Entrevista: Capacidade ampliada em offshore

Petróleo & Energia, Ferreira: centro de tecnologia em Macaé-RJ recebeu R$ 200 milhões
Ferreira: centro de tecnologia em Macaé-RJ recebeu R$ 200 milhões

A norte-americana FMC Technologies poderá produzir nos próximos quatro anos uma quantidade de árvores de natal molhadas (ANM) superior à que entregou no Brasil nos últimos 34 anos, desde a confecção da primeira unidade no país, em 1978. Embora mantenha operação em diversos países, foi no Brasil que a FMC Technologies consolidou alguns marcos da sua bem sucedida trajetória offshore. A começar pelas quase 500 árvores de natal molhadas (ANM) e manifolds, equipamentos submarinos de grande porte, um conjunto de válvulas e sensores instalado no fundo do mar.

“Esse mesmo volume deverá ser produzido nos próximos quatro anos, graças aos investimentos feitos pela empresa nesta última década”, contabiliza José Mauro Ferreira, diretor-comercial da FMC Technologies no Brasil. Das 423 ANM já entregues, 300 estão em campos operados pela Petrobras na costa brasileira. Foi com a estatal que a FMC fechou o maior contrato de árvores de natal submarinas da indústria mundial de petróleo, com um valor estimado em US$ 1,2 bilhão.

É também com a estatal brasileira que a FMC estabeleceu uma parceria para desenvolver um sistema pioneiro: o Separador Submarino Água-Óleo (SSAO), em operação no campo de Marlim Sul (um dos maiores produtores de petróleo do Brasil). O equipamento – único no mundo em operação – saiu do Centro de Tecnologia da FMC, inaugurado em outubro de 2011, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, o terceiro da multinacional, ao lado dos outros dois, situados nos Estados Unidos e na Noruega. A empresa investiu mais de R$ 70 milhões nesse centro tecnológico, cuja principal tarefa é desenvolver e testar uma nova geração de equipamentos submarinos.

Petróleo & Energia, Manifolds da FMC serão instalados em Tambaú
Manifolds da FMC serão instalados em Tambaú

Depois de motivar os fornecedores de sua cadeia produtiva a se instalarem na área da fábrica, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, para fazer montagens e testes de equipamentos, a FMC, prestes a iniciar a entrega das primeiras unidades do contrato bilionário – com índice de 70% de conteúdo nacional – vem prendendo o fôlego, à espera da retomada de encomendas em maior escala.

P&E – Ao longo de sua história no país, a FMC Technologies já recebeu encomendas para mais de 500 árvores de natal submarinas da Petrobras. Quantas já foram entregues? Quantas devem ser entregues nos próximos cinco anos?
José Mauro Ferreira – Em 1978, fabricamos nossa primeira árvore de natal submarina no Brasil e, em 2013, atingimos o marco de 420 árvores produzidas no país. Deste total, mais de 300 foram entregues para a Petrobras. No momento, temos uma carteira de encomendas de cerca de 200 árvores para serem entregues nos próximos anos no país. O aumento de demanda destes equipamentos aliado aos investimentos feitos pela FMC Technologies do Brasil possibilitará a fabricação, em apenas quatro anos, do equivalente ao volume de equipamentos produzido em quase 40 anos.

P&E – A empresa vem se posicionando não apenas como uma fornecedora de equipamentos submarinos, mas também como provedora de soluções. O que mudou na estratégia da empresa?
JMF – A FMC sempre buscou desenvolver novas soluções tecnológicas no Brasil, tendo participado de vários recordes de profundidade, desenvolvido os primeiros sistemas de bombeio submarino com BCS [Bomba Centrífuga Submersa, equipamento que ajuda a bombear o óleo produzido pelo poço para a unidade flutuante de processamento] e, mais recentemente, o sistema de separação de água e óleo para o campo de Marlim. Com a vinda de outras operadoras para o Brasil e a necessidade de sistemas submarinos customizados, a empresa desenvolveu competência local de engenharia de sistemas e de gerenciamento de projetos para fornecer soluções com múltiplos equipamentos integrados com sistema de controles.

Petróleo & Energia, Primeira árvore de natal subsea feita no país, em 1978, abriu o caminho para a construção dos modelos atuais
Primeira árvore de natal subsea feita no país, em 1978, abriu o caminho para a construção dos modelos atuais (esta foto)

P&E – Quais os projetos mais emblemáticos?
JMF – Dentre os principais projetos, temos o fornecimento de sistemas submarinos para o Parque das Conchas, operado pela Shell, na Bacia de Campos (a cerca de 100 km da costa capixaba); para os campos de Frade, da Chevron, na Bacia de Campos; e de Mexilhão e Tambaú, na Bacia de Santos, operados pela Petrobras.

P&E – Em setembro de 2013, a Petrobras assinou um contrato de US$ 650 milhões com a FMC Technologies, para fornecimento de 16 manifolds submarinos. Ainda em 2013, recebeu outro contrato no valor de U$ 500 milhões para fornecimento de árvores molhadas. Qual a quantidade destes equipamentos e serão eles produzidos no país?
JMF – A FMC Technologies do Brasil recebeu dois contratos da Petrobras, que representam a maior encomenda de equipamentos submarinos da nossa história, para fornecimento de 127 árvores de natal submarinas e 19 manifolds para o pré-sal, dos quais cinco ainda não foram contratados efetivamente. Todos estes equipamentos serão projetados e fabricados no Brasil, com a meta de conteúdo local de 70%. Este volume de encomenda representa um grande desafio para o qual estamos nos preparando há mais de quatro anos, com investimentos crescentes em capacitação local.

P&E – Qual o volume de investimentos feitos na última década? Qual a expectativa de investimentos no país para os próximos anos?
JMF – Nos últimos anos, fizemos investimentos da ordem de R$ 200 milhões para expandir nossa capacitação local, construção do centro de tecnologia e expansão da base de serviços em Macaé-RJ. Acreditamos que os investimentos realizados nos permitem atender as demandas atuais recebidas e outras potenciais encomendas, inclusive de outras operadoras. Novos investimentos poderão ser feitos a partir de demandas que se demonstrem sustentáveis no futuro.

Petróleo & Energia, Primeira árvore de natal subsea feita no país, em 1978, abriu o caminho para a construção dos modelos atuais
Primeira árvore de natal subsea (esta foto) feita no país, em 1978, abriu o caminho para a construção dos modelos atuais

P&E – Qual a experiência adquirida pela FMC Technologies do Brasil com a criação do seu Centro de Tecnologia, e qual sua visão de futuro?
FMC – A construção do Centro de Tecnologia no Rio de Janeiro foi impulsionada por vários fatores, dentre eles a oportunidade que surgiu com a criação do Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua localização estratégica permitiu combinar sinergias positivas, como concentrar nossa engenharia de desenvolvimento, laboratórios de qualificação, área de teste e integração de protótipos de grande porte e em escala real; proximidade do mar e da universidade, que permite maior integração com o meio acadêmico e seus laboratórios, bem como fonte potencial para novos engenheiros. Associado a isso, como já observei, havia grande expectativa de demanda para desenvolvimento de novas soluções e tecnologias submarinas (sistemas de separação, de bombeio multifásico, entre outros).

P&E – Essa demanda continua existindo?
JMF – A expectativa continua. Mas, apesar de estarmos desenvolvendo uma nova geração de árvores de natal submarinas (ANM) e manifolds para o pré-sal, e de termos entregado o primeiro protótipo tecnológico de processamento submarino (SSAO) em 2011, desde então não surgiram outras demandas tecnológicas de protótipos.

P&E – Por que isso acontece?
JMF – A indústria fornecedora de E&P, principalmente de sistemas submarinos, é concebida sobre forte base de sustentação tecnológica, cuja aplicação de inovações é apontada como uma tendência. Porém, diferentemente de outras indústrias, a efetividade para gerar inovações e aplicar soluções alternativas depende fortemente da relação cliente-fornecedor (fabricante), tendo o cliente (operadora) uma função fundamental na propulsão destes avanços. Caso o operador não veja um cenário para aplicação de uma nova tecnologia ou solução, o investimento em P&D corre o risco de não se traduzir em demanda pelos novos produtos.

P&E – A cláusula de investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) presente nos contratos firmados com a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), relacionados aos campos com produção mais significativa, poderá alavancar essa inovação?
JMF – Existe um sentimento crescente na indústria de que essa destinação de 1% da receita da produção de alguns dos campos de óleo e gás para P&D não está sendo plenamente efetiva. Os investimentos nos núcleos acadêmicos são importantes, porém há uma grande expectativa da indústria, principalmente de quem investiu em centros de tecnologia, que tal iniciativa deva ser revista ou outras deveriam ser criadas, visando motivar as operadoras e parceiros a promover investimentos diretamente com a indústria. Tal fato possibilitaria investir em protótipos em escala real, a serem instalados e colocados em operação, de forma a impulsionar nova geração de produtos com tecnologia de ponta local.

Petróleo & Energia, Sistema SSAO deixa o centro de tecnologia de Macaé-RJ
Sistema SSAO deixa o centro de tecnologia de Macaé-RJ

P&E – Maior fornecedora da Petrobras na história Offshore do país, a FMC Technologies tem capacidade para produzir no Brasil a maior parte dos equipamentos aqui instalados. Vocês também estão atentos à demanda regional, da América Latina?
JMF – A FMC Technologies tem presença global, possuindo capacitação em P&D, engenharia, fabricação e base de serviços para apoiar o desenvolvimento de campos submarinos. O direcionamento da região para execução dos projetos depende basicamente de onde está o cliente. No Brasil, nossas atividades são concentradas para atender a demanda local, já que a Petrobras e outras operadoras, como a Shell, possuem requisitos técnicos e de conteúdo local específicos para esse mercado.

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A centenária FMC surgiu na década de 1880, fabricando bombas de spray contínuo para a agricultura, e hoje se destaca no mercado global de equipamentos para a exploração e produção de hidrocarbonetos. Iniciou suas atividades no Brasil em 1978, ano em que entregou a primeira árvore de natal molhada, produzida por uma empresa por ela licenciada, a CBV Indústria Mecânica S.A., companhia carioca criada em 1962.

O sucesso dessa parceria e a demanda crescente da Petrobras levou a norte-americana a incorporar a CBV vinte anos depois (1998), adquirindo assim uma planta fabril no país. É no lugar da antiga fábrica da CBV, no bairro da Pavuna, no Rio de Janeiro, devidamente expandida em sua capacidade produtiva e continuamente modernizada, que a FMC produziu quase 500 equipamentos pesados do tipo árvore de natal molhada e manifolds para serem instalados e operados no leito dos mares brasileiros.

Além de uma base de serviços submarinos instalada em Macaé-RJ, para atender a forte demanda da Bacia de Campos, onde está a maioria de seus equipamentos, a empresa tem um centro tecnológico em uma área de 22 mil m² na Ilha do Fundão, na qual estão instalados laboratórios mecânicos e eletrônicos, além de um hangar para realização de testes de integração de protótipos em escala real. O primeiro equipamento testado lá, antes mesmo da inauguração oficial, foi o Separador Submarino Água-Óleo (SSAO). Depois do sucesso desse projeto piloto, a meta da empresa é desenvolver os próximos separadores totalmente aqui no país.

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