Indústria naval – Exploração do pré-sal coloca mais pedidos nos estaleiros do sul

Os investimentos diretos a serem realizados até 2017 no complexo portuário de Rio Grande-RS totalizam mais de R$ 20 bilhões, com forte impacto na economia local e na abertura de negócios. Porém, a participação da indústria regional neste setor não chega a 20%, sendo necessário promover mudanças para aproveitar melhor essa onda de crescimento. O destino dos projetos é sempre a exploração de petróleo e gás na camada pré-sal, capaz de gerar encomendas de vulto e abrir cerca de 40 mil vagas nesse polo naval durante os próximos cinco anos.

Além da finalização da plataforma P-55, cujo casco foi feito em Suape-PE e que deve sair do dique seco do Estaleiro Rio Grande ainda em junho, o polo abriga atualmente os projetos das plataformas de petróleo P-58 e P-63, que estão sendo construídas no canteiro do consórcio Quip, no Porto Novo, e a P-66 – primeira das oito estruturas que serão fabricadas pela Ecovix no Estaleiro Rio Grande, no Distrito Industrial, para serem utilizadas pela Petrobras na exploração do pré-sal.

Fora esses investimentos já consolidados, o grupo Wilson, Sons projeta investir US$ 140 milhões na construção de um estaleiro para fabricar rebocadores e embarcações de apoio para o setor de óleo e gás.

As cidades da região também aproveitam esse ciclo de desenvolvimento. Do outro lado do canal,em São Josédo Norte, a EBR Estaleiros obteve da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) a licença prévia para a instalação do seu estaleiro. O empreendimento, com investimento de R$ 672 milhões, deve gerar mais de 5 mil empregos na região, impulsionando a economia local.

Em visita à região no final do ano passado, os representantes da EBR estavam acompanhados de uma comitiva de empresários japoneses do grupo Global Toyo. Os asiáticos estão se apresentando como investidores em potencial do estaleiro. O empreendimento será construído na localidade do Cocuruto, na mesma municipalidade, devendo gerar seis mil empregos diretos e outros 15 mil indiretos.

Grandes transformações – Em pouco mais de cinco anos o cenário de Rio Grande foi completamente alterado. Mudanças significativas surgiram nos mais diversos aspectos e segmentos, incluindo o aumento da população e da frota de veículos, além do crescimento das ofertas nas áreas de habitação, educação, redes de supermercados e hotéis.

A alteração na estrutura da cidade se deu, em especial, com a plataforma oceânica P-53 da Petrobras, cujos módulos foram integrados no porto de Rio Grande pelo consórcio Quip S/A, a partir de 2006. Com um custo de R$ 2,5 bilhões, a obra da plataforma gerou 4,3 mil empregos. Estes fatores deram ao município a confortável 54ª posição no ranking das 100 melhores cidades do país para se fazer carreira, elaborado mediante pesquisa da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ), e publicado pela Revista Você S/A em 2010.

Essas mudanças no cenário estrutural do município refletem diretamente na economia, que está sendo alavancada pelo setor naval. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rio Grande está entre as cidades com o maior Produto Interno Bruto (PIB) do estado. A pesquisa é referente a 2009 e, conforme o gráfico apresentado, a cidade aparece na quarta posição, perdendo apenas para os municípios de Porto Alegre, Canoas e Caxias do Sul (nesta ordem).

O PIB do Rio Grande naquele ano foi de R$ 6.280.879,43. As pesquisas também mostram que o município apresenta uma evolução no PIB com relação aos outros municípios desde 2006, quando aparecia na sétima posição, passando para o sexto lugar em 2007 e assumindo a quarta posição a partir de 2008.

Conforme o IBGE, o setor que mais contribuiu com o PIB do Rio Grande, em 2009, foi o de serviços, incluindo o comércio. O valor absoluto do PIB do setor, no mesmo ano, foi de R$ 2.782.161,22, contribuindo em 44,30% para o PIB total. O segundo setor mais expressivo foi o da indústria, com 29,15% do total. Os impostos representam 24,40% do PIB; os serviços da administração pública, 15,41%; e agropecuária, 2,15%.

Para os próximos anos as projeções são ainda melhores para a cidade. Rio Grande não só deve manter a curva ascendente, mas tende a assumir posições ainda mais privilegiadas no cenário estadual. Isso porque a construção de plataformas e cascos para a exploração da camada pré-sal promete injetar bilhões de reais na cidade.

Esses empreendimentos devem gerar em cinco anos algo em torno de 40 mil empregos diretos e indiretos. Os novos investimentos, segundo estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), farão com que os números da cidade se multipliquem até 2020, lançando Rio Grande na 2ª posição do PIB gaúcho, atrás apenas de Porto Alegre.

“Nossa maior necessidade nesse momento é a qualificação profissional.” A afirmação é do prefeito de Rio Grande, Fábio Branco. Ele enfatiza a necessidade de qualificar os trabalhadores locais para atuar no setor naval. “Não basta o trabalho de atração de empresas e investimentos para Rio Grande, nós precisamos qualificar as pessoas, pois o rio-grandino só estará incluído no desenvolvimento se estiver capacitado e tiver as oportunidades”, comentou.

Feira alavanca setor – A retomada da cadeia produtiva naval, as potencialidades desse mercado e os desafios e oportunidades gerados pela exploração da camada do pré-sal no Brasil foram discutidosem Rio Grande, no extremo sul do Rio Grande do Sul, durante a 1ª Feira do Polo Naval/RS, em março, no Centro Integrado de Desenvolvimento do Ecossistema Costeiro do Extremo Sul (Cidec-Sul), no Campus Carreiros da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), que reuniu autoridades do setor, empresários e estudantes de várias regiões do país.

Em quatro dias, mais de 44 mil pessoas circularam pelos pavilhões do evento. Nos 200 estandes, os visitantes conheceram novas tecnologias desenvolvidas pela indústria nacional e também como os empresários estão moldando suas atividades para atender o setor bilionário de óleo e gás. “Temos pela frente, pelo menos, vinte anos de investimentos que precisamos aproveitar”, afirmou Marcus Coester, diretor da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI). “Rio Grande hoje é o segundo maior polo naval do Brasil, atrás apenas do Rio de Janeiro. O pré-sal vai mudar a realidade dos brasileiros”, enfatizou Augusto Mendonça, presidente da Associação Brasileira das Empresas do Setor Naval e Offshore (Abenav).

Diversas autoridades, empresários do porte de Jorge Gerdau, e representantes dos estaleiros nacionais e de empresas ligadas ao setor de óleo e gás prestigiaram o evento. Erik Schroeder e John Cuttino representaram a comitiva do porto de Houston, o maior porto norte-americano em tonelagem movimentada (220 milhões), com um fluxo diário de 60 navios mercantes e 340 barcaças. Na ocasião, eles projetaram parcerias com os portos brasileiros para melhorar o uso de hidrovias e aumentar o intercâmbio comercial. Hoje, Houston é o sétimo maior destino comercial do Brasil. “É um grande momento para os dois países e queremos ser parceiros”, afirmou Cuttino. “Estamos muito atentos às oportunidades por aqui”, complementou Schroeder.

A 1ª Feira do Polo Naval também sediou eventos paralelos, entre eles a 5ª Rodada de Negócios da Região Sul do Sebrae. Considerada um sucesso pelos organizadores, em apenas um dia promoveu mais de 700 encontros entre grandes compradores (Petrobras, Quip, porto do Rio Grande e Ecovix) e micro e pequenas empresas de todo o país. “Queremos posicionar o estado e a Região Sul como um polo de maior importância para a indústria oceânica”, afirmou Léo Hainzenreder, superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Sul.

[toggle_simple title=”Desafio permanente” width=”Width of toggle box”]

O professor Ivan Brasil Galvão dos Santos coordena o MBA em Gestão de Projetos para a Indústria Naval que a Universidade da Região do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) está implantandoem Rio Grande. Paraele, a retomada da cadeia produtiva no setor naval se concentra justamente na cidade.

Ele apontou que a indústria naval brasileira, desde 2008, quando o Brasil começou a construir grandes petroleiros e a incorporar tecnologias de ponta, passou a ser reconhecida mundialmente como grande potência. A atividade da indústria naval é considerada estratégica para o governo não só pela capacidade de gerar empregos, mas também pela atração de investimentos de grande porte. “Essa realidade se tornou ainda mais evidente com a descoberta do pré-sal e a retomada do uso das hidrovias”, observou.

Para Santos, um dos impactos desse processo reside justamente no Polo Naval de Rio Grande, que possui hoje o segundo maior porto em movimentação de carga, com o maior calado brasileiro, tendo papel importante nas transferências para Uruguai, Paraguai e Argentina. Ele ressaltou que os investimentos e consequentemente os projetos estão acontecendo de forma acelerada. Contudo, uma plataforma de produção de petróleo pode custar mais de US$ 2 bilhões e consumir até dois anos de trabalho. Uma sonda de perfuração – usada na exploração dos campos marítimos – não custa menos de US$ 1 bilhão. Um petroleiro varia de US$ 60 milhões a US$ 100 milhões, de acordo com o porte da embarcação e leva pelo menos oito meses para ficar pronto.

O professor salienta que esses números demonstram a importância da sustentabilidade de cada um desses empreendimentos, exigindo da indústria naval recursos humanos qualificados para o desenvolvimento e o gerenciamento de projetos. “Assim, construir o que foi estabelecido, dentro do prazo previsto e com a qualidade desejada se apresenta constantemente como desafio”, comentou Santos.

[/toggle_simple]

Foi realizado também o 9° Congresso Internacional Navegar, o II Seminário de Direito, Desenvolvimento Portuário e Construção Naval do Rio Grande e o Navtec 2012, este último coordenado pela Furg.

Petróleo & Energia, Indústria naval - Exploração do pré-sal coloca mais pedidos nos estaleiros do sul
Sucesso da feira garantiu nova edição, em 2013

Um dos destaques do Navtec foi a assinatura do protocolo de cooperação para a implantação do Parque Tecnológico Oceantec entre a Prefeitura de Rio Grande e a Furg. O projeto será instalado no Campus Carreiros da universidade, em área de aproximadamente cinco hectares.

O parque aposta em cinco eixos: construção naval e offshore, obras costeiras e oceânicas, biotecnologia, energia e logística – cada um deles voltado ao desenvolvimento de tecnologias e soluções para o setor. O projeto foi credenciado pelo Programa Gaúcho de Parques Científicos e Tecnológicos (PgTec), que busca incentivar a implantação e a consolidação desse tipo de investimento no Rio Grande do Sul. O centro atuará para superar os gargalos científicos, tecnológicos e de recursos humanos, de forma que apoie o desenvolvimento pleno da indústria naval e oceânica do Rio Grande do Sul, atuando em áreas como Tecnologia da Informação e Automação, e Tecnologia da Soldagem e Processos Químicos, além de identificar outras áreas que necessitem de fomento. A intenção é certificar os produtos e os processos da cadeia produtiva naval, transferir tecnologia e qualificar o setor.

O sucesso da 1ª edição da Feira do Polo Naval RS já garantiu a edição 2013 do evento. O anúncio foi feito por um dos organizadores da feira, Jayme Ramis, antes mesmo do encerramento. O anúncio foi antecipado em razão da resposta positiva por parte do público e dos empresários, muitos dos quais, aliás, já garantiram o lugar para a feira do próximo ano. “Queremos transformar o evento na principal feira do setor no Mercosul”, comentou Ramis.

Fernando Curi Estima, diretor da Bolsa Continental, que também fez parte da organização do evento, apontou que importantes temas voltados ao desenvolvimento do setor naval e seus desafios e ao desenvolvimento da região foram abordados. “O projeto inicial era colocar a Feira no calendário oficial dos eventos do setor como sendo a Feira que abre o circuito nacional. Foi um sucesso e vamos manter a proposta”, comemora Jayme Ramis, organizador do evento.

[toggle_simple title=”Enseada do paraguaçu acerta parceria” width=”Width of toggle box”]

Projeto conjunto da Odebrecht, OAS e UTC na Bahia, o Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP), em implantação no município de Maragojipe-BA, assegurou um parceiro tecnológico de peso para alavancar seus negócios na área de construção e integração de unidades offshore, como plataformas, navios especializados e unidades de perfuração.Petróleo & Energia, Indústria naval - Exploração do pré-sal coloca mais pedidos nos estaleiros do sul

Trata-se da Kawasaki Heavy Industries Ltd. (KHI), empresa japonesa que com a joint venture ganhou 30% de participação no EEP e vai garantir transferência tecnológica para o desenvolvimento da indústria naval brasileira e a capacitação de mão de obra local. A empresa japonesa já tem parcerias similares com dois estaleiros na China: Nantong Cosco KHI Ship Engineering Co., Ltd. (Nacks) e Dalian Cosco Shipbuilding Industry Co., Ltd. (Dacos).

A parceria estratégica foi fechada menos de um mês depois de o estaleiro ter assinado carta de intenção com a Sete Brasil – que vai gerenciar a frota de sondas para a Petrobras – para a construção de seis sondas de perfuração do pré-sal, no valor total de US$ 4,8 bilhões. O EEP já havia conquistado outro parceiro estratégico ao fechar contrato de licenciamento com a holandesa Gusto, que vai fornecer o projeto das sondas.

O EEP, criado em 2010, vai ser o segundo maior investimento privado na região na última década, com recursos iniciais de R$ 2 bilhões, dos quais R$ 1,7 bilhão será financiado pelo Fundo da Marinha Mercante (FMM), linha de longo prazo para o setor. O empreendimento, que terá uma área total de 1,6 milhão de m2 e capacidade para processar 36 mil toneladas de aço por ano para fabricação de diferentes tipos de embarcações, entre os quais sondas de perfuração offshore e FPSOs, está na etapa final de terraplanagem e sua conclusão está prevista para 2014. As obras civis estão a cargo do consórcio Estaleiro Paraguaçu, formado pelos mesmos acionistas do EEP. (Bia Teixeira)

[/toggle_simple]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios