Indústria nacional procura caminhos para recuperar vendas e reestruturar produção

Petróleo & Energia, Válvula de esfera para setor de óleo e gás, da KSB
Válvula de esfera para setor de óleo e gás, da KSB

A crise econômica de 2014-17 fez um grande estrago na indústria brasileira de válvulas industriais. O impacto do corte de desembolsos da Petrobras – a maior cliente do setor – resultou em falências, fusões e na extinção de fabricantes, reduzindo o setor a uma fração do que era até 2013.

Petróleo & Energia, Garcia: setor está sob risco de ampla desnacionalização
Garcia: setor está sob risco de ampla desnacionalização

É verdade que já se afirmava há alguns anos a necessidade de reformular o panorama da indústria de válvulas, povoado por muitas empresas, das quais várias de pequeno porte, com pouca sobra de caixa para absorver dificuldades sazonais ou investir em projetos de modernização. Só não foi possível prever a extensão e a profundidade desta crise, instalada de forma abrupta.

“As empresas participantes da Comissão Setorial de Válvulas Industriais (CSVI) da Abimaq estão operando com 60% do volume anual que era negociado até 2013”, informou Rodolfo Garcia, presidente da CSVI e diretor da Thermoval, fabricante especializada em válvulas solenoide. Como salientou, os investimentos das estatais estão quase parados, e isso se reflete diretamente na venda de válvulas novas. “Ainda há algum mercado de reposição e também de manutenção, mas a concorrência ficou mais acirrada.”

Além das estatais, as indústrias privadas também reduziram seus planos de aumento de capacidades no Brasil. “Há um clima de falta de confiança na economia nacional, ninguém sabe o que vai acontecer, isso afeta os negócios”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Garcia observa que a recuperação paulatina da economia trará de volta as encomendas, porém os fabricantes locais devem estar preparados. “Muitas empresas nacionais foram vendidas para concorrentes multinacionais, há um risco de desnacionalização do setor”, adverte. Para as companhias internacionais, pode ser mais interessante importar as válvulas completas ou a maior parte de seus componentes, deixando apenas a montagem para ser feita no país. A CSVI contava com 65 empresas associadas, agora está com 53.

A exigência de conteúdo fabricado no país para a concessão de créditos do BNDES e para benefícios tributários é apontada como boa alternativa para incentivar o setor. “O custo Brasil pesa muito contra o fabricante local, tira a sua competitividade”, afirmou Garcia. “O subsídio implícito do BNDES é de 6%, mas nós pagamos de impostos quase 40% do valor de cada peça.”

O presidente da CSVI ressalta que algumas empresas nacionais se prepararam e estão aptas para competir não só no Brasil, mas também no exterior. A própria Thermoval fez um trabalho forte de reestruturação nos últimos três anos, aumentando a verticalização para reduzir a incidência em cascata de impostos. “Conseguimos uma posição muito forte em solenoides, respondemos por 70% da fabricação local, mas só temos 20% desse mercado, pois a presença de importados é grande”, disse, garantido ser competitivo até em relação aos fornecedores asiáticos.

“Não acreditamos em protecionismo, mas em redução de custos e aumento de eficiência, mas pedimos isonomia em relação aos importados, que pagam menos impostos”, explicou. A Thermoval, por exemplo, está adaptada aos conceitos de Indústria 4.0, com automação da produção e integração das operações internas. “Desde a colocação do pedido até a entrega, tudo é controlado pelo sistema informatizado, aliás, nossos clientes já estão trabalhando nesse sistema também.” Mesmo assim, a empresa está contratando funcionários. “Nesses três anos, nosso quadro de pessoal foi duplicado”, comentou.

Além disso, Garcia ressalta que as válvulas estão a cada dia ficando mais inteligentes, recebendo atuadores e sistemas de comunicação de rede, mesmo nos modelos mais simples. Isso exige atualização tecnológica e adaptação dos produtos existentes.

Retorno possível – O quadro atual é assustador, mas não deve significar o fim da fabricação nacional de válvulas industriais. “O Brasil é um grande consumidor desses equipamentos e a importação precisa conviver com a instabilidade cambial, que é uma vulnerabilidade importante”, considerou Bruno Pellicani, gerente comercial de válvulas da KSB, sobre a possibilidade de a demanda local ser atendida exclusivamente por produtos importados.

A empresa de origem alemã reestruturou sua atividade em válvulas para fazer frente ao quadro ruim de mercado. “Éramos um empresa independente, agora somos uma divisão da KSB Bombas, nossa fábrica de Jundiaí-SP passou a abrigar também a linha de produção de bombas seriadas da companhia, até porque estávamos com elevada ociosidade”, explicou. Isso permitiu eliminar departamentos redundantes, especialmente na área administrativa, e reduzir custos.

A KSB montou há cinco anos a sua fábrica de válvulas, segmento no qual ingressou no país mediante a compra da IVC, com foco na demanda do setor de óleo e gás por produtos engenheirados de alta qualidade e confiabilidade, fabricados sob encomenda. “Temos uma linha extensa de válvulas fabricadas em outras unidades do grupo, até mesmo para a indústria nuclear; as usinas de Angra dos Reis-RJ têm válvulas KSB alemãs, por exemplo”, informou.

Comparando os dois segmentos de atuação da companhia, Pellicani ressalta as diferenças construtivas entre os equipamentos. “Bombas são mais complexas e mais críticas para os processos, os clientes olham mais para a qualidade do que para o preço”, disse. As válvulas, por sua vez, são vistas com menos cuidado. Os compradores admitem a possibilidade de trocar várias vezes o equipamento em vez de preferir uma peça mais cara e mais durável.

No setor de óleo e gás, Pellicani comentou que a Petrobras reduziu as compras de equipamentos e passou a investir mais em serviços de manutenção e recuperação de válvulas. “Temos um contrato de manutenção com eles que está para ser relicitado, apenas em Macaé-RJ há um estoque de 8 mil válvulas de vários tipos para recuperação”, disse. “A concorrência será pesada”, prevê.

Nos equipamentos novos, existe a possibilidade de participar do fornecimento para a unidade de processamento de gás natural (UPGN) do Comperj, talvez o único projeto relevante dessa área neste ano. “Isso se o pedido ficar com empresas nacionais.”

Na opinião do especialista, com várias décadas de trabalho no setor, a indústria brasileira de válvulas regrediu 10 anos nessa crise. “Sem perspectivas de grandes encomendas, ninguém investe nem no produto, nem no processo de produção, isso é ruim”, lamentou. De 2013 para cá, a área de válvulas da KSB registrou redução de 50% de faturamento.

Petróleo & Energia, Hube: foco nos produtos que geram valor para os clientes
Hube: foco nos produtos que geram valor para os clientes

Aqui e no exterior – “A crise serviu para evidenciar a falta de competitividade da produção no Brasil, como já se sabia há anos”, afirmou Alejandro Hube, presidente da Durcon, fabricante nacional de válvulas que também opera uma unidade de produção nos Estados Unidos. Atualmente, o faturamento da empresa, contando a subsidiária americana, divide-se em partes iguais entre mercado interno e externo.

Embora venha há vários anos se concentrando em produtos altamente especializados, a Durcon sofreu com a retração econômica do Brasil. Fechou duas de suas três unidades fabris no país (a fundição e a linha de válvulas seriadas), demitiu vários funcionários, reorganizou a empresa e adequou-se ao novo nível de atividade. “Agora estamos bem, mas foi difícil”, afirmou.

Hube observa que a economia mundial está crescendo forte, em 3,5% ao ano, enquanto o Brasil derrapa para recuperar sua atividade produtiva. “Os árabes e a Ásia estão tocando projetos gigantescos de saneamento básico, os produtos brasileiros poderiam aproveitar essa oportunidade, mas somos praticamente invisíveis no radar dos compradores”, disse. Ele participa dos encontros mundiais do setor, buscando oportunidades, usando um agente comercial da Suíça para exportações.

“As compradoras estrangeiras fazem exigências ainda mais duras que as da Petrobras, as petroleiras, como a Shell, e epecistas, como a GE e a Fluor, tem normas próprias, além das usuais, como a API”, ressaltou Hube. Para ele, a Petrobras foi uma grande escola que preparou os fabricantes nacionais.

A Durcon exporta válvulas para a Europa, Estados Unidos, México, Canadá e Ásia, além de estar abrindo mercados no Oriente Médio. Na América Latina, exporta seus produtos como suprimentos OEM de caldeiras de vapor e peças de reposição para esses produtos. “Atuamos sempre mediante traders e distribuidores internacionais”, explicou.

Entre as válvulas fabricadas pela empresa, Hube destaca as condicionadoras de vapor, as protetoras de turbinas e as de proteção de bombas centrífugas. “São equipamentos que agregam valor ao cliente, seja pelo aumento da vida útil do equipamento, seja pelo aumento da sua disponibilidade ou redução de custos de manutenção”, disse. Além desses, também são fabricadas há 15 anos as válvulas borboletas triexcêntricas com vedação metal/metal, até 60 polegadas de diâmetro, contando com grande base instalada. “A Petrobras trocou as esferas de grandes dimensões, que eram muito pesadas, pelas triexcêntricas nas suas plataformas”, comentou.

Hube entende como fundamental que as empresas nacionais adotem os conceitos 4.0. Porém, dada a extensão da crise econômica e seus efeitos sobre o setor, ele não acredita que a indústria local tenha capacidade financeira para promover os investimentos necessários.

Da mesma forma, o perfil setorial antes de 2013 não mais se justifica, segundo Hube. “O mercado gigante que existia no Brasil até 2013 era irreal e acabou, não há mais a profusão de grandes projetos de investimento, só reposição e recuperação de válvulas”, disse. E a exportação exige escala e preços distantes da realidade local.

“O Brasil voltará a importar equipamentos industriais diversos que já fabricou aqui, porque a tecnologia de produtos evolui muito depressa e os compradores querem qualidade cada vez maior, tudo isso requer investimentos e, sem eles, não se terá competitividade”, avaliou. “Não adianta brigar com os chineses, eles dominarão os produtos mais commoditizados”, disse. Uma possibilidade para a indústria local desse tipo de válvulas seria importar componentes e montar aqui, muito embora fabricantes globais (chineses também) estejam se instalando no país para fazer isso.

No caso das válvulas engenheiradas, Hube aponta outra dificuldade. “Os dez maiores players globais desses produtos têm faturamento individual acima de US$ 1 bilhão por ano, é difícil brigar com eles”, disse. Em geral, os grandes clientes preferem negociar com grandes fornecedores, fabricantes ou distribuidores.

Hube também observa que a elevação dos salários na China está começando a provocar a emigração da produção de válvulas e componentes para países com salários baixos, como a Índia. “O Brasil precisa fazer parte do mercado global, não adianta exigir vantagens protecionistas de financiamento, nem criar normas particulares para impedir a entrada de importados”, criticou. Nesse último caso, a indústria local fica restrita à norma particular e perde oportunidades no exterior.

Petróleo & Energia, Marchina: indústria local sabe produzir, mas falta eficiência
Marchina: indústria local sabe produzir, mas falta eficiência

Integração global – A indústria de válvulas precisa se integrar às cadeias produtivas mundiais. “Dou o exemplo da Embraer, que fabrica aviões com peças e partes importadas de vários lugares do mundo e exportar quase 95% da produção”, apontou Antonio Marchina, fundador da Capolavori, empresa especializada em procurar e adquirir itens complexos para indústrias, como válvulas, bombas, flanges, sistemas de proteção contra incêndio e outros.

Com larga experiência no ramo, Marchina acabou de se desligar do fabricante Triple M para avançar com a empresa própria, fundada em 2015. “Com a saída do Brasil de vários fornecedores internacionais e o fechamento de outros, ficou difícil encontrar peças sobressalentes e itens de reposição, aproveitamos para suprir essa lacuna”, informou.

Ele aponta a necessidade de entender melhor o setor para encontrar saídas mais efetivas da crise. “O mercado nacional está ruim e é preciso entender que, em âmbito global, os fornecedores importantes mão são mais os fabricantes de válvulas, mas os grandes distribuidores, que têm capital para manter estoques e comercializar os produtos com agilidade”, disse.

Segundo o especialista, o mercado local ficou muito deprimido com o encolhimento das compras da Petrobras, mas também com a queda de investimentos em compradores importantes de açúcar e álcool, papel e celulose e da indústria química. “Mesmo nos anos bons, a demanda por válvulas no Brasil sempre foi pequena, perto de US$ 2 bilhões por ano, considerando todos os tipos, enquanto o mercado global chega a US$ 70 bilhões/ano”, salientou. “A Petrobras é 80% do mercado local, quando ela reduz compras, o setor entra em colapso.” A China supre 70% dos pedidos de válvulas do mundo.

Além disso, segundo Marchina, a demanda da estatal do petróleo supera a capacidade produtiva local. “Somadas, as capacidades de todos os fornecedores locais cadastrados pela Petrobras não atenderiam a 20% das compras dessa companhia”, calculou. Na atual situação de recuperação financeira, a estatal mudou seus regimes de contratação, passando a contratar sondas e plataformas por leasing. Essa modalidade é menos exigente em conteúdo local até que os contratos via EPC realizados até então.

Isso não quer dizer que o Brasil deva parar de fabricar esses equipamentos. “A indústria nacional sabe fazer válvulas, só precisa ganhar escala e ser mais eficiente”, considerou. “É possível alcançar bons resultados importando alguns componentes e montando as peças aqui.”

A crise foi profunda, com efeitos dramáticos. Marchina estima em 15 anos o retrocesso do setor. “Será preciso recomeçar do zero, importando componentes para depois ir fabricando os fundidos, os discos, as vedações e daí por diante”, considerou. A queda da produção de válvulas se refletiu na cadeia produtiva, eliminando fornecedores menos capitalizados. “Até os parafusos voltaram a ser importados”, afirmou, lembrando que a Alemanha e a Itália são grandes exportadores de válvulas que adquirem componentes no mercado global.

Marchina aponta como diferencial da indústria brasileira a flexibilidade para adaptação de produtos, com boa engenharia disponível. “Ninguém é bom em tudo, a China só tem vantagem grande em peças de aço carbono, não trabalha bem com borrachas e nem com aço inox”, comentou. “Podemos ser competitivos nesses itens, adicionando-os durante a montagem.”

Marchina considera um erro o país ter criado normas muito particulares (por exemplo, da Petrobras) que acabaram sendo consideradas como barreiras não tarifárias. “Japão, Rússia e Israel são grandes compradores de vários produtos brasileiros e ficaram descontentes com isso, enquanto as chinesas se adaptaram rapidamente à norma, que se mostrou pouco eficiente”, disse. O resultado dessa reserva é que a estatal paga mais caro pelos itens que adquire. “A Petrobras deveria exigir normais de caráter geral, quem se certificasse nelas poderia fornecer”, recomendou.

No caso das válvulas mais especializadas, como as de controle, a situação competitiva do Brasil está mais complicada ainda. “Esse segmento de mercado está nas mãos de companhias internacionais de grande porte, atuadores e posicionadores são todos importados, mas dá para fazer os tipos mais simples aqui”, complementou.

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