Biocombustíveis

Etanol – Clima ruim e crise atrasam renovação dos canaviais e afugentam investimentos

Nelson Valencio
28 de novembro de 2011
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    O mercado de etanol combustível tem enfrentado um cenário turbulento desde o segundo semestre de 2008, quando a crise mundial aumentou de intensidade. E, não bastasse a influência externa, as condições climáticas das últimas três safras foram negativas. “Enfrentamos um excesso de chuva entre 2009-2011 e não conseguimos processar toda a cana plantada, o que resultou num excedente de 60 milhões de toneladas da safra de 2008-09, que ficou para ser processada em 2009-10”, explica Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). “A safra de 2009-10, por sua vez, caracterizou-se por uma seca mais intensa, fazendo com que o excedente de cana desaparecesse.” O quadro pintado pelo especialista, infelizmente, tem ainda outro dado negativo: segundo ele, a safra de 2010-11 não foi nem chuvosa e nem seca, mas fria, com temperaturas abaixo de 10ºC durante a noite.

    O resultado do clima desfavorável – literalmente falando – será uma produção para 2011-12 com a média de 480 milhões de t, podendo atingir entre 460 milhões e 540 milhões de t na safra de 2012-13. Para o escritório de consultoria especializada Datagro, o nível de produção oscilaria entre 460 milhões e 515 milhões de t.

    “A crise mundial afastou o crédito, o que impediu a continuidade do ritmo de crescimento dos projetos observado no período de 2004-08”, complementa Rodrigues. O número de novas unidades produtoras traduz o declínio de forma clara: em2007, aUnica listava 109 unidadesem implementação. Noano seguinte, foram 30, caindo para 19 em 2009 e dez em 2010. Para 2011, a entidade lista apenas três projetos novos.

    Outro reflexo da crise mundial foi a não renovação dos canaviais no ritmo esperado. A cada cinco ou seis safras, a recomendação é que a lavoura seja totalmente renovada. O diretor da Unica explica que o ideal seria a renovação de 20% da área plantada a cada ano. “Não estamos vivendo isso atualmente. Sessenta por cento da cana colhida é oriunda de um canavial que tem cinco ou seis anos. Apenas 40%, em média, é cana nova”, detalha.

    O choque climático das últimas três safras, aliado à falta de renovação, levou a uma queda de produtividade, onde se perde, em média, dez toneladas de cana por hectare em relação ao potencial de produção. E, no caso da geada, não foi apenas uma dose: a Região Centro-Sul sofreu os efeitos de duas delas, jogando a pá de cal no canavial, cuja recuperação deve demorar uns dois a três anos, na estimativa do especialista.

    Manoel Regis Lima Verde Leal, especialista em sustentabilidade do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), resume o cenário atual do Brasil: “Temos usina, mas não temos cana.” Para ele, o problema das crises é que elas levam à redução de aplicação de insumos e ao investimento da renovação do canavial. De acordo com ele, essa renovação está abaixo de 10%, quando o normal seria em média 15%. “Esse tipo de economia leva à queda de produtividade, agravada pelo problema climático forte que enfrentamos”, resume.

    A preocupação com a renovação dos canaviais atinge a Raízen, considerada uma das maiores produtoras brasileiras (e mundiais) de açúcar e álcool. Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, de novembro de2011, aempresa estima que seus canaviais tenham uma idade média de 3,2 anos, média que poderá cair para 2,8 anos em 2012, embora o ideal para a empresa seja de 2,5 anos. A capacidade de moagem também aumenta de 52 milhões de toneladas para 54 milhões de toneladas.

    Outra vertente da crise atinge a indústria de bens de capital, que enfrenta uma situação difícil, sem encomendas ou pedidos. Como os projetos demoram de três a quatro anos para começar a demandar de fato os equipamentos, esse setor precisará enfrentar uma etapa de vacas magras nos próximos anos, na avaliação da Unica.

    Logística é fundamental

    Com o mercado de São Paulo sendo o principal consumidor de etanol do país e com a possibilidade de o Brasil se tornar exportador ainda mais importante de outros subprodutos, a logística de transporte é o coringa para os produtores do Centro-Oeste. Um poliduto está em construção, ligando o porto de São Sebastião, no litoral de São Paulo, a Jataí-GO. O primeiro trecho da obra, ligando Paulínia a Ribeirão Preto, já está sendo iniciado. Esse canal de distribuição passa a300 kmda usina de Barra do Garças, do Cluster de Biotecnologia. O projeto também é suprido por três ferrovias: a Ferro-Norte, da ALL, que liga Alto Araguaia-MT a Santos-SP, passando pela capital, e que também está a300 kmda usina A, e a Ferrovia Norte-Sul, ligando Anápolis ao Maranhão (distante500 kmda usina A). Uma terceira ferrovia, a Fico, de integração do Centro- Oeste, cruzará a cidade de Água Boa, quando for concluída em 2014, favorecendo a logística da usina B. As usinas também são atendidas por duas rodovias federais. O trecho entre as unidades de produção e os ramais ferroviários ou o alcoolduto poderá ser coberto por caminhões.

    “A boa notícia é que ainda existe uma capacidade de moagem excedente de cerca de 170 milhões de t/ano, a qual poderá dar conta do incremento da produção, com a renovação em até quatro anos”, argumenta Rodrigues. Ele destaca ainda que a capacidade total de processamento de cana atual é de 750 milhões de t/ano, contra uma produção efetiva de 480 milhões. Desde 2004, ele avalia que existam mais de 120 projetos em implantação, com produção média para processar entre 3,5 milhões e 4 milhões de t cada. “Mais de 90% deles não atingiram nem 50% de sua capacidade produtiva, e o pico poderá ser ajustado para o período em que tivermos a recuperação da área plantada. Ou seja, a indústria está pronta para atender a recuperação do mercado, basta expandir o canavial”, avalia.

    Para ele, a expansão da produção deve atingir 360 milhões de toneladas adicionais entre 2015 e 2016, cenário que poderá ser concretizado com políticas adequadas de financiamento para plantio de cana, com prazo para amortizar os pagamentos. Se o equacionamento acontecer, a indústria está preparada para expandir seus canaviais na avaliação da Unica: existe mão de obra preparada, qualidade de cana e vários projetos que estão sendo tocados em áreas conhecidas. “Há iniciativas como as da Bunge, com retomadas de projetos via fusão com outras empresas, ou da EHT, com plano de expansão em projetos novos. Existe mercado para crescimento”, complementa.



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