Biocombustíveis

Etanol – Avanço tecnológico vai do plantio até biorrefinaria

Nelson Valencio
28 de novembro de 2011
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    Campo avançado em pesquisa na área de cana-de-açúcar no Brasil, o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), sediado em Campinas-SP, foi concebido em 2005 e inaugurado oficialmente em janeiro de 2010. Trata-se de um think tank em biotecnologia, com a adição de uma planta piloto que vai ampliar várias pesquisas da escala de laboratório para semi-industrial. De acordo com o diretor Marco Aurélio Pinheiro Lima, o CTBE tem focado sua atuação principalmente em dois temas: combinar o plantio direto e agricultura de precisão, e fazer da indústria de cana-de-açúcar um modelo de biorrefinaria.

    No primeiro caso, o laboratório tem uma forte parceria com a Embrapa e quer trazer para a cana-de- açúcar o conhecimento já aplicado na cultura de grãos no Brasil. A ideia é conjugar esse conhecimento com métodos precisos, aumentando a produtividade da cana-de-açúcar. De acordo com Lima, as possibilidades são grandes nessa área. Um exemplo é a produtividade média de 90 toneladas de cana por hectareem São Paulo. Namesma área, ele destaca, pode haver picos de 100 a 120 t.

    “Há muito espaço para aprendizado, como se observa em experimentos da Embrapa na Bahia, onde a cana irrigada pode passar de 200 t/ha”, informa o especialista. Ele destaca que os avanços conseguidos pelo Brasil podem ser ainda maiores. Foi a maturidade do setor que permitiu alcançar um aumento de 125% na produtividade da cana desde 1975. Mesmo assim, vários desafios ainda precisam ser vencidos, por exemplo, o manejo do solo.

    Já o conceito de biorrefinaria significa que uma usina integrada pode produzir açúcar, etanol, eletricidade e ainda atrair indústrias químicas e fazer com que se produzam blocos químicos (building blocks) de origem natural e renovável. “Isso pode levar a uma mudança ainda mais forte na produtividade em litros de etanol por hectare de terra”, explica.

    Petróleo & Energia, Etanol - Avanço tecnológico vai do plantio até biorrefinaria

    Ter resíduos nas usinas também é uma vantagem

    Manoel Regis Lima Verde Leal, especialista da área de sustentabilidade do CTBE, complementa as avaliações de Lima. Ele destaca que 70% dos custos de produção de etanol estão ligados aos processos agrícolas, o que torna essa área estratégica para os produtores. “O processamento industrial da primeira geração de etanol está dominado e há pouca margem para otimização, tornando as pesquisas na área agrícola ainda mais relevantes”, explica.

    Um exemplo é a aplicação de novas variedades mais adaptadas às novas fronteiras abertas no Centro- Oeste e, em menor escala,em Minas Gerais.“Tivemos um grande avanço na década de 1990, que foi o gerenciamento, ou seja, usar variedades melhores, plantar na hora certa, adubar de forma correta. Esse conhecimento acumuladoem São Paulopode ser transferido para outras regiões, mas uma série de diferenciais deve ser considerada”, adverte.

    Ele lembra que a cana-de-açúcar tem um ciclo bem definido, começando com um período quente e úmido, de dezembro a março. Ela adquire peso, mas tem pouco açúcar. Na seca e com o frio, o vegetal entra em “estresse” e começa a armazenar açúcar (sacarose). Em abril, o nível de açúcar pode chegar a 12,5%, sendo que o pico acontece de agosto a setembro, quando a porcentagem vai a 15%-16%. “No Centro-Oeste há períodos secos maiores, embora o índice pluviométrico seja similar ao de São Paulo. Lá, é de quatro a cinco meses sem chuva, o que é demais para algumas variedades de cana. É um estresse hídrico que, se não matar a planta, pode enfraquecê-la”, explica.

    Como a maturidade de um ciclo de variedades pode levar de10 a15 anos, ele avalia que o investimento nesse tipo de pesquisa é vital, até mesmo com a participação ativa de melhoristas experimentados, profissionais que estudam a fundo o processo. “É a etapa mais cara da pesquisa, porque demanda mão de obra especializada, material genético para fazer as melhorias, manter estações experimentais, entre outros fatores”, complementa.

    Um exemplo real de tecnologia adaptada ao Centro-Oeste é a usina Boa Vista, que pertence à Nova Fronteira, joint venture entre o grupo São Martinho e a Petrobras Biotecnologia. De acordo com a Boa Vista, a irrigação faz parte do processo de plantio da cana-de-açúcar na empresa, mecanismo que ajuda a vencer o longo período de seca. A usina também investe na adequação de novas variedades de cana.

    Outra característica de Boa Vista é que ela é uma unidade nova, tendo sido inaugurada em 2008. Por isso, o plantio ocupa principalmente áreas de pastagens degradadas, fato que inviabiliza o plantio direto. Para minimizar essa característica, a empresa tem investido na rotação de culturas. Em 2010, por exemplo, foram cultivados três mil hectares com cereais, que receberam o plantio de canaem seguida. Jáem 2011, este índice saltará para 12 mil hectares, segundo a empresa.

    A mecanização agrega outra frente de estudos de melhoria, no caso da cana-de-açúcar. O CTBE, por exemplo, desenvolve, em parceria com a Jacto, fabricante de equipamentos, um maquinário que reduz a compactação do solo. O novo equipamento permitirá um espaçamento ajustável para a colheita mecanizada da cana e poderá incluir mecanismos como o GPS, favorecendo a agricultura de precisão. A iniciativa ataca de frente a redução de produtividade causada pela compactação das camadas do solo.



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