Etanol – Clima ruim e crise atrasam renovação dos canaviais e afugentam investimentos

O mercado de etanol combustível tem enfrentado um cenário turbulento desde o segundo semestre de 2008, quando a crise mundial aumentou de intensidade. E, não bastasse a influência externa, as condições climáticas das últimas três safras foram negativas. “Enfrentamos um excesso de chuva entre 2009-2011 e não conseguimos processar toda a cana plantada, o que resultou num excedente de 60 milhões de toneladas da safra de 2008-09, que ficou para ser processada em 2009-10”, explica Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). “A safra de 2009-10, por sua vez, caracterizou-se por uma seca mais intensa, fazendo com que o excedente de cana desaparecesse.” O quadro pintado pelo especialista, infelizmente, tem ainda outro dado negativo: segundo ele, a safra de 2010-11 não foi nem chuvosa e nem seca, mas fria, com temperaturas abaixo de 10ºC durante a noite.

O resultado do clima desfavorável – literalmente falando – será uma produção para 2011-12 com a média de 480 milhões de t, podendo atingir entre 460 milhões e 540 milhões de t na safra de 2012-13. Para o escritório de consultoria especializada Datagro, o nível de produção oscilaria entre 460 milhões e 515 milhões de t.

“A crise mundial afastou o crédito, o que impediu a continuidade do ritmo de crescimento dos projetos observado no período de 2004-08”, complementa Rodrigues. O número de novas unidades produtoras traduz o declínio de forma clara: em2007, aUnica listava 109 unidadesem implementação. Noano seguinte, foram 30, caindo para 19 em 2009 e dez em 2010. Para 2011, a entidade lista apenas três projetos novos.

Outro reflexo da crise mundial foi a não renovação dos canaviais no ritmo esperado. A cada cinco ou seis safras, a recomendação é que a lavoura seja totalmente renovada. O diretor da Unica explica que o ideal seria a renovação de 20% da área plantada a cada ano. “Não estamos vivendo isso atualmente. Sessenta por cento da cana colhida é oriunda de um canavial que tem cinco ou seis anos. Apenas 40%, em média, é cana nova”, detalha.

O choque climático das últimas três safras, aliado à falta de renovação, levou a uma queda de produtividade, onde se perde, em média, dez toneladas de cana por hectare em relação ao potencial de produção. E, no caso da geada, não foi apenas uma dose: a Região Centro-Sul sofreu os efeitos de duas delas, jogando a pá de cal no canavial, cuja recuperação deve demorar uns dois a três anos, na estimativa do especialista.

Manoel Regis Lima Verde Leal, especialista em sustentabilidade do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), resume o cenário atual do Brasil: “Temos usina, mas não temos cana.” Para ele, o problema das crises é que elas levam à redução de aplicação de insumos e ao investimento da renovação do canavial. De acordo com ele, essa renovação está abaixo de 10%, quando o normal seria em média 15%. “Esse tipo de economia leva à queda de produtividade, agravada pelo problema climático forte que enfrentamos”, resume.

A preocupação com a renovação dos canaviais atinge a Raízen, considerada uma das maiores produtoras brasileiras (e mundiais) de açúcar e álcool. Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, de novembro de2011, aempresa estima que seus canaviais tenham uma idade média de 3,2 anos, média que poderá cair para 2,8 anos em 2012, embora o ideal para a empresa seja de 2,5 anos. A capacidade de moagem também aumenta de 52 milhões de toneladas para 54 milhões de toneladas.

Outra vertente da crise atinge a indústria de bens de capital, que enfrenta uma situação difícil, sem encomendas ou pedidos. Como os projetos demoram de três a quatro anos para começar a demandar de fato os equipamentos, esse setor precisará enfrentar uma etapa de vacas magras nos próximos anos, na avaliação da Unica.

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Com o mercado de São Paulo sendo o principal consumidor de etanol do país e com a possibilidade de o Brasil se tornar exportador ainda mais importante de outros subprodutos, a logística de transporte é o coringa para os produtores do Centro-Oeste. Um poliduto está em construção, ligando o porto de São Sebastião, no litoral de São Paulo, a Jataí-GO. O primeiro trecho da obra, ligando Paulínia a Ribeirão Preto, já está sendo iniciado. Esse canal de distribuição passa a300 kmda usina de Barra do Garças, do Cluster de Biotecnologia. O projeto também é suprido por três ferrovias: a Ferro-Norte, da ALL, que liga Alto Araguaia-MT a Santos-SP, passando pela capital, e que também está a300 kmda usina A, e a Ferrovia Norte-Sul, ligando Anápolis ao Maranhão (distante500 kmda usina A). Uma terceira ferrovia, a Fico, de integração do Centro- Oeste, cruzará a cidade de Água Boa, quando for concluída em 2014, favorecendo a logística da usina B. As usinas também são atendidas por duas rodovias federais. O trecho entre as unidades de produção e os ramais ferroviários ou o alcoolduto poderá ser coberto por caminhões.

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“A boa notícia é que ainda existe uma capacidade de moagem excedente de cerca de 170 milhões de t/ano, a qual poderá dar conta do incremento da produção, com a renovação em até quatro anos”, argumenta Rodrigues. Ele destaca ainda que a capacidade total de processamento de cana atual é de 750 milhões de t/ano, contra uma produção efetiva de 480 milhões. Desde 2004, ele avalia que existam mais de 120 projetos em implantação, com produção média para processar entre 3,5 milhões e 4 milhões de t cada. “Mais de 90% deles não atingiram nem 50% de sua capacidade produtiva, e o pico poderá ser ajustado para o período em que tivermos a recuperação da área plantada. Ou seja, a indústria está pronta para atender a recuperação do mercado, basta expandir o canavial”, avalia.

Para ele, a expansão da produção deve atingir 360 milhões de toneladas adicionais entre 2015 e 2016, cenário que poderá ser concretizado com políticas adequadas de financiamento para plantio de cana, com prazo para amortizar os pagamentos. Se o equacionamento acontecer, a indústria está preparada para expandir seus canaviais na avaliação da Unica: existe mão de obra preparada, qualidade de cana e vários projetos que estão sendo tocados em áreas conhecidas. “Há iniciativas como as da Bunge, com retomadas de projetos via fusão com outras empresas, ou da EHT, com plano de expansão em projetos novos. Existe mercado para crescimento”, complementa.

A produção de etanol deve fechar o ano com 20 bilhões de litros, sendo que se espera um aumento para 23 bilhões em 2012 (na avaliação da Datagro). De acordo com Rodrigues, da Unica, o país importou 1,2 bilhão de litros de etanol dos Estados Unidos porque preferiu importar menos gasolina. Mesmo assim foram trazidos 5 bilhões de litros dessa última. “Concentrar no álcool desonera a Petrobras de importar mais gasolina. Os carros são flex e não movidos somente a etanol porque o preço desse combustível é indiretamente tabelado. Mesmo porque não temos condições de atender a toda a frota atual”, adverte. Ele acrescenta ainda a questão logística e a carga tributária, que pesam desfavoravelmente.

A situação não muda, na opinião do especialista, o que significa dizer que até 2015 o Brasil manterá a venda média de três milhões de veículos leves por ano e a política de precificação da gasolina não deve sofrer alterações; isso significa, no caso de importação, que o governo deve favorecer a vinda de álcool para reduzir o volume de gasolina necessária para abastecer a frota.

A aposta de Rodrigues é o aumento de 40% da área agrícola nos próximos quatro ou cinco anos e uma redução dos custos de produção como formas de incremento de produção, além de contrapartidas governamentais de estímulo.

Para ele, o mercado consumidor principal continua sendo São Paulo, onde o produtor tem a oportunidade de ter lucro. No resto do país existe ainda um mercado marginal, embora haja um claro investimento em produção tantoem Minas Geraiscomo nos estados do Centro-Oeste, caso de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. “Criou-se uma condição para o empreendimento, mas ainda não se criou um mercado consumidor como o que existeem São Paulo”, avalia. Para ele, esses estados precisam criar essa demanda, gerar empregos locais para aumentar a competitividade em relação ao maior centro produtor e consumidor. “Não dá pra imaginar caminhões transportando etanol do Centro-Oeste para São Paulo”, argumenta.

Parte desse movimento já acontece, como prova a Nova Fronteira Bioenergia, joint venture entre o Grupo São Martinho e a Petrobras Biocombustíveis, que anunciou um plano de investimentos de R$ 520,7 milhões em agosto desse ano. O montante vai ser aplicado na ampliação da capacidade de moagem da Usina Boa Vista, localizadaem Quirinópolis- GO. Comcapacidade para moer dois milhões de toneladas na safra 2010- 11, ela deve passar a 2,3 milhões de toneladas em 2011-12, chegando aos oito milhões de toneladas na safra de 2014-15, justificando os investimentos feitos agora.

Petróleo & Energia, Fábio Venturelli, Presidente da Nova Fronteira, Etanol - Clima ruim e crise atrasam renovação dos canaviais e afugentam investimentos
Venturelli: grupo tem por meta mecanizar plantio e colheita

A conclusão da expansão está prevista para 2014, o que confirma o ciclo de maturação médio de um projeto do setor. Ao mesmo tempo em que investe na capacidade de moagem, a Nova Fronteira também espera deter 70% da cana-de-açúcar a ser processada, comprando apenas 30% de matéria-prima de terceiros. Com um índice de mecanização de 100%, a usina justifica os investimentos de R$ 90,2 milhões na compra de aparelhagem agrícola (os outros R$ 430,5 milhões serão aplicados em equipamentos industriais).

A alta mecanização da unidade goiana reflete os conceitos da São Martinho, cuja média de mecanização da colheita é de 87%. “Faz parte da cultura da companhia investir na mecanização das operações de plantio e colheita em todas as suas unidades”, explica Fábio Venturelli, presidente da Nova Fronteira. Segundo ele, a São Martinho foi um dos grupos pioneiros no setor sucroenergético a mecanizar o processo de colheita, há 20 anos.

Quando a expansão estiver completamente ativa, a usina goiana vai produzir 700 milhões de litros de etanol, o que a colocaria, segundo a Nova Fronteira, como a maior unidade voltada exclusivamente à produção de etanol de cana-de-açúcar no mundo. Além do combustível, a unidade vai gerar 600 mil MWh de energia elétrica, confirmando a tendência de instalação de unidades integradas de energia, mudando o perfil da indústria.

Um dos exemplos dessa tendência é o Cluster de Biotecnologia, um megaprojeto que prevê a instalação de três usinas produtoras de etanol, energia elétrica e leveduras. Com investimentos totais de R$ 3,3 bilhões, o empreendimento é completamente diferenciado de outros projetos de expansão, concentrando as três unidades próximas umas das outras.

Localizadas no Mato Grosso, as usinas estão estrategicamente posicionadas próximas a três municípios: a usina A, em Barra do Garças; a B, em Água Boa; e a C,em Nova Xavantina. Essenão foi o único ponto favorável ao estabelecimento do projeto segundo João Carlos de Souza Meirelles, presidente do Cluster. “Fatores-chave, como a redução de imposto de renda por estarmos na Amazônia Legal, embora o bioma da região seja o Cerrado, contaram a favor”, adianta. Ele lista ainda: a ampla disponibilidade de áreas agriculturáveis, majoritariamente planas, o que facilita a mecanização total do plantio e da colheita, e a infraestrutura rodoviária, ferroviária e, futuramente, dutoviária. A presença de uma linha de alta tensão, de 138 kV, igualmente pesou favoravelmente, pensando na comercialização da eletricidade gerada.

A estruturação do Cluster de Biotecnologia começou em 2007, com a criação do Consórcio de Bioenergia, formado por três empresas, que iniciaram os estudos preliminares para escolha de um local, no Brasil, onde o cluster, com letra minúscula, significando aglomerado, poderia ser instalado. O Consórcio é formado pela Fronteira Norte Engenharia, da qual Meirelles é o principal executivo, a Ductor Implantação de Projetos, especializada em infraestrutura de grandes projetos, e a XBB Xavier, Bernardes, Bragança – Sociedade de Advogados. O trio, por sua vez, forma uma das 21 empresas donas do Cluster de Biotecnologia. “As outras 20 foram convidadas para constituir o Cluster no segundo semestre de 2007, já com informações a respeito da viabilidade do empreendimento, de forma que remamos contra a crise iniciada em 2008”, destaca Meirelles.

Quatro consultorias especializadas participaram dos estudos detalhados, já tendo o Mato Grosso como foco: Canaplan (agrícola), Reunion (industrial), Walter Lazzarini (ambiental) e a PWC (tributária). O acordo com o governo estadual aconteceu entre 2009 e 2010, assim como os licenciamentos ambientais e os estudos de logística. A implantação dos viveiros também foi iniciada nesse período.

Em termos operacionais, o Cluster já ativou os viveiros de cana-de-açúcar, plantando700 hectarese usando tecnologia avançada de variedade de canas. De acordo com o projeto, cada usina considera um raio de30 kmpara a plantação da lavoura, em terras próprias ou em terras de terceiros, sendo que em qualquer um dos casos a empresa gerencia todo o projeto de plantio, do fornecimento das mudas à colheita.

A primeira usina também começará a ser ativada ainda em 2012, tendo capacidade para processamento de 1,1 milhão de t de cana em sua primeira fase, que será finalizada no começo de 2014. Com as duas outras etapas, a unidade chegará a ter a capacidade nominal para 4,7 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por ano. A segunda usina (Água Boa) começa a ser construída em 2014 e a terceira (Nova Xavantina), em 2018. Até o primeiro semestre de 2021 o trio completo estará ativado.

De acordo com Meirelles, a unidade de Barra do Garças é o modelo para as outras duas. Isso significa que cada um delas deverá ter a capacidade de moagem final de 4,7 milhões de toneladas de cana por ano, o que pode representar uma capacidade de produção de etanol de 430 milhões de litros anuais, além de 520 mil MWh/ano de energia. Do faturamento bruto esperado (no caso de Barra do Garças) de R$ 638 milhões, meio por cento deve vir da oferta de leveduras e outros produtos. “Trata-se de um projeto de futuro, integrado e que poderá produzir outros subprodutos usados em diversas indústrias”, antecipa Meirelles.

Segurança – Antônio de Pádua Rodrigues, da Unica, lembra que a questão da importação de etanol de milho dos Estados Unidos é apenas um aspecto do negócio. Como os americanos têm um mercado spot de cerca de quatro bilhões de l/ano de etanol e que flutua ao sabor da precificação, a venda para o Brasil pode ser interessante. “Se for atrativo, eles podem exportar como aconteceu neste ano e que provavelmente poderá ocorrer em2012”, avalia. “Por outro lado, o Brasil tem um mercado exportador de 1,5 bilhão a 2 bilhões de litros de álcool químico, para outras aplicações, que continua firme”, argumenta.

Outro lado volátil mais perigoso do mercado de etanol é a exposição das empresas do setor aos riscos financeiros. Leandro Andrade, diretor comercial e de marketing da Luz Engenharia Financeira, conhece o assunto. “Temos ajudado usinas a mapear sua vulnerabilidade nos mercados financeiros e derivativos, no sentido de minimizar riscos, fazer hedges e construir um processo contínuo de monitoramento dos riscos”, explica.

Segundo ele, embora muitas vezes as usinas tenham uma excelência na produção, elas deixam em segundo plano os riscos financeiros, caso da captação de recursos e dos riscos associados ao fluxo de caixa (liquidez), ao balanço e às exposições em moeda estrangeira. “O que fazemos é ajudá-las a ter uma cultura de gestão de riscos financeiros, evitando surpresas em cenários de volatilidade de mercado”, completa.

Petróleo & Energia, Antônio de Pádua Rodrigues, da Única, Etanol - Clima ruim e crise atrasam renovação dos canaviais e afugentam investimentos
Pádua: número de projetos caiu com as restrições ao crédito

Andrade lembra ser usual que as usinas façam contratos com produtores (meeiros, no caso) para garantir a compra da cana. “Na prática, quando chega a época da entrega, se o produtor percebe que o preço no mercado está mais alto, ele literalmente rasga o contrato com a usina A e vende para a usina B. Ou seja, o fornecimento da matéria-prima é um problema sério.”

O executivo lembra que a gestão de risco é complexa e começou a ter mais impacto com a crise iniciada em 2008. “Muitas empresas nacionais sofreram perdas imensas decorrentes da exposição cambial e acabaram sendo vendidas para grandes grupos.” Ele vê como tendência o fato de grandes produtores buscarem especialização na gestão de riscos e até operações fora do Brasil.

Na cartilha de Andrade, a recomendação inicial é que o primeiro passo seja a identificação das vulnerabilidades inerentes ao mercado. “Sobre isso os usineiros sabem melhor do que qualquer consultoria”, lembra o executivo. “Mas é preciso mapear os riscos financeiros como fluxo de caixa, hedge e exposiçãoem derivativos. Apóso mapeamento, as usinas devem estabelecer um processo confiável e robusto para reportar esses números para a alta administração”, explica. “Depois precisam disseminar a cultura de risco, criando um comitê. Além disso, o gestor de riscos deve estar muito próximo do pessoal comercial para saber como a demanda está projetada e quais ações ele deverá tomar”, finaliza Andrade.

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