Eólica – Energia dos ventos mostra força e baixa o preço nos leilões de eletricidade

O anúncio de que o leilão de Energia A-5, marcado para dezembro e voltado para o atendimento do mercado em 2016, estará aberto para o setor eólico foi mais um sinal dos bons ventos que sopram nesse setor. Os contratos de compra e venda de energia desse leilão terão prazo de 20 anos para todas as fontes, exceto a hídrica, que terá contratos de 30 anos de duração.

A Portaria nº 498/11, do Ministério de Minas e Energia (MME), que abriu espaço para o setor eólico, foi publicada praticamente uma semana depois dos leilões de Energia A-3 e Reserva de 2011, nos quais foi contratada uma capacidade instalada de 3.962,7 MW (com garantia física de produção de 2.284,4 MW médios), referente a 92 projetos de geração elétrica de fontes eólica, gás natural, biomassa (bagaço de cana-de-açúcar e resíduos de madeira) e hídrica.

O grande destaque nos processos licitatórios foi justamente o setor eólico, que negociou 1.928 MW a um preço médio inferior a R$ 100 por MWh e um total de 78 novos parques. Os investimentos totais na construção dos 92 projetos vencedores dos dois leilões somam R$ 11,2 bilhões – dos quais uma fatia expressiva se refere aos novos parques eólicos.

Logo após esse “vendaval” nos leilões de energia, os principais players do mercado dos ventos se reuniram na Brazil WindPower Conference & Exhibition (BWP 2011), promovida pela Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) e o Global Wind Energy Council (GWEC), entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro, no Centro de Convenções SulAmérica, no Rio de Janeiro. O BWP 2011, que teve como tema “Construindo um mercado de 20 GW”, é a principal conferência e feira de negócios do calendário mundial do setor eólico voltada para o mercado latino-americano.

Ironicamente, faltou energia no recinto da conferência em razão de problemas nas linhas de transmissão, mas isso não esfriou o clima de bons negócios e grandes perspectivas. E tem ainda o apoio do governo. Até mesmo do ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, que antes apenas sorria quando lhe falavam sobre o potencial eólico, imerso nos sonhos do petróleo do pré-sal, e hoje virou entusiasta dessa fonte energética.

Expansão acelerada – Na cerimônia de abertura da Brasil WindPower 2011, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, afirmou que a geração eólica nacional será sete vezes maior até 2014, saindo dos atuais 1.114 megawatts (MW) para 7.098 MW. Ou seja: o país vai ter um incremento anual de 2 MW por ano.

“O mundo inteiro está olhando para o avanço da energia eólica no Brasil. Temos mais de um gigawatt (GW) instalado e vamos multiplicar isso por sete, pois já temos volume contratado [em leilões] até2014”, afiançou Tolmasquim. Hoje a geração eólica representa 0,99% da matriz energética e em 2014 representará 5,4%. Atualmente, o país conta com 57 parques eólicos em produção e tem 30 em construção, implicando investimentos da ordem de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões.

Petróleo & Energia, Eólica - Energia dos ventos mostra força e baixa o preço nos leilões de eletricidade
Setor em expansão atraiu visitantes para a feira

Os números anunciados pela EPE demonstram o crescimento do setor no Brasil, a partir de 2005, quando começou a escalada eólica e a redução paulatina no preço do MW, que caiu de R$ 300, há seis anos, para R$ 99,50 no leilão de agosto. “Os preços estão caindo”, comemora o presidente da EPE.

Dados de organizações internacionais comprovam essa afirmação. No All Renewables Index, da consultoria internacional Ernst & Young, de agosto deste ano, o Brasil avançou para a 11ª posição no ranking mundial de países que usam fontes renováveis de energia e ficou em 14° lugar, entre os que têm geração eólica (e 16ª posição no segmento solar).

Em março deste ano, o relatório Who’s Winning the Clean Energy Race? (Quem está vencendo a corrida pela energia limpa?), publicado pela organização não governamental norte-americana Pew Charitable Trusts, o Brasil ficou em sexto lugar no ranking dos países que mais investem em energias limpas, com investimento de U$ 7,6 bilhões em 2010. Desse total, 40% foi destinado aos biocombustíveis, 31% para a energia eólica e 28% para outras fontes.

O incremento no país nas plantas geradoras de energia oriunda dos ventos é explicado por alguns fatores. “A tecnologia está em contínua evolução. As torres hoje são muito mais elevadas: passaram de50 metrospara até120 metrosde altura. E o aumento da capacidade unitária dos geradores ajudou a reduzir os custos”, afirmou o secretário de Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia, Altino Ventura.

A economia de escala, por conta do aumento da demanda interna por essa energia, favoreceu a competitividade do setor. “Hoje temos vários fabricantes operando no país e outros que estão vindo para se instalar aqui, a fim de atender não somente à demanda interna, mas também o mercado internacional”, concluiu Ventura.

O otimismo no setor encontra eco no meio acadêmico. O professor de planejamento energético Roberto Schaeffer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observa que o setor recebeu pouco mais de dois bilhões de dólares de investimentos em 2010. “É pouco se comparado à China, Estados Unidos ou Alemanha. O Brasil mal está começando a desenvolver a energia eólica, mas, de uma base pequena, já está crescendo”, avaliou, lembrando que a energia eólica deixou de ser cara no Brasil. “Ela é ainda mais competitiva até mesmo em relação à energia nuclear, a termelétrica a carvão ou a gás”, comparou Schaeffer. “O futuro da eólica no Brasil é brilhante.”

Petróleo & Energia, Roberto Schaeffer, Professor de planejamento energético da UFRJ, Eólica - Energia dos ventos mostra força e baixa o preço nos leilões de eletricidade
Schaeffer: energia eólica provou ser competitiva

Potencial eólico – O enorme potencial eólico do país é outro fator que atrai investidores. “O Brasil possui uma enorme vantagem em relação à disponibilidade de recursos energéticos, renováveis ou não; e, em especial, possui um enorme potencial eólico”, destacou Élbia Melo, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), que assumiu o comando da entidade no período da WindPower.

Ela revela que o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro de 2001 estimava o potencial brasileiro em 143 GW, mas hoje projeta mais do que o dobro, passando dos 300 GW. “Enquanto outros países estudam como diversificar suas matrizes renováveis, o Brasil possui a vantagem de ter uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo e com grande potencial para mantê-la limpa”, ressaltou a dirigente.

Essa manutenção estaria respaldada também na energia eólica, que, além de renovável e com baixos impactos ambientais, já está com preço competitivo em relação às demais fontes de eletricidade, como foi possível aferir nos últimos leilões realizados no país.

Mais otimista que a EPE, a ABEEólica faz projeções da energia dos ventos que impressionam os analistas. “Segundo o PDE 2020 (Plano Decenal de Energia), o Brasil terá 11,5 GW de capacidade eólica instalada até 2020. No entanto, acreditamos que essa capacidade poderá chegar a 20 GW”, afirma Élbia Melo. Esse volume equivale a quase uma vez e meia a capacidade total de produção da gigantesca Usina Binacional de Itaipu.

Segundo a dirigente, o Brasil possui recursos eólicos não só em quantidade, mas também em qualidade, que seriam superiores aos de outros países que adotam intensivamente esse recurso em sua matriz, como os europeus. “Os ventos no Brasil, além de abundantes, possuem velocidades e direção mais homogêneas, com menor incidência de mudanças bruscas na velocidade”, explicou.

Calmarias estruturais e regulatórias – Que o mercado está aquecido, ninguém nega, mas há desafios a superar. O maior deles se relaciona à logística e à infraestrutura, tanto no que diz respeito à instalação de fábricas de equipamentos como dos parques eólicos, uma vez que movimentam peças gigantescas (como as pás), entre outros.

“Assim como qualquer outro empreendimento, os parques eólicos dependem de licenças ambientais que são concedidas após o estudo da viabilidade ambiental de implantação do projeto no local escolhido”, detalha Élbia Melo. “Locais com ecossistemas sensíveis e/ou protegidos por lei podem não estar disponíveis para a implantação de um parque eólico.”

Ela assegura que tudo isso vem avançando, pois há inúmeros estudos que demonstram que se trata de uma fonte com baixos impactos ambientais. “Estudos de avaliação do ciclo de vida dessa tecnologia mostram que as emissões de gases de efeito estufa relacionadas à fabricação e transporte dos equipamentos são neutralizadas com apenas seis meses de operação de um aerogerador, já que essa tecnologia não gera emissões em sua operação”, observou.

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Montagem de gerador no parque de Cerro Chato-RS

“Além disso, a implantação dos parques eólicos gera baixos impactos na construção”, disse ela, acrescentando que o ambiente no qual são instalados os aerogeradores se regenera com rapidez. “Em relação às emissões de ruídos, as novas tecnologias de aerogeradores já conseguiram diminuir este impacto, e as novas turbinas emitem menos ruído que, por exemplo, um escritório”, concluiu a presidente da ABEEólica.

Marco regulatório – Com o objetivo de superar as “calmarias” nesse segmento, durante o WindPower a entidade e seu parceiro no evento, o Global Wind Energy Council (GWEC), lançaram o relatório “Uma análise do marco regulatório para a geração de energia eólica no Brasil.” O estudo avalia os efeitos das abordagens regulatórias até o momento, analisa o mercado e a indústria, aponta obstáculos e desafios e oferece recomendações para melhorias legislativas.

De acordo com os organizadores, dois modelos bem diferentes têm estimulado o crescimento da energia eólica: o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), criado em 2002, e os leilões regulados, que vêm ocorrendo desde o final de 2009. Ainda faltam 12 parques, que somariam 453,5 MW, para o Proinfa ser concluído. Mas os resultados das duas ações criaram a expectativa de que mais de 5.000 MW de energia eólica poderão ser instalados no Brasil até o final de 2013.

“Os leilões e o Proinfa garantiram contratos de investimentos para gerar 500 MW, sem contar os próximos leilões que ocorrerão neste ano”, observou Steve Sawyer, secretário-geral do GWEC, que está otimista com o Brasil, onde há o compromisso oficial de promover leilões de mesmo porte a cada ano.

“O maior sinal de que o país segue no caminho certo é o fato de que, desde o primeiro leilão (em dezembro de 2009), vimos Alstom, Gamesa, GE, Siemens, Suzlon e LM Glass Fiber, os maiores integrantes desse setor, assumindo compromissos de investir e, acredito, isso será rápido”, disse o especialista.

Os investidores estão animados também com os resultados. “A taxa de geração de energia de uma turbina de um MW é, aproximadamente, 27% da sua capacidade plena, considerando a média anual de diversas usinas no mundo. No Brasil, há locais em que essa taxa chega a 45% ou 50%. As melhores locações ficam no Ceará e no Rio Grande do Norte, com duas vezes mais capacidade de geração que a Alemanha”, concluiu Sawyer.

Potencial elevado – Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física, de autoria de pesquisadores do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indica a capacidade de geração eólica dos ventos no Brasil. Em nada menos que 71 mil km² do território nacional, em sua quase totalidade na costa do Nordeste, a velocidade dos ventos é superior a sete metros por segundo. Isso geraria um potencial eólico de 272 terawatts-hora por ano (TWh/ano) de energia elétrica. Uma cifra significativa, considerando que o consumo nacional de energia elétrica é de 424 TWh/ano, como aponta o estudo.

A colheita dos ventos já começou e promete safras bem interessantes para os próximos anos. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que atualizou no dia 20 de setembro o seu mapa da capacidade de geração elétrica instalada ou em implantação no país, há 59 projetos eólicos em operação, com capacidade outorgada de 1.179.138 kW, que representam apenas 0,99% da energia gerada no país e investimentos em torno de R$ 30 bilhões.

No entanto, há outros 29 empreendimentos eólicos em construção, com potência outorgada de 763.390 kW. Eles representam quase 5% do total de geração de 139 projetos em andamento (incluindo pequenas centrais hidrelétricas, usinas hidrelétricas e térmicas), que somam 156.734.521 kW.

A energia eólica tem um percentual ainda maior no total de empreendimentos outorgados entre 1998 e 2010, que ainda não tiveram a construção iniciada: dos 517 projetos, com capacidade total de 34.909.807 kW, 133 são de geração eólica com capacidade para 4.214.608 kW, representando 12% do total. Um indicador concreto do quanto vai crescer esse segmento, levando-se em consideração apenas as iniciativas que ainda não saíram do papel, mas que já foram licitadas.

De olho nesse mercado, alguns gigantes do setor vêm reforçando suas operações e firmando alianças estratégicas para abocanhar um fatia maior desse segmento energético, que vai de vento em popa, e que pode faturar R$ 3 bilhões, em 2014, nas projeções da ABEEólica.

Argentina verde-amarela – Foi esse potencial gigantesco que atraiu a atenção de uma empresa da Argentina: o grupo Impsa, que há cerca de três décadas começou a atuar no Brasil, no setor de energia, fornecendo equipamentos para usinas hidrelétricas. “Estamos aqui praticamente desde o início do Mercosul, com forte presença em diversos projetos hidrelétricos do país”, afirmou o vice-presidente da Impsa Wind, José Luis Menghini, em um português claro, pontuado com o típico sotaque argentino.

A multinacional argentina, que atua em três dezenas de países e já superou US$ 1 bilhão em faturamento, opera no Brasil duas de suas maiores plantas fabris: uma de equipamentos para o setor hidrelétrico e a outra, para geração eólica – ambas instaladas no Complexo de Suape,em Pernambuco. Afábrica nordestina de equipamentos eólicos é a mais moderna do grupo, que nasceu em 1943, em Mendoza, e hoje tem um toque bem brasileiro. “Somos hoje mais brasileiros que argentinos”, brincou o executivo.

Os números do sucesso dessa empresa no Brasil indicam que, em se tratando de negócios, é possível deixar de lado a velha rivalidade do futebol. É vencedora a aposta verde-amarela da Impsa no mercado eólico, fornecendo aerogeradores e atuando na geração de energia, através da subsidiária Energimp.

Petróleo & Energia, José Luis Menghini, Vice-presidente da Impsa Wind, Eólica - Energia dos ventos mostra força e baixa o preço nos leilões de eletricidade
Menghini: atuação incisiva comprova desejo de ampliar a geração local

Com uma carteira de projetos que soma cerca de 923 MW (incluindo os dos últimos leilões, A-3 e de reserva), o grupo espera encerrar o ano com mais de 300 MW eólicos instalados no Brasil. E com quase o dobro da capacidade produtiva na planta pernambucana, que vai saltar de 300 para 500 aerogeradores por ano.

Em2011, aprodução fabril teve como foco abastecer os parques eólicos que a Energimp está implantando nos estados de Santa Catarina e Ceará. Com a perspectiva de crescimento do mercado eólico, a Impsa decidiu se expandir ainda mais. Até o final do ano serão investidos mais de R$ 35 milhões em inovação e desenvolvimento, infraestrutura, equipamentos, treinamento de mão de obra e na expansão da planta nordestina, que também vai fabricar turbinas hidráulicas e geradores elétricos para a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

Além das fábricas, o grupo avalia a possibilidade de abrir um escritório local de engenharia para reforçar o suporte à implantação de grandes projetos no mercado eólico, como o de Ceará I, de 100 MW, além de empreendimentos em outros segmentos do setor energético, como o hidrelétrico, o nuclear, e o de petróleo e gás. Também poderá atender o mercado petroquímico, aproveitando o fato de estar tão próxima da Refinaria Abreu e Lima (Rnest). Por esses fatores, Pernambuco tem grandes chances de ser o local escolhido, mas a empresa argentina ainda não bateu o martelo.

“Nossa atuação em todos os leilões e os investimentos feitos no país são indícios mais do que claros de que pretendemos continuar nossa expansão no país de forma incisiva, tanto no fornecimento de equipamentos como na geração eólica”, observou Menghini. Maior prova disso é que a subsidiária Energimp tem um por- tfólio de projetos que soma mais de 2.000 MW, em diversos estados brasileiros, para disputar as futuras licitações no setor de energia.

Forte investida – Prestes a completar cem anos de atividades no Brasil, onde ingressou em1919, a GE Energy, do grupo norte-americano General Electric, é uma das que disputam esse mercado. Fiel ao nome, essa unidade de negócios da empresa para o setor eólico está atenta aos bons ventos no mercado brasileiro, no qual já atuam com força algumas de suas principais concorrentes.

Responsável pela produção de 25% da eletricidade mundial e uma das maiores fornecedoras de turbinas eólicas no mercado internacional, a grande aposta da empresa é a GE 1.6 MW-100, exibida na WindPower. A empresa classifica o equipamento como o mais eficiente da sua categoria, com capacidade de gerar oito GWh de energia (o suficiente para abastecer mil casas), baixo ruído durante o funcionamento e 98% de produtividade no ano.

“Essa turbina conta com um rotor maior, o que permite, em algumas regiões do Brasil, como o Rio Grande do Norte, fator de capacidade bruto acima de 60%, aumentando assim a produção anual de energia”, disse Jean Claude Robert, líder da GE Wind para a América Latina. “Nos próximos dois anos, a nossa previsão é fornecer em torno de 700 turbinas de energia eólica das linhas 1.5 MW e 1.6 MW para o mercado brasileiro”, calcula o executivo.

Essa aposta está respaldada na atuação da empresa em 21 países, onde tem mais de 16 mil unidades instaladas, 163 mil GWh de energia gerada e equipamentos com capacidade de1.5 a4.1 MW. A novidade é que as turbinas da GE poderão ser montadas no país. Na última década a empresa investiu pesado para desenvolver e preparar fornecedores no país, que com a parceria estão exportando componentes para outros mercados.

[toggle_simple title=”Pioneiro mantém o ritmo e fecha novos contratos” width=”Width of toggle box”]

A Bioenergy, uma das pioneiras no Brasil na geração de eletricidade oriunda da força dos ventos, também continua ampliando sua participação no mercado. Fôlego para crescer não falta, assim como os ventos que varrem o país. Em outubro ela vai inaugurar a primeira das nove unidades do parque eólico que está sendo instalado no Rio Grande do Norte, com as consorciadas Furnas e Eletronorte. O projeto foi viabilizado pela venda, em 2009, de 218 MW à Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Foi o primeiro contrato fechado no país, para venda de energia no mercado livre (que não é regulado pelo governo) e tem duração de 20 anos. Os parques serão erguidos nos municípios de Galinhos, Guamaré, Caiçara do Norte e Pedra Grande, com investimento de R$ 1,2 bilhão.Petróleo & Energia, Sérgio Marques, Presidente da Bioenergy, Eólica - Pioneiro mantém o ritmo e fecha novos contratos

No Leilão de Energia A-3, realizado em agosto, ela comercializou projetos de energia eólica nos campos de Caiçara 1 e 2, e Miassaba 4, localizados no município potiguar de Caiçara do Norte, que somam 86,4 MW. “Desse modo, conseguimos reforçar a nossa participação no mercado e assegurar recursos que não comprometem a nossa rentabilidade”, afirmou Sérgio Marques, presidente da Bioenergy.

No primeiro semestre, a empresa fechou contrato com a GE para adquirir 18 turbinas eólicas ainda em 2011, 36 em 2012 e uma opção de compra de até 250 unidades para 2013. Os equipamentos vão atender os projetos comercializados nos leilões de 2009 e 2010, incluindo o parque eólico potiguar, que tem investimentos previstos da ordem de R$ 1,7 bilhão.

Mais um passo decisivo para a expansão da empresa fundada em 2002, e que hoje tem projetos em carteira que somam 1,5 mil MW, incluindo iniciativas no estado do Maranhão.

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Com o mercado aquecido, ela pretende instalar uma fábrica de aerogeradores no Brasil. Já houve informações, ainda não confirmadas, de que a nova planta poderá ser implantada na Bahia, um dos mercados alvo da GE nesse segmento. Em Campinas-SP, a empresa já tem uma unidade de integração de equipamentos para geração eólica. O objetivo é obter um índice de nacionalização superior a 60%, que a habilitaria a participar de financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Disputa acirrada – Mas a disputa não será fácil. Também estão fazendo uma aposta pesada nesse mercado outras grandes fabricantes de turbinas eólicas, como a dinamarquesa Vestas. A empresa atua há dez anos no país, tem uma carteira de encomendas para os parques eólicos que totaliza 380 MW e almeja, até 2015, conquistar a liderança do mercado, hoje nas mãos da argentina Impsa.

Com base nos leilões de energia realizados até o ano passado, a empresa ocuparia a quarta posição, com 14,9% do mercado e 799,6 MW instalados, depois da Impsa, Wobben (uma das pioneiras no Brasil) e da GE. E é seguida de perto pela Suzlon, que aparece na quinta posição.

Em agosto a empresa anunciou a instalação de uma planta fabril no Ceará, que deverá entregar as primeiras peças no final do ano: as naceles – a estrutura no topo da torre onde a turbina eólica é acoplada. A nova fábrica poderá produzir até 400 naceles por ano, o que representa um potencial de geração de 800 MW.

As pás e os hubs (estruturas que unem o nacele às pás) ainda serão importados. Mas, segundo Marcelo Hutschinski, diretor de vendas da Vestas do Brasil, a empresa pretende desenvolver tecnologias específicas para os ventos brasileiros, que possibilitariam produzir pás e hubs no país. “Tudo depende do volume de megawatts que será adquirido nos próximos leilões”, ponderou.

A empresa já pode recorrer a financiamentos do BNDES, pela linha do Finame, graças à parceria com o grupo espanhol Gonvarri, com o qual mantém unidades fabris em Pernambuco para construir torres eólicas com um índice de nacionalização superior aos 60%, para máquinas e equipamentos.

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Aerogerador GE com rotor de 100 m, para 1,6 kw

A Vestas não revelou o valor do investimento na fábrica brasileira, que está sendo instaladaem Fortaleza-CE. Masjá adiantou que terá um novo centro de operações, com três unidades dedicadas a serviços de manutenção, bem como reposição de peças e atividades de logística. Ao mesmo tempo, a empresa trabalha na montagem de uma rede de fornecedores locais de componentes, peças sobressalentes e serviços, com vistas à produção nacional de turbinas.

Parceira brasileira – Na mesma trilha segue a indiana Suzlon, que iniciou suas operações no país em 2006 e hoje opera 11 parques eólicos, com capacidade instalada de 388 MW. Em agosto ela firmou uma parceria com a brasileira Aeris Energy, para dar a partida em uma linha conjunta de pás eólicas no Brasil, também no Ceará. A previsão das duas parceiras é entregar as primeiras unidades em janeiro do próximo ano.

Uma das cinco maiores fornecedoras de aerogeradores mundiais, em termos de capacidade instalada, a Suzlon fará investimentos da ordem de R$ 10 milhões em maquinário, moldes das pás (um dos pontos altos da tecnologia de um aerogerador), equipamentos auxiliares, treinamento e suporte técnico, projeto de engenharia e processo de certificação de qualidade.

A Aeris Energy, companhia paulista que está finalizando sua fábrica de pás para aerogeradores no Complexo de Pecém, no Ceará, responderá pela fabricação, contratação de pessoal das linhas de produção, processos administrativos e engenharia de processos. O empreendimento está orçado em R$ 50 milhões – dos quais uma parte substancial será financiada pelo Banco do Nordeste (BNB). A unidade deverá produzir 720 pás de50 mcada, por ano.

“Poderemos trazer nossos investimentos para o Brasil e para o Ceará mais cedo do que o previsto, pois a estrutura industrial da Aeris já está na etapa final”, destacou Arthur Lavieri, diretor presidente da Suzlon Brasil. “A parceria com uma empresa respeitada como a Suzlon prova que estamos no caminho certo para apoiar o rápido crescimento das empresas de energia eólica”, complementou Bruno Vilela, diretor executivo da Aeris.

A linha de produção de pás da Suzlon começa a ser montada em outubro, com a chegada do primeiro molde de grande porte para as pás, e o início das operações está previsto para janeiro do próximo ano. Além da proximidade com os principais polos de geração eólica do país, no nordeste brasileiro, a localização da fábrica assegurará às duas parceiras maior agilidade nas vendas, uma vez que dispõe de infraestrutura portuária e acesso a outros mercados, brasileiros e internacionais.

Sem freios nos negócios– Além dos grandes equipamentos, o mercado aquecido abriu oportunidades para toda uma cadeia de fornecedores de bens e serviços nesse segmento. É o caso da alemã Vulkan, que há 35 anos atua no Brasil, com duas fábricasem São Paulo (Itatiba e Barueri). Em 2003, com a aquisição da francesa SIME, que dispunha de fábrica e engenharia local, tornouse uma das principais especialistas em sistemas de frenagem industrial no mercado nacional, oferecendo soluções completas para transmissão de potência.

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A indiana Suzlon firmou parceria com a Aeris

Uma das empresas do grupo, a Vulkan SeaCom, criada em 1996, levou para a WindPower 2011 o sistema MDSWind, de monitoramento das condições de trabalho de geradores eólicos a distância. “A versão mais atualizada do sistema já está instalada no mercado há aproximadamente quatro anos, porém a versão anterior já está há bem mais tempo”, explicou a gerente de marketing da Vulkan, Elisângela Santos.

Diferentemente dos sistemas de monitoramento existentes no mercado, mais focados em análise da fábrica toda e acionamento de máquinas, segundo ela, o Sistema MDSWind faz a análise das vibrações de equipamentos específicos do gerador eólico e transmite esses dados em tempo real, possibilitando ao operador uma ação preventiva para evitar danos ou perda dos mesmos.

Disponível no mercado brasileiro desde 2002, essa solução reforça a expertise da empresa no segmento de geração eólica, onde atua há quase uma década. “Iniciamos nossa entrada nesse mercado com os freios hidráulicos a disco usados no giro de turbinas, e que já estão presentes em diversos parques eólicos do país”, pontuou a gerente.

Agora que já dispõe de uma das principais certificações do setor (GL – Germanischer Lloyd Industrial Services GmbH Renewables Certification) para toda a sua linha de freios de giro e de freios rotor, a empresa quer reforçar a sua atuação comercial nesse segmento, que tem alto índice de nacionalização. “As linhas de freios e acoplamentos já são produzidas aqui, embora os amortecedores sejam fabricados na nossa unidade da Itália. O sistema MDSWind ainda tem alguns componentes importados, mas a análise de dados já é feita no Brasil”, salientou Elisângela Santos.

Petróleo & Energia, Elisângela Santos, Gerente de marketing da Vulkan, Eólica - Energia dos ventos mostra força e baixa o preço nos leilões de eletricidade
Elisângela: sistema monitora os aerogeradores a distância

Com a expectativa de novos negócios, a empresa inaugurou em agosto um novo Centro de Serviços em Itatiba para atender o aumento da demanda de reformas de freios e sistemas de acionamentos, que não são provenientes do setor de energia eólica especificamente. “Temos sim planos de construção de uma nova fábrica no futuro. Porém isso depende de alguns sinais do mercado e da decisão da nossa matriz”, concluiu.

Expertise local – As empresas brasileiras também vêm ganhando espaço nesse mercado, quer seja no fornecimento de equipamentos, quer seja na parte de engenharia e consultoria. Quem viu o grande potencial do mercado e decidiu dar um passo fora do meio acadêmico foi o professor adjunto da pós-graduação em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Luiz Cézar Pereira, sócio-fundador da Enersud.

Com experiência em engenharia elétrica, com ênfase em tecnologias alternativas de geração de energia, ele tem forte atuação nas áreas de planejamento, avaliação de impacto ambiental, análise energética, educação ambiental e fluxos de energia. Expertise que ajudou a posicionar a Enersud como uma empresa de ponta em soluções energéticas. Criada em 2001, a empresa fabrica e comercializa equipamentos voltados para a geração de energia obtida de fontes renováveis, sendo a fornecedora do maior número de sistemas eólicos de pequeno porte instalados no país.

Petróleo & Energia, Luiz Cézar Pereira, Sócio-fundador da Enersud, Eólica - Energia dos ventos mostra força e baixa o preço nos leilões de eletricidade
Pereira: foco nos sistemas de pequeno porte

“O que torna a geração eólica mais atrativa é ser uma opção nova, com grande potencial de ganho de eficiência”, diz Pereira. Segundo ele, o país adotou para esse mercado estratégia idêntica à da indústria automobilística na década de 70. “Naquela época, Coreia e Brasil faziam suas apostas. Hoje, o Brasil pode se orgulhar de produzir mais de três milhões de carros por ano, de origem americana, francesa, alemã e coreana. E os chineses estão chegando”, disse. “Estamos tentando viver uma história diferente no campo da eólica de pequeno porte”, afirmou, revelando que esses sistemas são economicamente viáveis. “A menor turbina que comercializamos é de 350 W e custa menos de R$ 3.000,00. A menor turbina que eu já vi tinha 50 W. Normalmente os fabricantes de pequenas turbinas começam entre 250 e 500 W para suas menores máquinas”, concluiu.

Outra brasileira que vem ampliando sua participação nesse mercado é a cearense Mercurius Engenharia, apontada como a empresa com maior expertise na construção de usinas eólicas pelo país. E, sem ir muito longe, uma vez que está no Nordeste, região que concentra o maior potencial eólico do país, no estado que teve o primeiro projeto nesse segmento. Além dos ventos cearenses, destacam-se na região os estados do Rio Grande do Norte, Bahia e, mais recentemente, Maranhão e Piauí.

Pioneira no segmento, ela já entregou 18 parques, com capacidade instalada de 656 MW. Volume que corresponde a mais da metade da geração eólica do país, de 1.145.742 MW, de acordo com dados da Aneel. Do total de negócios da Mercurius, 80% é oriundo dos contratos fechados no segmento eólico. “As obras civis respondem apenas por 15% dos custos do projeto”, explicou o diretor Dante Bonorandi, para dar uma ideia da dimensão desses empreendimentos.

Petróleo & Energia, Dante Bonorandi, Diretor, Eólica - Energia dos ventos mostra força e baixa o preço nos leilões de eletricidade
Bonorandi: número de projetos vai aumentar nos próximos anos

As perspectivas futuras são ainda melhores. “O número de projetos continuará aumentando nos próximos anos. E mais parques terão que ser entregues, dentro dos prazos exigidos”, disse o executivo, que já está em negociação com as empresas vencedoras dos últimos leilões. A empresa tem atualmente cinco projetos em carteira: o parque eólico de Renova, na Bahia; três parques da Impsa, no Ceará; e o de Mangue Seco, no Rio Grande do Norte. Juntos, eles vão produzir mais 434,2 MW. O parque Renova, que sozinho vai gerar cerca de 360 MW, será o maior da América Latina, superando até o de Alegria (de 151 MW, em operação no Rio Grande do Norte).

Suporte jurídico – O segmento de consultoria, seja ambiental, técnica, regulatória ou de engenharia, também vem ganhando energia com a expansão da geração eólica no país. Principalmente no que diz respeito aos desafios decorrentes da tributação. É o caso de Becker, Pizzatto e Advogados Associados, idealizador e fundador da Wind Energy Brazil (WEB), uma rede nacional de escritórios que prestam assessoria jurídica a investidores e empresários do setor eólico.

“Quando se fala em Brasil como oportunidade para estrangeiros, o maior desafio é sempre a carga tributária. Há que se reconhecer os benefícios já existentes (como a isenção de ICMS para equipamentos eólicos), mas a carga tributária ainda pesa para o desenvolvimento do mercado”, destacou a advogada Marília Bugalho Pioli, coordenadora das áreas de Direito Público e de Energia Eólica do escritório.

Para ela, a desoneração tributária é apenas um pequeno trecho do caminho, formado ainda por questões ligadas à infraestrutura, ao meio ambiente, aos imóveis de instalação das turbinas, entre outros aspectos.

Mas já houve uma grande evolução, em todos os sentidos. “A energia eólica já foi classificada como inviável no Brasil, hoje é a mais barata. O preço médio comercializado no Leilão de Energia A-3, para a eólica, foi de R$ 99,58 por MWh (com deságio de 26,6%), enquanto a média de preço em 2010 foi de R$117,00”, detalhou, observando que, dos 44 empreendimentos eólicos vencedores no leilão, 31 usinas negociaram preços abaixo de R$ 100,00.

Para ela, ainda que não exista um compromisso formal para a realização regular de leilões para compra de energia renovável – “embora tramite no Congresso desde 2003 um projeto de lei que prevê a obrigatoriedade de realização de leilões por um período mínimo de dez anos” –, o governo parece comprometido a promover a expansão de fontes renováveis na matriz energética.

Tanto que vem realizando leilões há três anos consecutivos e já anunciou mais um para dezembro deste ano. “Quanto mais leilões são realizados, os fabricantes são mais demandados, a concorrência entre os fabricantes aumenta, os preços dos equipamentos caem e a contratação de energia aumenta”, analisou.

Destrinchando a burocracia– A expertise consolidada nesses leilões, dando atendimento a investidores estrangeiros, levou o grupo a participar da rede de assessoria jurídica aos investidores, tanto de parques eólicos quanto de empresários fabricantes de equipamentos. “O Brasil é um país muito grande, com características próprias de acordo com a região e o estado. É fundamental o somatório de esforços e de conhecimento de experts dos diferentes escritórios nas diversas regiões. Foi daí que nasceu a ideia da Wind Energy Brazil”, revelou.

Petróleo & Energia, Marília Bugalho Pioli, Coordenadora das áreas de Direito Público e de Energia Eólica do escritório, Eólica - Energia dos ventos mostra força e baixa o preço nos leilões de eletricidade
Marília: entraves do setor vão além da tributação excessiva

Ela observa que o Brasil, na área de energia, na qual há grande participação de investidores externos, tem uma legislação muito distinta da de outros países, em especial nos procedimentos e exigências da Lei de Licitações, muito formal e burocrática. “Até que um parque eólico entre em pleno funcionamento, são inúmeros os procedimentos jurídicos que precisam de atenção desde o início para evitar dissabores”, lembrou.

Um aspecto importante no planejamento de empreendimentos é a questão tributária. “Atualmente há isenção de ICMS para equipamentos eólicos, mas a carga tributária vai muito além disso”, ponderou. Isso porque há incentivos fiscais (os custos de um parque não se limitam à aquisição de equipamentos) diferenciados por estados e por regiões. “No momento de instalar uma fábrica ou de investir em um parque, a análise tributária por estado pode apresentar resultados significativos que vão interferir no lance que se dá no leilão ou no preço do equipamento”, afiançou.

É dentro desse cenário interno e da crise externa que o mercado continua a se expandir. “A crise nos mercados desenvolvidos colocou o Brasil na mira dos fabricantes de equipamentos eólicos. Com a realização dos leilões, os investidores sentem mais segurança em investir porque percebem o começo de um “mercado eólico” no país: eles vêm para o Brasil sabendo que encontrarão clientes com demanda regular”, enfatizou.

Todos esses fatores concorrem para a consolidação de um parque industrial no país. “Basta verificar a presença de fábricas já instaladas. Uma das primeiras no país data de 1995, em Sorocaba-SP, para a fabricação de pás de 40 m. Há grandes concentrações de fábricas de equipamentos (pás, torres, aerogeradores etc.) nas regiões portuárias de Suape-PE e Pecém-CE, e são várias as multinacionais presentes no país: a argentina Impsa, a americana GE, a francesa Alstom, as alemãs Wobben e Siemens, as espanholas Gamesa e Gestamp e a dinamarquesa Vestas, entre outras”, concluiu.

 

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