Indústria naval – Com tradição no setor, estado planeja expansão

O aquecimento do setor naval demanda expansão acelerada e está ajudando a promover uma descentralização do parque produtivo. Ainda assim, o Rio de Janeiro, tradicional produtor, continua abrigando o maior parque naval do país, com 114 obras em andamento que somam quase 2,3 milhões de TPB – volume inferior apenas ao de Pernambuco, que tem 2,9 milhões de TPB em 37 projetos de grande porte, como os cascos de plataformas e navios-petroleiros.

Petróleo & Energia, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, Presidente da Firjan, Indústria naval - Com tradição no setor, estado planeja expansão
Gouvêa Vieira (esq.) assina com Bueno acordo sobre polo de navipeças

No entanto, o Rio continua à frente em empregos: estado com a maior verticalização da produção naval no país, absorve quase 50% da mão de obra empregada nessa indústria, com cerca de 28 mil trabalhadores ligados aos estaleiros fluminenses. Números que devem crescer nos próximos três anos, como informa o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira.

Em abril, durante o II Balanço do Setor Naval e Offshore do Rio de Janeiro, ele antecipou um número do estudo Decisão Rio (publicado somente no início de junho) que aponta os investimentos no estado para cada período de três anos. O estudo calculou que o setor naval vai receber pelo menos R$ 15,4 bilhões entre 2012 e 2014 – 17% acima do triênio anterior, segundo o estudo.

Com esses investimentos, a expectativa é gerar mais 11 mil empregos na instalação dos novos estaleiros e 16 mil na sua operação. “Vamos responder por 60% dos 60 mil empregos diretos do setor no Brasil, sem falar nos indiretos. Esse número vai crescer 60% nos próximos três anos”, calculou o presidente da Firjan.

Nova expansão – O que parecia inimaginável há pouco mais de uma década está acontecendo: a infraestrutura naval fluminense vai se expandir. Sem contar com a indústria náutica (barcos de passeio, iates, lanchas e similares), atualmente o parque naval do estado é integrado por onze estaleiros, que somam onze diques secos, treze carreiras e 23 cais, com uma área total de 1,6 milhão de metros quadrados. Sem contar outros 316 mil metros quadrados ocupados por quatro canteiros – MacLaren, Caximbau, Superpesa (que tem três navios na carteira de encomendas) e UTC (com uma carteira atual de cinco módulos para plataformas).

Desse total, R$ 6 bilhões vão para novos estaleiros – 37% a mais que no período anterior. “E aqui não estão incluídos ainda os investimentos na revitalização do estaleiro Inhaúma (antigo Ishibras, arrendado pela Petrobras) e também dos diversos estaleiros em Barra do Furado”, afirmou Gouvêa Vieira.

O estudo incluiu os estaleiros Aliança Offshore,em São Gonçalo, a nova unidade do grupo Aliança, que tem quatro PSVs (Platform Supply Vessel) já contratados, tendo entregado em abril deste ano o CBO Pacífico, prevendo concluir o CBO Flamengo no segundo semestre. Também abrange o estaleiro da OSX, com duas sondas na carteira de encomendas: a Unidade de Construção Naval do Açu (UCN Açu),em São Joãoda Barra, Norte Fluminense, foi iniciada em julho do ano passado e deve estar pronta até o final de 2014.

A expansão vai além do setor offshore, com a construção, pela Marinha, do Estaleiro ICN (Itaguaí Construções Navais), em Itaguaí, no litoral sul do Rio, que já tem em carteira cinco submarinos. A empreitada está a cargo do consórcio Odebrecht – DCNS (empresa francesa, que tem 75% de suas ações controladas pelo estado e 25% pela Thales, e que irá transferir tecnologia para a Marinha). O complexo servirá também como base de submarinos.

Alexandre Gurgel, diretor de política industrial da Companhia de Desenvolvimento Industrial (Codin), vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedeis) do Estado do Rio de Janeiro, confirma a expectativa de que esse volume de recursos será ainda maior. “Sem dúvida nenhuma, os investimentos são crescentes e deve haver um aumento em relação ao ano anterior”, pondera, lembrando que há uma série de investimentos já anunciados e outros tantos cujos valores não foram ainda detalhados, que devem ficar acima da previsão do Decisão Rio.

“Se considerarmos não somente as instalações de estaleiros, mas também os terminais de apoio offshore, esse número deverá crescer bastante. O Terminal Ponta Negra (TPN), por exemplo, prevê investimentos de R$ 1,5 bilhão em um estaleiro para manutenção de plataformas. Mas, considerando a área que será destinada à armazenagem de combustível, o valor total chega a R$ 5 bilhões”, contabiliza Gurgel.

Ele observa que a Petrobras não divulgou o valor total investido no Inhaúma. “Sabe-se que apenas a reforma inicial custou cerca de R$ 250 milhões”, pontua, lembrando também que o terminal portuário da Petrobras em Itaguaí ainda não foi dimensionado, mas deve receber investimentos da ordem de R$ 8 bilhões. “Há ainda o estaleiro Caneco, que deve ir a leilão, passar por reformas e voltar a operar com capacidade bem superior à atual”, agrega o executivo da Codin.

Gurgel destaca que, das empresas que têm interesse em se instalar em Barra do Furado, no município de Quissamã, a única que anunciou os investimentos foi a BR Offshore – um total de R$ 400 milhões. “Temos áreas reservadas pelo Cassinú, Eisa e STX, além das empresas Camorin e Alusa Engenharia. E ainda há espaço para a entrada de outros estaleiros especializados em reparo e construção de embarcações de apoio”, afiança.

O diretor de política industrial da Codin salienta que essa expansão contempla a necessidade do setor naval e offshore por estaleiros maiores, que tenham capacidade de construir grandes embarcações, das dimensões de novos FPSOs, os quais demandam dique seco e um canal superior a 16 ou17 metros(e sem ponte Rio-Niterói no meio do caminho).

“O estaleiro da OSX, no Porto do Açu, é um bom exemplo neste segmento. Há ainda o próprio estaleiro que a DTA quer fazer no Terminal Ponta Negra. A profundidade naquela área é bastante propícia para receber embarcações de porte elevado e com calado superior a este. E outras áreas são estudadas constantemente pela iniciativa privada”, revela.

Petróleo & Energia, Alexandre Gurgel, Diretor de política industrial da Codin, Indústria naval - Com tradição no setor, estado planeja expansão
Gurgel: novos empreendimentos querem fazer navios maiores

Além de estaleiros, o grande volume de investimentos também está atraindo outras empresas da cadeia produtiva naval, como as do setor de navipeças. “A expectativa de atração de novas empresas neste segmento é enorme. Já estamos sendo procurados por vários fornecedores. Tanto que o governo do Estado do Rio de Janeiro anunciou a criação de um polo de navipeças em Duque de Caxias, com saída para a Baía de Guanabara”, frisa Gurgel.

O memorando para a criação do polo foi assinado durante a abertura do II Balanço da Indústria Naval e Offshore. Segundo Gurgel, o projeto prevê investimentos do governo estadual de R$ 250 milhões para a compatibilização de uma área de 4 milhões de metros quadrados em Duque de Caxias, que será destinada a novas empresas. “A expectativa é que o polo atraia investimentos de R$ 1,5 bilhão e gere cerca de cinco mil empregos diretos assim que começar a ser implantado, entre 2013 e2015.”

Atento ao gargalo dos recursos humanos, que deverá se agravar com essa expansão, o governo fluminense também vem buscando alternativas para formar novos profissionais para o setor. “Essa é uma preocupação do estado e já há uma série de iniciativas com o objetivo de capacitar pessoal para atuar nos estaleiros, canteiros de obras e também nos terminais voltados para operações offshore”, assegura Gurgel.

Ele cita como exemplos os centros de capacitação criados pela Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia, e os cursos da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), todos em parceria com a Sedeis. Esta última também fez uma parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e seus Implementos (Acobar), para dar partida no Programa de Capacitação e Inovação da Indústria Náutica (PCIN), que integra o Fórum Náutico Fluminense.

“A primeira fase do programa contemplará seis meses de atividades de consultoria individual e treinamentos coletivos, com perspectivas de atender cerca de 16 empresas da cadeia produtiva náutica do Rio de Janeiro, entre estaleiros responsáveis por construção de lanchas de passeio e pesca oceânica, estaleiros especializados em reparos de embarcações náuticas e pequenas empresas do mercado de peças de reposição”, conclui Gurgel.

Desafios para navipeças – Para o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Construção Naval e Offshore (Abenav), Augusto Mendonça, o mercado está prenhe não somente de oportunidades, mas também de desafios a superar. “O principal deles é suprir a demanda por equipamentos e materiais com altos índices de conteúdo local em bases competitivas de qualidade, preço e prazo diante dos produtos importados”, salienta.

Ele destaca que é fundamental incentivar a transferência de novas tecnologias por meio de parcerias com empresas estrangeiras. “A isonomia tributária também é um fator importante para impedir a concorrência desleal com produtos estrangeiros”, agrega.

Mendonça acredita que o Brasil possui uma das maiores oportunidades no setor naval e offshore do mundo, impulsionado pela demanda por embarcações e equipamentos gerada pelos grandes investimentos da Petrobras para exploração e produção do pré-sal e por outros importantes projetos nacionais.

“Enquanto a demanda mundial está se contraindo, a demanda brasileira cresce a cada ano. A política de conteúdo local é um grande instrumento de desenvolvimento de nossa indústria e essa oportunidade deve ser aproveitada pelos empresários locais”, analisa. Segundo ele, muitas empresas estrangeiras planejam vir para o Brasil, seja para montar parque fabril, seja para fazer parcerias (joint ventures). “Isso é bom para o setor, pois traz competitividade para a indústria, obtém-se transferência de tecnologia, além de gerar emprego e renda.”

Petróleo & Energia, Indústria naval - Com tradição no setor, estado planeja expansão
Sistema de propulsão azimutal de alta performance

A indústria local tem conseguido atender a uma parcela das demandas surgidas com as encomendas da Petrobras, principalmente na área de tubos, válvulas, chapas de aço, bombas, guindastes, compressores, geradores, vasos, filtros e trocadores de calor, entre outros.

Já entre os segmentos de navipeças que enfrentam os maiores desafios, com lacunas no fornecimento, estão o de turbomáquinas, motores a gás, instrumentação e medição, sistemas navais, válvulas, telecomunicação e outros. “Especificamente para a construção de cascos, temos lacunas no suprimento de sistemas de carga, de geração, de ar comprimido, de descarga (off loading) e de instrumentação, bombas de incêndio, ancoragem, trocadores a placas, entre outros.”

Tal deficiência, na visão do dirigente da Abenav, deve ser encarada como oportunidade para os empresários brasileiros que possuem competência para realizar esse serviço, porém são fornecedores de outros setores. “Posso citar como um exemplo de sucesso em nossa indústria o fornecimento do sistema de automação de uma plataforma. A empresa nacional Altus realizará a automação das plataformas replicantes, com alto índice de conteúdo local e com inteligência brasileira”, comemora.

Ainda assim, ele defende a associação estratégica com empresas estrangeiras. “Com essas parcerias poderemos melhorar nossos processos e acelerar nossa curva de aprendizado. Toda parceria é bem-vinda, desde que haja transferência de tecnologia e que o produto seja produzido em território nacional”, ressalva Mendonça.

Uma das mais tradicionais fornecedoras de motores e propulsores para a indústria naval, a britânica Rolls-Royce também vê grandes oportunidades no mercado superaquecido, principalmente por conta da demanda prevista para os próximos anos (até 2017) de mais de 30 sondas, acima de 500 barcos de apoio e 70 plataformas, entre outras encomendas da indústria petrolífera.

Petróleo & Energia, Indústria naval - Com tradição no setor, estado planeja expansão
Fonte: SINAVAL/SEDEIS

“O nosso principal foco está nos propulsores e motores para as sondas de perfuração, além de projetos e pacotes de equipamentos para embarcações de suporte às plataformas”, destaca Ronaldo Melendez, diretor de vendas da divisão marítima da Rolls-Royce para a América do Sul. Segundo ele, as principais encomendas são para sondas de perfuração e embarcações de apoio offshore.

O executivo destaca que hoje há mais de cem embarcações de suprimento de plataformas e rebocadores de suprimento e manuseio de âncoras (AHTS – Anchor Handling Tug Supply) operando no Brasil com equipamentos da companhia. “Mais de quarenta dessas embarcações foram construídas em estaleiros brasileiros, com projetos da Rolls-Royce”, frisa Melendez.

Segundo ele, além dos FPSOs e plataformas da Petrobras, cuja energia é geradaem turbinas Rolls-Royce RB211, há mais de quinze sondas e navios de perfuração, e numerosos FPSOs e navios de transporte de petróleo (shuttle tankers) equipados com outros equipamentos fornecidos pela empresa.

Para manter sua posição de destaque nesse mercado, o grupo tem procurado inovar. “Somos uma empresa de tecnologia de ponta e sempre estamos introduzindo novidades. Algumas delas são lançadores de âncoras torpedo, guindastes móveis, propulsão azimutal de alta performance e sistema de posicionamento dinâmico”, enumera o diretor comercial.

Ele contabiliza que atualmente o mercado de óleo e gás representa 15% do faturamento da companhia no Brasil, mas a expectativa é que essa participação atinja 30% nos próximos dez anos. “Os negócios e as operações da Rolls-Royce no Brasil geram receitas anuais acima de U$ 700 milhões, que representam cerca de 4% do nosso faturamento global”, revela Melendez.

“Nos próximos dez anos, esperamos triplicar o faturamento não só aqui, mas em toda a América do Sul, e a maior parte desse crescimento resultará das explorações offshore de petróleo e gás, que revelam novas oportunidades para as nossas divisões marítima e de energia”, diz o executivo, lembrando que, com o desenvolvimento de campos do pré-sal, dúzias de novas turbinas industriais serão necessárias à Petrobras para aplicações offshore ao longo dos próximos cinco anos.

“Espera-se que essa demanda proporcione uma oportunidade para a Rolls-Royce continuar expandindo o nível de conteúdo nacional, tanto no equipamento como nos serviços que ela fornece”, destaca Melendez. A construção da fábrica de turbogeradoresem Santa Cruz-RJlevará a Rolls-Royce a aumentar significativamente a nacionalização de seus equipamentos, contribuindo também para o desenvolvimento de uma cadeia nacional de fornecedores.

 

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