Indústria nacional procura caminhos para recuperar vendas e reestruturar produção

“O Brasil voltará a importar equipamentos industriais diversos que já fabricou aqui, porque a tecnologia de produtos evolui muito depressa e os compradores querem qualidade cada vez maior, tudo isso requer investimentos e, sem eles, não se terá competitividade”, avaliou. “Não adianta brigar com os chineses, eles dominarão os produtos mais commoditizados”, disse. Uma possibilidade para a indústria local desse tipo de válvulas seria importar componentes e montar aqui, muito embora fabricantes globais (chineses também) estejam se instalando no país para fazer isso.

No caso das válvulas engenheiradas, Hube aponta outra dificuldade. “Os dez maiores players globais desses produtos têm faturamento individual acima de US$ 1 bilhão por ano, é difícil brigar com eles”, disse. Em geral, os grandes clientes preferem negociar com grandes fornecedores, fabricantes ou distribuidores.

Hube também observa que a elevação dos salários na China está começando a provocar a emigração da produção de válvulas e componentes para países com salários baixos, como a Índia. “O Brasil precisa fazer parte do mercado global, não adianta exigir vantagens protecionistas de financiamento, nem criar normas particulares para impedir a entrada de importados”, criticou. Nesse último caso, a indústria local fica restrita à norma particular e perde oportunidades no exterior.

Petróleo & Energia, Marchina: indústria local sabe produzir, mas falta eficiência
Marchina: indústria local sabe produzir, mas falta eficiência

Integração global – A indústria de válvulas precisa se integrar às cadeias produtivas mundiais. “Dou o exemplo da Embraer, que fabrica aviões com peças e partes importadas de vários lugares do mundo e exportar quase 95% da produção”, apontou Antonio Marchina, fundador da Capolavori, empresa especializada em procurar e adquirir itens complexos para indústrias, como válvulas, bombas, flanges, sistemas de proteção contra incêndio e outros.

Com larga experiência no ramo, Marchina acabou de se desligar do fabricante Triple M para avançar com a empresa própria, fundada em 2015. “Com a saída do Brasil de vários fornecedores internacionais e o fechamento de outros, ficou difícil encontrar peças sobressalentes e itens de reposição, aproveitamos para suprir essa lacuna”, informou.

Ele aponta a necessidade de entender melhor o setor para encontrar saídas mais efetivas da crise. “O mercado nacional está ruim e é preciso entender que, em âmbito global, os fornecedores importantes mão são mais os fabricantes de válvulas, mas os grandes distribuidores, que têm capital para manter estoques e comercializar os produtos com agilidade”, disse.

Segundo o especialista, o mercado local ficou muito deprimido com o encolhimento das compras da Petrobras, mas também com a queda de investimentos em compradores importantes de açúcar e álcool, papel e celulose e da indústria química. “Mesmo nos anos bons, a demanda por válvulas no Brasil sempre foi pequena, perto de US$ 2 bilhões por ano, considerando todos os tipos, enquanto o mercado global chega a US$ 70 bilhões/ano”, salientou. “A Petrobras é 80% do mercado local, quando ela reduz compras, o setor entra em colapso.” A China supre 70% dos pedidos de válvulas do mundo.

Além disso, segundo Marchina, a demanda da estatal do petróleo supera a capacidade produtiva local. “Somadas, as capacidades de todos os fornecedores locais cadastrados pela Petrobras não atenderiam a 20% das compras dessa companhia”, calculou. Na atual situação de recuperação financeira, a estatal mudou seus regimes de contratação, passando a contratar sondas e plataformas por leasing. Essa modalidade é menos exigente em conteúdo local até que os contratos via EPC realizados até então.

Isso não quer dizer que o Brasil deva parar de fabricar esses equipamentos. “A indústria nacional sabe fazer válvulas, só precisa ganhar escala e ser mais eficiente”, considerou. “É possível alcançar bons resultados importando alguns componentes e montando as peças aqui.”

A crise foi profunda, com efeitos dramáticos. Marchina estima em 15 anos o retrocesso do setor. “Será preciso recomeçar do zero, importando componentes para depois ir fabricando os fundidos, os discos, as vedações e daí por diante”, considerou. A queda da produção de válvulas se refletiu na cadeia produtiva, eliminando fornecedores menos capitalizados. “Até os parafusos voltaram a ser importados”, afirmou, lembrando que a Alemanha e a Itália são grandes exportadores de válvulas que adquirem componentes no mercado global.

Marchina aponta como diferencial da indústria brasileira a flexibilidade para adaptação de produtos, com boa engenharia disponível. “Ninguém é bom em tudo, a China só tem vantagem grande em peças de aço carbono, não trabalha bem com borrachas e nem com aço inox”, comentou. “Podemos ser competitivos nesses itens, adicionando-os durante a montagem.”

Marchina considera um erro o país ter criado normas muito particulares (por exemplo, da Petrobras) que acabaram sendo consideradas como barreiras não tarifárias. “Japão, Rússia e Israel são grandes compradores de vários produtos brasileiros e ficaram descontentes com isso, enquanto as chinesas se adaptaram rapidamente à norma, que se mostrou pouco eficiente”, disse. O resultado dessa reserva é que a estatal paga mais caro pelos itens que adquire. “A Petrobras deveria exigir normais de caráter geral, quem se certificasse nelas poderia fornecer”, recomendou.

No caso das válvulas mais especializadas, como as de controle, a situação competitiva do Brasil está mais complicada ainda. “Esse segmento de mercado está nas mãos de companhias internacionais de grande porte, atuadores e posicionadores são todos importados, mas dá para fazer os tipos mais simples aqui”, complementou.

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