso desejo é que todo o aço necessário à construção dos navios do Promef seja comprado no Brasil. E assim faremos, sempre que o preço for competitivo, ou seja, compatível com o praticado no mercado mundial”, ponderou Sergio Machado. Segundo ele, a empresa continuará realizando tomadas internacionais de preços a fim de obter sempre as melhores condições comerciais para os estaleiros participantes do Promef. Uma estratégia mais do que necessária, tendo em vista o peso do aço no custo de um navio (20% a 30%).

 

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