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Entrevista – Biotecnologia entra em cena para fazer etanol de biomassa no Brasil

Marcelo Fairbanks
25 de maio de 2012
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    A indústria química DSM, de origem holandesa, foi selecionada para fornecer as leveduras que transformarão em etanol os açúcares derivados de celulose e hemicelulose, obtidos de biomassa de cana-de-açúcar, a etapa final do processo que será montado pela GraalBio (da família Gradin)em Alagoas. Anunciada em 23 de maio, trata-se da primeira iniciativa em escala comercial para a produção do chamado etanol de segunda geração no Hemisfério Sul.

    Petróleo & Energia, Frank Nadini, Diretor de desenvolvimento de negócios da DSM Bio-based Products & Services, Entrevista - Biotecnologia entra em cena para fazer etanol de biomassa no Brasil

    Nadini: leveduras da DSM participam do projeto da GraalBio

    Embora o país tenha posição destacada na produção de etanol – é o segundo maior produtor mundial, atrás dos Estados Unidos, e o primeiro entre os que usam a cana-de-açúcar –, o aproveitamento do bagaço, folhas e ponteiros para isso ainda não decolou. Caso todo esse material fosse convertido em etanol, seria possível duplicar a produção nacional do álcool sem plantar um único pé de cana adicional.

    Os Estados Unidos ofereceram incentivos aos produtores de biocombustíveis e começam a obter resultados importantes. A DSM estabeleceu parceria com a produtora de biocombustíveis Poet para iniciar, no segundo semestre de2013, aprodução de 20 milhões de galões (72 milhões de litros) por ano de etanol obtido de biomassa de milho em Iowa (EUA), após investimentos de US$ 250 milhões. Nesse caso, além das leveduras, a DSM também fornecerá as enzimas que desdobram a celulose e a hemicelulose em açúcares menores (hexoses e pentoses), de fermentação direta por leveduras. A Poet-DSM Advanced Biofuels implantará, no futuro, unidades semelhantes ao lado de cada uma das 26 plantas de etanol de milho da Poet naquele país.

    “É preciso ajustar o coquetel de enzimas e leveduras para se obter a maior eficiência de conversão em cada caso”, comentou Frank Nadini, diretor de desenvolvimento de negócios para a América Latina da DSM Bio-based Products & Services. Falando bom português, embora trabalhe no Brasil há menos de dez anos, tendo passado pela unidade de produção de elastômeros da companhia em Triunfo-RS, ele explicou que o processo da Poet é semelhante ao que será adotado pela Graal, porém terá diferenças marcantes na fase inicial. “Como eles usarão o milho, o pré-tratamento não será o mesmo para preparar a biomassa de cana aqui no Brasil”, disse.

    A GraalBio comprou a licença tecnológica do processo Proesa, da Beta Renewables (associação entre a Chemtex, do grupo italiano Mossi&Ghisolfi, e a TPG Biotech), a mesma que está sendo usada na construção de uma planta para 20 milhões de galões de etanol de segunda geração em Crescentino (Itália), com partida prevista para o final deste ano. Com a tecnologia, vieram os parceiros do licenciador, a Novozymes (enzimas) e a DSM (leveduras). A futura unidade brasileira terá capacidade para 82 milhões de litros/ano, com previsão de iniciar a produção no final de 2013, após investimentos de R$ 300 milhões.

    “Poderíamos vender as enzimas também, como faremos no projeto de Iowa, mas, tanto no Brasil como em Crescentino, a responsabilidade pela integração das tecnologias é da Beta/Chemtex”, salientou Nadini.

    O pré-tratamento escolhido pela tecnologia Proesa é a explosão das fibras vegetais mediante a aplicação de vapor em alta pressão, dentro de um reator específico. Segundo os licenciadores, essa tecnologia tem a vantagem de não incluir produtos químicos que possam interferir nas etapas seguintes, caso das digestões ácidas ou alcalinas, bem como da aplicação de fungos e enzimas específicas. Nessa fase do processo, o objetivo é romper a estrutura das células vegetais, protegida por uma resistente camada de lignina. Ela obstrui o acesso às moléculas de celulose e hemicelulose, de fácil aproveitamento em processos fermentativos.

    Após a ruptura e separação da lignina, ela não é desperdiçada. Os processos preveem seu aproveitamento em caldeiras alimentadas a biomassa, a exemplo dos equipamentos que queimam o licor negro nas indústrias de celulose. “Com isso, a cogeração de eletricidade não é prejudicada pelo aproveitamento químico do bagaço”, considerou Nadini. Aliás, como o governo federal forçou para baixo o preço do kW gerado pela queima de biomassa, o uso químico acabou sendo incentivado.

    A DSM foi qualificada pelo BNDES para fornecer tecnologia para projetos de investimento em etanol celulósico e também em derivados químicos de biomassa de cana, dentro do escopo da valorização da cadeia produtiva de açúcar e álcool no país. No primeiro caso, a companhia pode fornecer enzimas e leveduras, atividade na qual já possui larga experiência. “Queremos estabelecer convênios e parcerias com empresas que entendam de bagaço e palha e de como fazer o pré-tratamento”, comentou. A companhia não tem a intenção de investir em usinas de álcool convencional, segundo Nadini.


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