Indústria naval – Bahia – Polo baiano entra na briga pelos pedidos de óleo e gás

Na Bahia, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp) já desencadeou três frentes de realizações: a reativação do estaleiro de São Roque do Paraguaçu, que pertence à própria Petrobras, onde as construtoras Odebrecht e UTC constroem consorciadas e simultaneamente duas plataformas autoeleváveis (jack up), P-59 e P-60; a construção, em curso, do estaleiro Enseada do Paraguaçu, empreendimento do consórcio Odebrecht/OAS/UTC para a produção de sondas, plataformas de todos os tipos e outras encomendas; e a implantação de quatro canteiros industriais onde serão armados os módulos de utilidades e serviços para plataformas, realização prevista no protocolo de intenções assinado em setembro pelo governo do estado com duas construtoras baianas – GDK e Belov Engenharia –, a mineira Multitek e a paulista Niplan.

Para o titular da Secretaria da Indústria Naval e Portuária da Bahia (Seinp), Roberto Benjamin, fora o importante aumento da arrecadação, a boa expectativa desses empreendimentos aponta para a criação de 15 a 16 mil postos de trabalho diretos na região do Recôncavo.

As mencionadas P-59 e P-60, em construção simultaneamente com base em contrato de aproximadamente US$ 700 milhões, assinado em setembro de 2008, são consideradas plataformas de menor porte, para perfurações em lâminas de água de até 110 metros. Ambas apresentam pernas retráteis, que possibilitarão a elevação da estrutura acima do nível do mar, e casco flutuante.

Ambas devem estar prontas no decorrer de 2012, quando passarão a operar no litoral da Bahia, prospectando gás. A Petrobras espera encontrar outras reservas em formações próximas a Manati, na Baía de Camamu, próxima à de Todos os Santos, de onde procedem os 6 milhões de m³/dia injetados no sistema de dutos da Petrobras no Nordeste. Manati é a maior reserva de gás não associado do Brasil.

São variadas as informações sobre o que ocorrerá em São Roque depois da construção das plataformas P-59 e P-60. Há rumores sobre a possibilidade de reformar nessas instalações plataformas antigas, como a Petrobras III e a XIV; ou usá-las para construir duas jaquetas para 50 mil barris/dia – ambas destinadas ao projeto definitivo do reservatório de Siri, no campo de Badejo (Bacia de Campos); ou ainda construir plataformas para os campos de Camorim e Dourados, no litoral de Sergipe.

A última plataforma construídaem São Roquedo Paraguaçu, concluída em 2004, é a gasífera Peroá-Cangoá (PPER 1), com capacidade para 5,5 milhões de m³/dia, instalada no litoral do Espírito Santo. Na sequência, ao custo de US$ 339 milhões, houve a construção do topside da importante plataforma de Rebombeio Autônoma (PRA 1), que movimenta 800 mil barris/dia na Bacia de Campos. Tambémem São Roque, foi construída a plataforma automática (operada por controle remoto) do campo de Manati.

Por causa da reativação de São Roque do Paraguaçu, que foi inaugurado em 1977, a Petrobras construiu no seu entorno um conjunto de casas para 200 famílias e um alojamento para mil trabalhadores. Outras instalações, também recentes, incluem auditório, laboratório, salas de aula etc. Nessas instalações, por meio de uma parceria entre o Prominp e o Senai-BA, estão sendo capacitados mais de mil moradores, pessoas dos velhos municípios do Recôncavo, como Maragojipe – onde fica o distrito de São Roque do Paraguaçu –, Cachoeira, São Félix, Santo Amaro e Nazaré. São todos municípios do lado mais empobrecido do Recôncavo, onde a Companhia das Índias Ocidentais implantou a economia canavieira e a produção do açúcar. Os trabalhadores estão passando de pescadores ou agricultores para soldadores, caldeireiros, mecânicos, pintores, lixadores e encanadores.

Situado às margens do Paraguaçu, perto da foz na Baía de Todos os Santos, esse estaleiro oferece águas tranquilas, calado natural em torno de 10 metros e uma localização muito valorizada – o ponto central entre os extremos norte e sul do litoral brasileiro. Em frente, está sendo construído outro estaleiro, o Enseada do Paraguaçu.

Petróleo & Energia, Roberto Banjamin, Titular da Seinp, Indústria naval - Bahia - Polo baiano entra na briga pelos pedidos de óleo e gás
Benjamin: estaleiro cria empregos no Recôncavo

Licitação – O Enseada do Paraguaçu, estaleiro projetado pelo consórcio Odebrecht/OAS/UTC, ficou em quinto lugar na recente licitação para a construção de sete navios-sondas para o pré-sal, entre sete concorrentes – resultado anunciado em fevereiro. A proposta que apresentou – US$ 5,3 bilhões – excedeu em US$ 700 milhões a do estaleiro vencedor, o pernambucano Atlântico Sul, que se conformou em pedir US$ 4,6 bilhões.

Analistas jurídicos e financeiros acreditam que a Petrobras está inclinada a negociar a redução dos valores apresentados pelos sete grupos que disputaram a licitação para valores próximos do apresentado pelo primeiro colocado – e então fatiar a construção dos navios restantes com todos os concorrentes da licitação.

A confirmação dessa possibilidade, que certamente ensejaria a aceleração das obras de construção do estaleiro, como acredita o governo do estado, está sendo ansiosamente esperada na Bahia. O diretor superintendente da Odebrecht Engenharia Industrial, Fernando Barbosa, revelou que no ambiente do consórcio liderado por sua empresa a expectativa é de que a Petrobras continue dando prosseguimento ao processo licitatório para a contratação dos restantes 21 navios-sondas, “em lotes de até sete navios-sondas”.

A concessão da licença prévia para a implantação do estaleiro, aprovada a tempo de possibilitar a participação na licitação, foi encaminhada aos órgãos ambientais pelo próprio governo da Bahia, por meio de uma autarquia da Secretaria da Indústria, Comércio e Mineração. O projeto básico está concluído e o começo das obras civis previsto para o segundo semestre deste ano. O prazo, acordado com o governo, é de dois anos.

Até meados de 2009 estava em curso a construção de três estaleiros, empreendidos isoladamente pelas empresas que se uniram no consórcio Odebrecht/OAS/ UTC, embora uma delas, a OAS, estivesse associada à Setal Engenharia. A convergência dos três projetos para um único foi sugerida pelo governo da Bahia, alegando que assim o licenciamento ambiental seria facilitado.

Entre o consórcio formado pelas três empresas e o governo baiano foi assinado um termo de compromisso que, além da concessão dos incentivos fiscais, delegou ao governo responsabilidades como aprovar o licenciamento ambiental e assegurar melhoria da infraestruturaem São Roque(estradas e suprimentos de energia elétrica e água). O consórcio deve se preocupar, unicamente, em executar as obras do estaleiro.

Para o governo, o licenciamento obtido em menos de um ano é um “importante passo para o estado receber o segundo maior estaleiro a ser construído no Brasil”. O primeiro seria justamente o vencedor da primeira etapa da grande licitação dos 28 navios-sondas, o Atlântico Sul, que além de plataformas produz navios transportadores para a Transpetro (com até 500 mil toneladas de porte bruto (TPB) e outras encomendas, a exemplo do casco da plataforma P-55, da Petrobras, que será construída pela conversão de um navio de 346 metros para explorar óleo e gás no campo de Marlim Leste (Bacia de Campos), sob lâmina d’água de 1.080 m.

A declarada capacidade de processamento do Atlântico Sul, baseada em Pernambuco é de 160 mil t/ ano de aço – 90 mil t a mais do que a do concorrente que está se instalando na Bahia; para tanto, conta com o dique seco com400 metrosde extensão, 73 de boca e 12 de profundidade, dimensões que possibilitam a produção de navios de até 500 mil toneladas de porte bruto (TPB). O projeto do Enseada do Paraguaçu prevê um dique menor – 245 x 85 x 14 –, “com possibilidade de expansão futura”, acenou Fernando Barbosa.

O executivo explica que além de navios-sondas, o Enseada do Paraguaçu aceitará encomendas “para integração de FPSO/topsides, FPSO, plataformas semissubmersíveis, plataformas fixas, jack ups, navios transportadores de gás e embarcações de apoio às plataformas offshore de alta complexidade”.

Em meio a uma persistente escassez de grandes investimentos industriais no Recôncavo e de preocupantes sinais de desindustrialização na petroquímica – situação contrastante com a de Pernambuco e seu distrito industrial de Suape –, o projeto Enseada do Paraguaçu, de anunciados R$ 2 bilhões de investimento e 8 mil postos de trabalho, mereceu no ano passado as referências mais retumbantes das autoridades locais. “É um dos maiores investimentos estruturantes para a economia baiana dos últimos trinta anos”, bradou o secretário Roberto Benjamin.

Módulos – Para a Seinp, criada precisamente para gerar e dar andamento ao polo naval, a instalação dos quatro canteiros de obras implica investir R$ 200 milhões em infraestrutura – terraplenagem, dragagem, construção do cais, oficinas e equipamentos como pontes rolantes e guindastes para manuseio de cargas e peças de até 1,6 mil t. A Seinp promete também atuar como intermediadora para agilizar o licenciamento ambiental, e a capacitação dos previstos 5 mil trabalhadores. Os quatro canteiros ficarão prontos no segundo semestre deste ano, prevê Benjamin.

Os quatro canteiros, para a montagem de módulos, ficarão na Baía de Aratu, uma baía menor encravada na de Todos os Santos, em áreas utilizadas com o mesmo propósito na fase pioneira da Bacia de Campos. “A intenção é reativar essas áreas e também prepará-las para exigências bem maiores”, esclareceu o assessor especial do governo do estado, Adari Oliveira. Nessa baía menor há vários estaleiros de pequeno porte e também o estaleiro da Marinha com seu dique seco, na própria Base Naval de Aratu.

Cada canteiro, com 100 mil m², em média, deverá montar até 12 módulos de utilidades e serviços por ano, a serem instalados nas 40 plataformas encomendadas e a serem encomendadas pela Petrobras – 12 no exterior e 28 no Brasil. As quatro empresas disputarão as licitações referentes aos módulos, os componentes das plataformas que mais agregam valor.

Na assinatura do protocolo de intenções com o governo da Bahia, Samuel Barbosa, representante da GDK, uma das empresas convidadas para produzir os módulos, enfatizou que o estado está restaurando uma realidade da década de 80. “A intenção é reativar essas áreas.” Referindo-se à GDK, uma das empresas que produziram módulos na Baía de Aratu, lembrou: “Somos pioneiros na construção de plataformas de concreto e aço.”

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