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Entrevista: Evonik faz 10 anos e avança ao futuro com especialidades

Petroleo e Energia
19 de janeiro de 2018
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    Petróleo & Energia, Weber Porto, diretor-presidente da Evonik para a região América Latina e Central

    Weber Porto, diretor-presidente da Evonik para a região América Latina e Central

    Quando foi oficialmente criada, em 12 de setembro de 2007, a Evonik Industries AG era um conjunto de negócios divididos em três grandes áreas: produtos químicos, imóveis e energia. Ao completar dez anos, a companhia se apresenta completamente reestruturada, operando apenas com especialidades químicas e buscando a ambiciosa meta de ser “a empresa mais inovadora do mundo”.

    Não se enganem os mais afoitos com a juventude da companhia. A Evonik é herdeira direta da grande tradição química alemã, tendo sua origem na separadora de ouro e prata de Friedrich Ernst Roessler, estabelecida em 1843, que passou a usar o nome Degussa na década de 1930. Esse era o indicativo telegráfico da então Deutsche Gold und Silber Scheideanstalt (a antiga Roessler). Logo depois da Segunda Guerra Mundial, a companhia decidiu se internacionalizar, constituindo em 1953 a sua primeira subsidiária produtiva, a Bragussa S.A., em Mauá-SP, onde produzia pigmentos e auxiliares cerâmicos, além de sais para galvanoplastia.

    Em 1999, a Degussa uniu seus negócios com a Hüls (do grupo petroleiro Veba). Em 2001, a Veba se consolidou com a Viag para formar a gigante de energia alemã EON, levando a fundir os negócios da Degussa-Hüls com os da SKW Trostberg (da Viag), originando a Degussa AG. Mais tarde, em 2003, a RAG comprou 46,5% da Degussa AG, transferindo para a EON sua importante posição no capital da Ruhrgas. A RAG já havia decidido deixar as atividades ligadas ao carvão e à energia, concentrando seus esforços em produtos químicos. Coerente com essa estratégia, adquiriu o restante do capital da Degussa AG em 2006, alinhando a companhia na holding RAG Beteiligungs, ao lado de outras duas subsidiárias: Steag (energia) e RAG Immobilien (imóveis). Finalmente, a holding se tornou a Evonik, em 2007.

    Apesar dos esforços até então empreendidos, o plano empresarial ainda estava incompleto. Após dez anos de trabalho, a Evonik conseguiu concentrar seus interesses nas especialidades químicas, com foco em produtos inovadores e na satisfação dos clientes.

    Com o objetivo de entender essa reorganização e verificar seus primeiros resultados, Química e Derivados entrevistou o diretor-presidente da Evonik para a região América Latina e Central, Weber Porto. Ele ingressou na Degussa, em 1983, passando por várias posições importantes no Brasil, Argentina e Alemanha, até assumir o cargo atual, em 2000. Sob o seu comando, a companhia desenvolveu forte programa de investimentos produtivos na região entre 2012 e 2015, avaliados em mais de € 200 milhões. Ele recebeu a reportagem nas modernas instalações administrativas regionais instaladas no conjunto EZ Towers, no Morumbi, em São Paulo.

    Química e Derivados – O balanço de 2007 da Evonik reportou vendas globais de € 14,4 bilhões, valor que diminuiu para € 12,7 bilhões em 2016. Isso reflete a reorganização dos negócios?

    Weber Porto – Em parte, sim. Quando a companhia decidiu ajustar o foco nas especialidades, vendemos as áreas de energia e imóveis, mas também os nossos ativos ligados às commodities, embora fossem bons negócios. Foi o caso do negro de fumo, por exemplo. Isso reduziu o faturamento, mas veja que o Ebitda praticamente não foi alterado na comparação entre 2007 e 2017, ficando próximo de € 2,2 bilhões. A mudança foi interessante, portanto.

    QD – A Evonik pretende ser a melhor em especialidades químicas. Como se faz isso, na prática?

    W.P. – Há duas linhas de atuação: desenvolver os melhores produtos e oferecer o melhor approach de mercado, ou seja, suprir cada vez melhor os clientes. Para tanto, a companhia investe anualmente € 500 milhões em pesquisa, desenvolvimento e inovação, em todo o mundo, com ênfase em sustentabilidade. Contamos com 35 centros de pesquisa próprios em todo o mundo, além de parcerias com universidades. Não basta criar os produtos, mas também é preciso ajudar os clientes a usá-los de forma eficiente, por isso, instalamos laboratórios de aplicação nas áreas de interesse de cada região. Na América Latina, abrigamos laboratórios de personal care, nutrição animal e insumos farmacêuticos em Guarulhos-SP, bem como o de poliuretanos e o de produtos TEGO, ambos em Americana-SP. Mesmo assim, é um negócio desafiador, precisamos ser inovadores, mas também competitivos.

    QD – Como foi feita a reorganização das atividades da companhia nesses dez anos?

    W.P. – Em 2007, a Evonik era uma empresa que atuava com produtos químicos, imóveis e energia. Ficamos apenas com as especialidades químicas. Agrupamos os interesses em três grandes áreas: saúde e nutrição; produtos de performance; e produtos para melhorar a eficiência do aproveitamento de recursos produtivos, resource efficiency. Em 2016, esta última, que atua com itens como sílicas, aditivos para óleo e isoforona e seus derivados, obteve a maior participação nas vendas, seguida por nutrição e cuidados pessoais.

    QD – Algumas empresas desenvolvem sua lógica de negócios pela integração vertical, das matérias-primas aos produtos finais. Não é o caso da Evonik, pelo visto.

    W.P. – Preferimos não atuar nas matérias-primas básicas. Mas isso não significa que abandonamos a lógica da cadeia produtiva. Por exemplo, a partir do propeno, produzimos tanto metionina quanto acrílicos e seus derivados. Também há uma diretriz de organização por mercado atendido, identificando oportunidades.

    QD – A companhia se desfez de alguns negócios, mas também comprou outros. Há um alinhamento estratégico nessas operações?

    W.P. – Com certeza. A Evonik fez duas grandes aquisições nos últimos dois anos. Em 2016, foram adquiridos os negócios de aditivos especiais da Air Products, por US$ 3,8 bilhões. Neste ano, foi a vez das sílicas da J.M. Huber Corporation, por US$ 630 milhões. Veja que os aditivos da Air Products incluem aminas e aditivos para poliuretano e também endurecedores para epóxi, temos outros produtos e atuação destacada em ambas as resinas, usadas em tintas e adesivos. No caso das sílicas, trata-se de insumos específicos para uso em cremes dentais, por exemplo, muito complementares à nossa atuação, com produção instalada nos Estados Unidos. As sílicas tradicionais da Evonik são indicadas para uso industrial, na fabricação de tintas e pneus. Em ambos os casos, não foram constatadas superposições de itens e obteremos grandes sinergias.

    QD – Em termos regionais, como se distribuem as vendas da Evonik? A América do Sul e Central é importante no resultado global?

    W.P. – As vendas ainda são muito concentradas na Europa, que representa 49% do total registrado no balanço de 2016. A região da Ásia e Pacífico já é a segunda mais forte, com 22% das vendas, seguida pela América do Norte, com 20%. Nossa área, que abrange da Guatemala para baixo, responde por apenas 6% do faturamento global. É uma participação pequena, mas relevante. Em 2007, nossa região obteve vendas de € 460 milhões, correspondentes a 3% do total da companhia. Em 2016, foram € 763 milhões. Estamos crescendo, é uma região jovem, tem grande potencial. Por isso, recebeu investimentos acima de € 200 milhões, entre 2012 e 2015.

    QD – O Brasil recebeu grande parte desses investimentos. Aliás, a Evonik, nesse período, foi a segunda maior investidora química no país. Esse ciclo foi concluído ou ainda há novos projetos?

    W.P. – Temos um pipeline de novos investimentos, mas eles aguardam o momento certo para serem ativados. Acabamos de iniciar a produção de quatro fábricas na região, portanto ainda temos muita coisa para digerir. Começamos com a fábrica para 60 mil t/ano de metilato de sódio, um catalisador para a produção de biodiesel, instalada na Argentina em 2013. Partimos em Castro-PR a produção de l-lisina por processo biotecnológico, dedicada à alimentação animal. Iniciamos a fabricação de 50 mil t/ano de surfactantes especiais para cosméticos e produtos de household, em Americana-SP, onde também começamos em 2016 a produção de sílicas precipitadas de alta dispersão, ingrediente especial para borrachas e pneus. Sem falar nos laboratórios de desenvolvimento e aplicação de produtos. Fizemos muita coisa em três anos.

    QD – A economia regional, no entanto, não andou bem nesse período. Foi possível ocupar bem as capacidades e apresentar os resultados esperados para os acionistas?

    W.P. – Algumas atividades obtiveram resultados melhores do que outras na região. No caso do metilato, o mercado de biodiesel evoluiu muito bem. A Argentina é grande exportadora de biodiesel, enquanto o Brasil está caminhando para incorporar 10% do éster no seu diesel, a mistura B10. Trata-se de um negócio promissor. Lembro que não somos o único fornecedor desse catalisador na região, que está bem suprida atualmente. A produção local de l-lisina está operando muito bem, em termos tecnológicos. O mercado de rações animais está em franca evolução, especialmente no caso das aves. Afinal, o Brasil é um dos maiores produtores de proteína animal do mundo e deve aumentar sua produção porque é muito eficiente nessa atividade. A planta de surfactantes está rodando bem, mas o mercado caiu em 2015 e 2016. No ano passado, pela primeira vez em décadas, o setor de cosméticos registrou queda de faturamento. Esse setor é que demanda mais produtos especiais. Acredito que esse mercado deve se recuperar em alguns anos. A linha de sílicas precipitadas de alta dispersão (HDS) partiu há poucos meses e estamos na fase de aprovação do material junto aos fabricantes de pneus, que é o maior mercado para elas. É uma tecnologia muito avançada de sílicas, necessária para a produção dos pneus verdes, que apresentam baixa resistência ao rolamento e contribuem para reduzir o consumo de combustíveis e, por consequência, as emissões de CO2. As vendas de pneus verdes já crescem mais do que as dos tipos convencionais. No Brasil, os pneus já estão sendo etiquetados com a indicação da faixa de consumo de combustível, isso ajudará a aumentar a aplicação da sílica HDS. Além das novas fábricas, operamos uma grande unidade de peróxido de hidrogênio no Espírito Santo e oferecemos toda a linha de produtos da companhia para a região.

    QD – Mas os resultados estão em linha com o planejado na região?

    W.P. – Estão abaixo do projetado em 2012. O board sempre pressiona por melhores números, mas eles conhecem bem as dificuldades econômicas e políticas regionais e compreendem que os resultados virão, mas podem demorar um pouco. Até há pouco tempo, a Argentina estava em péssima situação econômica, imersa em um ambiente político difícil. A eleição do presidente Maurício Macri aliviou um pouco a tensão política e já há um clima de otimismo quanto à recuperação econômica, melhor até que no Brasil. As recentes eleições parlamentares deram vitória ao presidente, que terá maior apoio legislativo para fazer reformas. Macri devolveu à realidade os preços públicos, especialmente de eletricidade e gás, isso elevou a inflação, mas aumentou a confiança de investidores. O Brasil, nem precisamos falar muito, está começando a sair da pior crise econômica de sua história, embora ainda dependa muito do ambiente político. Apesar disso, a economia nacional está crescendo, porém em relação a uma base de comparação muito fraca. Percebe-se que a curva do PIB se inverteu, mas ainda não se sabe qual é a verdadeira inclinação dessa curva, pode ser maior ou menor. Pelo menos, a inflação e os juros caíram e isso beneficia a população. Essas são as duas maiores economias regionais. As demais também estão fracas. A Colômbia estava com um bom ritmo de crescimento há alguns anos, mas estagnou. Não piorou, nem melhorou. Mesmo assim, abrimos escritórios locais na Colômbia, Chile, Peru e Guatemala, acreditando no avanço dos negócios.

    QD – Como o sr. avalia o comportamento dos principais mercados químicos globais? Há quem entenda que a China está deixando de ser o grande supridor químico mundial e isso representaria uma oportunidade para o Brasil. É possível?

    W.P. – Vejo que a velocidade de mudanças no mundo está cada vez maior. O problema é que essa aceleração atrapalha a previsibilidade dos mercados. De fato, a China está em processo de consolidação de negócios e olha mais para dentro do que para o exterior. A grande preocupação deles agora está na proteção ao meio ambiente e isso se reflete na adoção de controles oficiais mais rígidos das indústrias, entre elas a química. O resultado é a elevação dos custos locais e a redução de capacidades produtivas. Portanto, o crescimento chinês em volume químico será menor. No entanto, isso não implica necessariamente a transferência de investimentos para o Brasil. O país ainda precisa demonstrar atratividade para os investidores globais. Continuamos sem uma política adequada de matérias-primas químicas e de insumos, como eletricidade, nossa legislação tributária é muito onerosa, a logística é ruim, mesmo para negociar com os vizinhos. Nessas condições, não temos como nos apresentar como um possível supridor global de produtos. Hoje, quem está atraindo esses investimentos são os Estados Unidos, oferecendo gás natural barato e uma boa estrutura comercial. No setor químico, as empresas só investem aqui para aproveitar oportunidades, não se trata de estratégia de crescimento de longo prazo. Outros segmentos econômicos têm situação diversa, por exemplo, o agronegócio é muito competitivo e atrai players globais para cá.

    QD – Hoje, qual o maior problema para o desenvolvimento econômico do Brasil?

    W.P. – Temos muitos problemas, mas o pior gargalo está na infraestrutura. A economia ainda está deprimida, mas já verificamos restrições de oferta de eletricidade. Os modais de transporte mal dão conta de escoar a produção atual. Caso venha um crescimento mais vigoroso, a falta de recursos logísticos e de pessoal qualificado será limitante.

    QD – É possível obter crescimento nesse cenário?

    W.P. – Com certeza. Essas dificuldades pelas quais o país passou foram uma etapa de seleção. Só sobreviveram os melhores, os que se adaptaram melhor às circunstâncias. Encontramos entre os nossos clientes empresas com altíssima competência técnica, capazes de discutir inovações e absorver com facilidade as novidades, gerando diferenciais importantes para seus produtos. Isso é muito coerente com nossa meta de oferecer soluções eficientes, inteligentes, inovadoras e seguras.



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