Energia Elétrica

Geração: Fontes distribuídas aumentam a confiabilidade do sistema, mas têm obstáculos a superar

Marcelo Fairbanks
24 de junho de 2013
    -(reset)+

    Petróleo & Energia, Geração de Energia, No exterior, motores a gás e a diesel suprem grandes consumidores

    No exterior, motores a gás e a diesel suprem grandes consumidores

    O Brasil passou a contar com maior número de iniciativas de geração elétrica distribuída nos últimos anos, aproveitando especialmente as fontes eólicas e de biomassa. Existem, porém, alternativas pouco mencionadas nos planos oficiais, como a cogeração e a geração elétricas, instaladas em grandes consumidores de energia, mediante a queima de gás natural.

    A matriz de energia nacional conta com grande participação da energia de origem hidráulica. No entanto, a capacidade de atender à demanda em fase de rápida expansão tem dado sinais inequívocos da necessidade de complementos. As distâncias entre as áreas de geração e as de consumo são grandes e estão aumentando, basta verificar que as usinas hidrelétricas de grande porte, atualmente em obras, situam-se na região amazônica (Santo Antônio, Jirau e Belo Monte), o que exige a construção de linhas de transmissão de complexidade e custos proporcionais.

    Nessas circunstâncias, gerar eletricidade para suprir demandas isoladas e ainda disponibilizar algum excedente para oferecer à rede é uma alternativa interessante. O gás natural é fácil de transportar e possui uma boa imagem ambiental. Equipamentos para converter a energia contida no gás em eletricidade (e calor, em cogeração) estão disponíveis, tanto as turbinas quanto os motores de combustão interna.

    Petróleo & Energia, Ildo Sauer, IEE, Petrobras, gás natural não deve ser um coringa da água e do vento

    Sauer: gás natural não deve ser um coringa da água e do vento

    Mesmo sabendo que essa alternativa já foi adotada há anos em vários países, a exemplo de Itália, Portugal e Espanha, o Brasil a utiliza muito pouco, ou quase nada. Para entender por que esse potencial é pouco aproveitado no país, o Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP, novo nome do conhecido Instituto de Eletrotécnica e Energia) desenvolve um projeto de pesquisa intitulado “Geração distribuída e cogeração com gás natural: barreiras tecnológicas e institucionais”, com o apoio da distribuidora Comgás e da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp). O projeto é coordenado pelo professor doutor Ildo Sauer, diretor do IEE e ex-diretor de gás e energia da Petrobras.

    “A Comgás já tem a percepção de que essa é uma oportunidade que está sendo desperdiçada de usar o gás natural de forma eficiente”, comentou Sauer. Para ele, a atual estratégia do governo federal de manter uma estrutura de energia de reserva apenas para o período seco do ano é inviável, tanto assim que o parque gerador termelétrico foi totalmente acionado durante o último período chuvoso (de outubro de 2012 a abril de 2013) para garantir o abastecimento de eletricidade, embora com alguns sustos. “O governo gastou um bilhão de reais por mês para suprir a falta de água e de vento por erro de planejamento”, criticou.

    Na estrutura atual, o gás natural assumiu o papel de remendo na matriz hidrelétrica. A principal produtora, a Petrobras, alega não dispor de mais gás para vender em contratos firmes, por ser obrigada a reservar um volume elevado para suprimento eventual das usinas térmicas (reserva). Clientes industriais olham com desconfiança para um combustível suprido em regime intermitente. “O gás natural é inteligente quando substitui o petróleo, não é para ser um coringa para água e vento, é um desserviço econômico ao país”, afirmou. Ele defendeu que o gás precisa ter uma logística bem desenhada e usos racionais, que respeitem as leis da termodinâmica.

    Sauer admite que, no passado, a geração distribuída não era eficiente. O IEE acompanha esse desenvolvimento há décadas – tem a primeira unidade de geração com painéis solares registrada na Aneel. “O Brasil adotou uma regulamentação rígida, tem custos elevados e riscos artificialmente altos, ou seja, o risco global da atividade de geração é baixo, mas é muito alto para relacionamentos individuais, entre gerador e rede, por exemplo”, explicou. Essa situação desestimulou investimentos.

    “Atualmente, a estrutura tarifária foi remodelada e os juros para financiamento de projetos se tornaram mais adequados, e a geração distribuída e a cogeração ganharam algum apoio”, considerou. “O Brasil tem recursos naturais, humanos e tecnológicos, mas o sistema energético está sob risco.”



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *