Fenasucro: Sinais de recuperação do setor de açucar e etanol agitam a cadeia produtiva

Petróleo & Energia, Edição de 2012 reuniu público, apesar da crise
Edição de 2012 reuniu público, apesar da crise

Programada para 27 a 30 de agosto, a 21ª Fenasucro (Feira Internacional de Tecnologia Sucroenergética) acontecerá em um momento crucial para o setor. Afinal, depois de um longo período de graves dificuldades iniciado com a crise global de 2008 – que contrastou muito intensamente com a euforia vivida nos primeiros anos deste século, quando o então presidente Lula até imaginava o Brasil como uma “Arábia Saudita do biocombustível” –, a indústria da cana-de-açúcar parece agora apresentar sinais de possível retomada dos investimentos e de expansão simultânea dos negócios.

Os sinais ainda são insuficientes para indicar uma recuperação sólida e duradoura, especialmente por não haver hoje nenhuma garantia de consolidação do etanol, fundamental para essa indústria, como substituto economicamente viável para a gasolina (em algumas regiões brasileiras até voltou a haver essa concorrência, porém ela não é ainda generalizada por todo o país, nem se sabe por quanto tempo ela perdurará).

Além disso, os investimentos por enquanto se concentram na etapa agrícola dessa atividade, e não há certeza de destinação de quantidade compatível de recursos para sua vertente industrial, dedicada ao processamento dessa matéria-prima.

Petróleo& Energia, Antonio Eduardo Tonielo Filho: setor investiu R$ 8 bi para renovar e ampliar canaviais
Tonielo: setor investiu R$ 8 bi para renovar e ampliar canaviais

Mas, embora com perspectivas ainda tênues e horizontes pouco definidos, essa atual conjuntura parece injetar algum ânimo nos integrantes do mercado ao qual se dedica a Fenasucro. Caso de Antonio Eduardo Tonielo Filho, presidente do Ceise Br (Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis), entidade – localizada no município de Sertãozinho, cidade sede do evento – que congrega fornecedores de produtos e serviços destinados a esse setor.

Este ano, prevê Tonielo, a Fenasucro gerará negócios estimados em aproximadamente R$ 2,2 bilhões e isso representará uma expansão de 10% em relação àqueles realizados na edição anterior. A indústria fundamentada na cana-de-açúcar, ele argumenta, retomará investimentos, até porque este ano ela ocupará quase que integralmente sua capacidade de produção.

Nos últimos dois anos, relata o presidente do Ceise Br, houve no Brasil investimentos de aproximadamente R$ 8 bilhões na renovação e ampliação de canaviais sem ter havido simultâneo investimento na estrutura de processamento dessa matéria-prima. Resultado: “Neste ano, dependendo das condições climáticas, nem será possível moer toda a safra, sobrará cana em pé”, calcula.

E, assim como se amplia a safra da cana, crescerão também os números referentes aos participantes da Fenasucro, como acredita Fernando Barbosa, diretor desse evento na organizadora Reed Multiplus. Essa expansão, ele ressalva, não terá números muito significativos, ficando próxima a 4% (ver box com mais informações). “Pensando no atual momento da economia e da indústria sucroenergética, estamos satisfeitos com esse resultado”, ressalta Barbosa. “A Fenasucro existe há 21 anos e, nesse período, nós já passamos por momentos até mais difíceis que o atual; agora, esse setor começa a pensar em retomada de investimentos”, observa.

Gargalo na indústria – Será significativamente maior este ano, afiançam as projeções da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), o volume de cana moído na região Centro-Sul, responsável por aproximadamente 90% da produção dessa indústria no Brasil, comparativamente àquele referente à safra 2012/13. Mesmo na safra anterior, aliás, já havia crescido a quantidade de cana processada, revertendo-se então em um movimento de acentuada queda de produção (ver Tabela 1). No auge dessa queda, a falta de matéria-prima resultou em usinas trabalhando com grande capacidade ociosa.

Contribuíram para o retorno do investimento no plantio de cana ações como o programa do governo federal Prorenova, que este ano disponibilizou, a juros comportados, mais de R$ 4 bilhões para expansão e renovação de canaviais. Além disso, diz Sérgio Prado, coordenador de comunicação regional em Ribeirão Preto-SP da Unica, “o setor tem necessidade de voltar a investir, até para manter a lavoura existente”. Mas as dificuldades dos últimos anos deixaram marcas profundas. Diminuiu, conta Prado, a produtividade das lavouras de cana e, de 2011 para cá, 39 usinas encerraram suas atividades. “Dificilmente elas voltarão a operar”, prevê.

Petróleo & Energia, Evolução dos preços do Etanol em São PauloEssa redução da quantidade de usinas contribuiu para que, com o aumento na safra deste ano, venha a ser quase integralmente ocupada a capacidade de processamento de cana-de-açúcar, estabelecendo-se então um impasse: para seguir se expandindo nas próximas safras, o setor precisaria dispor de maior capacidade de processamento. E isso, afirma Prado, dificilmente ocorrerá sem que o etanol gere margens de lucros superiores à atual, que não pode ser elevada porque, por questões políticas e de controle à inflação, o governo não autoriza aumento do preço da gasolina.

Na opinião de Prado, “sem saber que terá retorno com o etanol, o investidor não tomará financiamento nem botará recursos próprios em uma usina nova, que custa US$ 1,5 bilhão, leva de três a quatro anos para entrar em operação, e exige cerca de dez anos para retornar o investimento”.

Para Márcio Perin, analista de mercado da empresa de consultoria e informações Informa Economics FNP, ao menos até 2015 não deve realmente ocorrer investimento significativo na ampliação da capacidade de processamento de cana-de-açúcar instalada no Brasil, mesmo porque 2014 será um ano eleitoral, no qual fica ainda menos provável uma decisão de aumento no preço da gasolina. “A longo prazo, essa política de manutenção dos preços da gasolina será insustentável”, comenta.

Porém, ressalta o analista de mercado, há projeções de falta de combustível para atender à demanda nacional prevista para 2020, e uma aposta mais incisiva no etanol pode constituir uma alternativa para evitar problemas. “A partir de 2008, o setor sucroenergético engavetou muitos projetos, cuja implementação não começaria do zero”, recorda. “A crise nesse setor é hoje de rentabilidade, pois o produto que seria seu principal propulsor, o etanol, hoje não dá dinheiro; e é também uma crise de confiança, não se sabe exatamente qual será o seu futuro”, argumenta Perin.

Em busca de uma política – Medidas recentemente adotadas pelo governo federal, como a redução da carga tributária incidente nas alíquotas do PIS-Cofins e a elevação de 20% a 25% no índice de sua mistura na gasolina, contribuíram para tornar mercadologicamente mais atrativo o etanol. E, com certeza, ajudaram também a ampliar sua participação no mix de produtos gerados pelas usinas processadoras de cana; por enquanto, porém, essa participação é ainda bem inferior àquela vigente há quatro ou cinco anos (ver Tabela 2).

Além disso, observa Prado, da Unica, as diferenças tributárias vigentes entre os vários estados brasileiros ainda prejudicam a competitividade do etanol perante a gasolina em diversas regiões do país (na verdade, essa competitividade atualmente parece restrita aos estados onde é mais forte a cultura canavieira: São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Paraná).

Petróleo & Energia, Resultados da safra cana-de-açucarPara ele, medidas na área tributária ou o aumento de sua presença na gasolina, embora colaborem para ampliar a demanda pelo etanol, não são capazes de posicioná-lo de maneira sólida no confronto com a gasolina, hoje beneficiada por medidas muito mais eficazes, como a política de preços favorável ao combustível oriundo do petróleo, graças à qual já foi significativamente reduzido o espaço de seu congênere proveniente da cana como alternativa pa­ra abastecimento de veículos (ver Tabela 3). “É preciso haver uma definição mais precisa do tamanho que o etanol terá na matriz brasileira, para que retornem os investimentos nessa área”, diz Prado.

Perin, da Informa Economics FNP, endossa essa afirmação: “Não havendo retorno com o etanol, será pouco atrativo investir em capacidade industrial”, afirma. “Os investidores querem hoje do governo uma política de preços definida para os combustíveis”, acrescenta.

Deve-se até considerar a possibilidade de redução da atual capacidade de processamento da indústria canavieira, hoje estimada em aproximadamente 650 milhões de toneladas. De acordo com Perin, estimativas mostram que hoje 30% dessa capacidade convive com dificuldades financeiras. “O setor cresceu muito rapidamente entre 2003 e 2008, e muito dessa expansão foi realizada por meio de empréstimos”, relata. “Quando veio, a crise internacional pegou muitas empresas endividadas, e o etanol já apresentava problemas de rentabilidade”, complementa o analista da Informa Economics FNP.

Mas, se é difícil imaginar o surgimento de novas usinas, haverá ao menos a ampliação dos recursos destinados àquelas já em operação, crê Tonielo, do Ceise Br. “As atuais usinas investirão para se tornar mais eficientes, e algumas ampliarão sua capacidade”, prevê. Haverá, acrescenta Perin, também investimentos destinados à ampliação da oferta de energia elétrica proveniente dessas usinas. “Poucas delas, estimo que nem 30%, já comercializam energia, e investir também nesse mercado é uma forma de rentabilizar o negócio”, completou.

De acordo com Tonielo, embora devam impactar apenas a próxima safra de cana, que começa em abril de 2015 – a atual termina em dezembro –, os investimentos das usinas canavieiras devem ter início nessa nova edição da Fenasucro, pois os equipamentos com os quais trabalha essa indústria exigem longo tempo de produção. “Até dá para conseguir uma moenda para a próxima safra, mas uma usina interessada em investir no mercado da energia elétrica, que exige itens como caldeiras e turbinas, precisa considerar que alguns equipamentos só ficarão prontos para serem utilizados em 2015”, exemplifica.

Assim como podem projetar uma demanda interna mais aquecida, os fabricantes de equipamentos para a indústria sucroenergética devem também considerar uma crescente concorrência de produtos provenientes de países como China e Índia. No Brasil, diz Tonielo, essa concorrência ainda não é significativa, mas ela já é bastante relevante em outros mercados, a exemplo de outros países latino-americanos, também importantes para os fabricantes daqui. “Muitos fornecedores de equipamentos para o setor sucroenergético vinham trabalhando com apenas 40% de sua capacidade, e 75% de seus negócios vinham da exportação. Com o aumento da concorrência oriunda da Ásia, eles ainda seguem trabalhando com os 40% de sua capacidade, mas agora 75% de seus negócios são realizados no mercado interno”, salienta o presidente do Ceise Br.

Petróleo & Energia, Djalma Bordignon: sem previsão de novos investimentos no Brasil até 2015
Bordignon: sem previsão de novos investimentos no Brasil até 2015

Presente nesta edição, a KSB não pretende participar da Fenasucro em 2014, adianta Djalma Bordignon, gerente de vendas dessa empresa e presidente da Câmara Setorial de Válvulas Industriais (CSVI) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, a Abimaq (a indústria sucroalcooleira é cliente relevante dos fabricantes de válvulas).

A futura ausência se justifica porque, com a aproximação das eleições presidenciais, até 2015 não são esperados investimentos relevantes nesse setor. Aliás, talvez nem mesmo em outros setores importantes para a indústria de válvulas: “Também não deveremos participar da Brasil Offshore”, diz Bordignon, referindo-se à feira do setor de óleo e gás.

Ele crê, porém, que os investimentos podem recomeçar depois das eleições do próximo ano, pois o Brasil tem necessidade de melhorar sua infraestrutura; até mesmo no segmento da energia elétrica, hoje também ofertada pelas usinas canavieiras. Até lá, a indústria de válvulas aqui instalada deve conviver não apenas com a demanda pouco aquecida, mas também com uma feroz concorrência de produtos asiáticos: “A indústria nacional hoje fornece apenas 30% das válvulas aqui consumidas”, afirma Bordignon.

FENASUCRO – 21ª Feira Internacional de Tecnologia Sucroenergética

Data: 27 a 30 de agosto de 2013 – Horário: 13h às 20 horas
Local: Centro de Eventos Zanini,  Sertãozinho, São Paulo. Mais informações em www.fenasucro.com.br

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