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Fenasan: Baixo investimento em saneamento aumenta o temor da falta de água

Hamilton de Almeida
5 de outubro de 2016
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    Petróleo & Energia,

    Petróleo & Energia, Fenasan - Prévia 2016: Setor discute como eliminar o risco de desabastecimentoUm velho tema – o baixo índice de tratamento de água e esgoto no país – preocupa os técnicos do setor, em meio à ameaça da crise hídrica, que já adquire contornos planetários. Esta temática rondou as mentes dos participantes do Encontro Técnico AESabesp, 27º Congresso Nacional de Saneamento e Meio Ambiente, realizado entre os dias 16 e 18 de agosto no pavilhão Vermelho do Expo Center Norte, em São Paulo.

    Embora apareça entre as dez maiores economias do mundo, o Brasil ocupa a 112ª posição em um conjunto de 200 países no quesito saneamento básico, aponta estudo divulgado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, realçando “o longo caminho que deve ser percorrido em busca do melhor acesso da população à água e ao esgoto tratado”, analisa Igor Freitas, da Bauminas Química.

    O Instituto Trata Brasil sinaliza que 82,5% da população é atendida com água tratada. Por outro lado, há pelo menos 35 milhões de brasileiros que não têm acesso a esse serviço básico. A coleta de esgoto beneficia 48,6%, ou seja, há mais de 100 milhões de pessoas à margem desse serviço público.

    Petróleo & Energia, Freitas exibiu nova geração de polímeros coagulantes

    Freitas exibiu nova geração de polímeros coagulantes

    O congresso contou com 1.710 integrantes e transcorreu, paralelamente, à Fenasan – Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente, que exibiu as mais recentes novidades em produtos e soluções tecnológicas. Juntos, formam o maior evento técnico-mercadológico do ramo na América Latina, uma promoção da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp).

    Na palestra magna, o secretário nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Alceu Segamarchi Jr., mostrou o descompasso entre o volume de recursos liberados pelo Governo Federal para melhorar o saneamento e os valores compromissados: entre 2003 e 2014, houve um desembolso de R$ 82,18 bilhões frente a compromissos da ordem de R$ 140,23 bilhões.

    Embora o Plano Nacional de Saneamento Básico, concluído em 2013, contemple, nos centros urbanos, a universalização do abastecimento de água até 2023 e 93% do tratamento de esgoto sanitário até 2033, envolvendo aportes totais de R$ 508 bilhões (em valores de 2013), a realidade é que a evolução não segue o ritmo planejado. Para ser cumprido, o Plano exige, na média, gastos de R$ 15 bilhões/ano: “O Brasil não está gastando isso”, afirmou Segamarchi.

    Petróleo & Energia, Segamarchi: Plano Nacional apresenta atrasos na execução

    Segamarchi: Plano Nacional apresenta atrasos na execução

    Para o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, há “dificuldades concretas” para a implementação do Plano nos municípios. E disparou: “A Sabesp está empenhada em fazer contratos que devem registrar o que se pode e não o que se pretende fazer”. Ele também falou que há uma ênfase no país na construção de estações de tratamento de esgoto, mas não se confere a mesma atenção na sua operação e manutenção.

    Ciente de que “estamos longe da universalização do saneamento” e que muitos investimentos devem ser orientados nesse sentido e na segurança hídrica, Kelman aludiu à possibilidade da elevação da tarifa média para custear os gastos necessários. No caso específico da Sabesp, uma das maiores empresas do mundo em número de clientes, admitiu que a “estrutura tarifária não contempla uma razoável distribuição de custos”. Por tudo isso, se houver uma mudança nesse modelo, ele opina que “deveria ocorrer ao longo de vários anos”.

    Na palestra “Saneamento, segurança da água e as consequências para a saúde”, Jamyle Grigoletto, analista do Ministério da Saúde, lembrou que o saneamento é um dos determinantes sociais da saúde pública, deixando claro que os investimentos auxiliam na redução de doenças de transmissão hídrica e por vetores (como o Aedes aegypti).

    Petróleo & Energia, Jamyle: saneamento contribui para melhorar a saúde do país

    Jamyle: saneamento contribui para melhorar a saúde do país

    Ao citar que, no Brasil, 6% do total da população é abastecido por água sem nenhum tipo de tratamento, Jamyle exclamou. “É muita gente!”. Não é por acaso que o Ministério da Saúde contabiliza 3.508 óbitos este ano causados por diarreia aguda. As maiores incidências estão nas regiões Norte e Nordeste. Além disso, há 206 municípios, distribuídos por quase todos os Estados, em situação de risco de surtos de dengue, chikungunya e zika. E já foram computados 8.890 casos de microcefalia em 1.510 dos 5.570 municípios (4,4% de óbito fetal).

    O caminho para melhorar esse cenário passa, na opinião de Jamyle, pelos planos municipais de saneamento básico. Mas, no momento, “só 20% a 30% dos municípios” atendem os requisitos. “O desafio é integrar as políticas públicas de saúde, saneamento e recursos hídricos, entre outras”, arrematou.

    Benedito Braga, secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, defendeu que a gestão da água seja incorporada ao contexto mais amplo das mudanças climáticas que afetam o mundo. “Temos que ser mais resilientes às variações climáticas no futuro”, ponderou. “A tecnologia pode e deve trazer soluções para os problemas hídricos”.

    Petróleo & Energia, Kelman: tarifa média poderá subir para custear expansão

    Kelman: tarifa média poderá subir para custear expansão

    Olavo Sachs, presidente da AESabesp, frisou que a crise hídrica “é uma questão mundial”, tanto que, na Austrália, já é encarada como “a crise do milênio”. 23% de toda a água doce do mundo está na América do Sul – e metade disso no Brasil. De cada 100 litros disponíveis no mundo, 12 são do Brasil.

    Lições – A mais grave seca em 84 anos de monitoramento na Região Metropolitana de São Paulo, em 2014-15, deixou algumas lições, na avaliação de Marco Antônio Lopes Barros, superintendente da unidade de produção de água RMSP da Sabesp. O sistema Cantareira agora é “mais flexível”.

    A reserva técnica foi usada durante 18 meses (288 milhões m3) e colaborou, com outras medidas, para se evitar o colapso do sistema. Essa medida emergencial deixou de ser praticada em dezembro de 2015, e os técnicos não querem utilizá-la novamente. Antes da crise, a produção de água da Sabesp era de 71,4 m3/seg. Atualmente, é de 58 m3/seg.

    Petróleo & Energia, Braga: gestão da água deverá computar variações climáticas

    Braga: gestão da água deverá computar variações climáticas

    A crise também ensinou a reduzir a pressão nas tubulações no período noturno, o que diminui os vazamentos. O índice nacional de perdas na distribuição de água, em 2014, foi de 36,7% e, em alguns locais, como na região Norte, atingiu 70%, uma marca rotulada de “absurda” por Segamarchi.

    Paulo Massato, diretor metropolitano da Sabesp, acrescentou que a companhia está “melhor preparada para enfrentar qualquer crise e garantir o abastecimento da população”. A curto prazo, ele não vê nenhum perigo à vista.

    “A crise ainda não acabou”, proclamou o professor da Unicamp, Antonio Carlos Zuffo. Os seus estudos indicam que somente a partir de 2040 haverá um ciclo de chuvas mais intensas. Ele recomendou: a variabilidade climática deve ser levada em conta nas ações de planejamento, sem viés ideológico, pois os níveis de precipitação devem cair abaixo da média nos próximos dois a três anos; educação ambiental; redução de perdas; tratamento de efluentes e reuso da água – “Os efluentes de hoje serão a água de amanhã”; aproveitamento das águas pluviais; e compatibilização entre os marcos regulatórios.

    Petróleo & Energia, Lopes: crise hídrica tornou Sistema Cantareira flexível

    Lopes: crise hídrica tornou Sistema Cantareira flexível

    O exemplo europeu no “gerenciamento circular das águas de esgoto municipais” foi abordado pelo PhD em biotecnologia ambiental e professor da disciplina de Instalações e processos químicos da Universidade de Verona, Francesco Fatone. “O objetivo é transformar os efluentes em biorrefinarias urbanas”, resumiu.

    O Smart Plant, do qual ele é coordenador, faz parte de um programa de pesquisa e inovação da União Europeia, chamado Horizonte 2020. Foi iniciado no dia 1º de junho deste ano com previsão de gastar € 10 milhões em quatro anos. Envolve 25 parceiros (18 empresas e sete universidades) de seis países: Itália, Espanha, Holanda, Grã-Bretanha, Grécia e Israel. Sete sistemas serão montados, um em cada país e dois na Itália.



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