Entrevista: Matriz elétrica conta com a energia dos ventos

Por Marcia Mariano

Petróleo & Energia, Elbia Melo - Associação Brasileira de Elbia Melo - Energia Eólica (Abeeólica)
Elbia Melo – Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica)

A energia eólica começou a ser implantada no Brasil em 1998, mas a Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) só foi fundada em 2002. Com objetivo de divulgar e consolidar a competitividade da fonte eólica na matriz energética nacional, a entidade é presidida pela mineira Elbia Melo, 42 anos, primeira mulher a assumir o posto. Economista, com PhD pela Universidade Federal de Santa Catarina, Elbia Melo também foi a primeira mulher a se tornar Diretora da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica-CCEE (2006-2011). Em seu currículo constam cargos importantes como o de economista-chefe do Ministério de Minas e Energia, no qual participou da Reformulação do Modelo do Setor Elétrico; e da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, pelo Ministério da Fazenda. Ela iniciou carreira na Aneel e, como acadêmica, especialista em regulação e mercados de energia elétrica, escreveu tese de mestrado e doutorado nesta área, além de ter mais de 30 artigos publicados sobre o setor elétrico nos últimos anos. Nesta entrevista, Elbia Melo nos dá um panorama sobre energia eólica no Brasil.

Petróleo&Energia – Porque se interessou pela questão da energia eólica?
Elbia Melo – O interesse aconteceu de forma até natural. Fui a primeira economista a escrever uma tese de mestrado com foco em energia elétrica e, na época em que trabalhei no ministério, ajudei na formulação do Proinfra (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas), um dos primeiros marcos que a energia eólica teve no Brasil. Participei inclusive da formatação do modelo de financiamento com o BNDES para este programa. Além disso, enquanto estava na CCEE, eu participava da formulação e execução dos leilões e testemunhei, de dentro, a realização do primeiro leilão competitivo de energia eólica no Brasil.

Petróleo&Energia – Quais os principais desafios que enfrentou, e os que ainda enfrenta, no comando da entidade?
Elbia Melo – O principal desafio foi trabalhar com uma fonte de energia nova, ainda desconhecida no país, e que estava em um processo de inserção. Por conta desse cenário, foi e ainda é necessário desenvolver um aparato legal e um processo de argumentação e convencimento sobre a importância da fonte e seus benefícios para a matriz elétrica do País.

Petróleo&Energia – Quantas usinas eólicas existem no Brasil e qual a capacidade instalada hoje?
Elbia Melo – Estes números podem mudar diariamente. Atualmente temos 198 parques eólicos instalados, o que representa uma potência de 4,9 GW. Essa capacidade representa, hoje, 4% da matriz elétrica brasileira.

Petróleo&Energia – A fonte eólica é considerada energia limpa e ecológica por não gerar emissões na atmosfera?
Elbia Melo – É importante informar que a fonte eólica não reduz as emissões de CO2, mas que ela não emite gases com efeito de estufa (entre eles o CO2) na fase de operação das usinas. Porém, os gases emitidos na operação de outras usinas e outras atividades antropogênicas continuam dispersos na atmosfera. Podemos informar que, com a capacidade instalada de 4,9 GW, a fonte eólica evita anualmente que mais de 4 milhões de toneladas de dióxido de carbono sejam lançadas na atmosfera.

Petróleo&Energia – É uma energia cara para o consumidor? Qual a diferença entre o custo da tarifa de eólica e a de energia convencional (hidrelétrica)?
Elbia Melo: A fonte eólica é a segunda fonte mais competitiva no Brasil, comercializada em média a R$ 130,00/MWh, sendo que a mais competitiva é a hidrelétrica de grande porte, comercializada em média a R$ 90,00/MWh. Neste aspecto é necessário esclarecer que as tarifas de eletricidade são estabelecidas pelas concessionárias de energia, que repassam o valor da energia comercializada, para os diversos tipos de consumidores, como os residenciais e os industriais.

Petróleo&Energia – Como é medida a energia dos ventos? No Brasil quais as regiões, além do Nordeste, são propícias para fonte eólica e como é distribuída para o consumo?
Elbia Melo – A velocidade do vento, fator gerador da energia eólica, é medida por anemômetros. Para se conhecer o potencial eólico de uma região, antes da implantação dos parques, são instaladas torres anemométricas, que coletarão dados por pelo menos três anos seguidos, com vistas a obter informações estatísticas confiáveis para a identificação segura do potencial eólico do local. O estado brasileiro com maior capacidade instalada é o Rio Grande do Norte, seguido do Ceará, Bahia e Rio Grande do Sul. Hoje, com as medições feitas a 100 m de altura, estima-se que o potencial eólico brasileiro seja superior a 300 GW. Com relação ao abastecimento, pela conformação do sistema elétrico brasileiro de comercialização regulada, não é possível saber se a energia eólica atende mais a residências ou a indústria. Assim que é gerada, a energia é distribuída por meio do Sistema Interligado Nacional (SIN) e é consumida indistintamente pelos consumidores deste sistema.

Petróleo&Energia – O que é Plano Decenal de Energia – PDE 2022 e qual a relação com o setor eólico em termos de crescimento?
Elbia Melo –  É um estudo realizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) cujo principal objetivo é caracterizar o consumo e a geração de energia para o Brasil em um cenário de 10 anos. Neste documento foi publicada uma expectativa de crescimento de diversas fontes, inclusive da fonte eólica. Em 2012, a fonte eólica representava 1,5% da matriz elétrica brasileira, com 2 GW. De acordo com o estudo, em 2016 deverá passar para 7,3% (11 GW) e atingir 9,5% (17 GW) em 2022.

Petróleo&Energia – O que isso representará em termos de abastecimento, ou seja, quantas casas mais poderão ser iluminadas, quantas indústrias, etc., nos próximos anos, por exemplo?
Elbia Melo – Com um consumo residencial médio de 139 kWh/mês em 2005, por exemplo, a geração realizada nesse período foi capaz de representar o abastecimento de quase 56 mil residências. Para 2018, supondo um consumo residencial médio de 170 kWh/mês e estimando a geração da capacidade instalada prevista a um fator de capacidade de 40%, podemos dizer que nesse período a geração dos ventos será capaz de abastecer cerca de 25 milhões de residências em todo o Brasil. A fonte eólica já contribui para a matriz elétrica brasileira. O ideal é que haja um mix energético entre as fontes disponíveis, com a finalidade de aumentar a segurança no suprimento de energia. Deste modo, os parques eólicos geram mais energia no período seco do ano. Esta caraterística entre as fontes é de extrema importância, visto que a maior parte da geração de eletricidade é baseada na fonte hídrica, que em períodos secos desencadeia a discussão sobre a possibilidade de racionamento.

Petróleo&Energia – Poderia citar algumas propostas da Abeeólica para aumentar a competitividade desta fonte de energia no Brasil?
Elbia Melo – A prioridade é a construção das linhas de transmissão para atender os parques eólicos já instalados. Porém, esta demanda já está sendo atendida pelos leilões de linhas de transmissão programados para breve. Espera-se que até o final de 2014 os parques estejam conectados à rede. Também esperamos que sejam feitos leilões de transmissão de forma alinhada com as necessidades do sistema e principalmente para atendimento das grandes “bacias de vento”, locais onde os potenciais eólicos são grandes e propícios para instalação dos parques. A sustentabilidade da cadeia produtiva está diretamente relacionada com a manutenção da tendência de contratação da fonte eólica nos leilões de energia, com a adequada tributação e a eficiência da logística de insumos deste setor.

Petróleo&Energia – Como aumentar a competitividade do setor eólico brasileiro?
Elbia Melo – Dentre os desafios voltados à tributação, destacamos a necessidade de co-habilitação dos fabricantes de equipamentos ao Regime Especial de Incentivos a Infraestrutura (Reidi), que atualmente já está em discussão com o Ministério da Fazenda. Com relação à logística, a Abeeólica tem trabalhado ativamente com a coordenação do GT Logística, que tem como principal objetivo reunir os principais fabricantes de peças e componentes para propor e executar ações que auxiliem na solução das principais questões de logística. Também estão planejadas interações com as instituições ligadas aos transportes no Brasil para redução dos gargalos encontrados atualmente.

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