Energia Solar – Geração sustentável e próxima do consumo oferece vantagens

Os sistemas fotovoltaicos conectados à rede (SFCR) em grande escala dão seus primeiros passos no Brasil. Para Mauro Passos, presidente do Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas da América Latina (Ideal), organização não governamental baseada em Florianópolis, o cenário atual dessa fonte de geração é similar ao da energia eólica há cinco anos. “Havia poucos parques e a presença de fabricantes era mínima. Hoje, a eólica está consolidada, com players internacionais atuando no país”, explica. Para ele, os defensores da fonte solar estão na fase de apresentação dessa modalidade, uma etapa que envolve provar como ela é sustentável e viável. “Um diferencial da modalidade é que a geração está próxima à fonte de consumo, evitando grandes investimentos em transmissão”, argumenta. Alexandre Bretzner, diretor Operacional da Windeo, um dos mais recentes players da área solar no Brasil, completa o ponto de vista de Passos, lembrando que existiriam cerca de 65 milhões de m² de telhados virgens no país, prontos para receber módulos solares.

Petróleo & Energia, Coelba (Neoenergia) gera 43,5 MWh/mês, em média, no Estado de Pitaçu, Energia Solar - Geração sustentável e próxima do consumo oferece vantagens
Coelba (Neoenergia) gera 43,5 MWh/mês, em média, no Estádio de Pitaçu, na Bahia

Aqui vale uma primeira ressalva para explicar exatamente do que estamos tratando. Como SFCR, entende- se qualquer sistema de energia solar fotovoltaica que esteja interligado a uma rede de distribuição de energia. É o caso da instalação de 11 kWp (quilowatt pico) da Chesf, ativada em 1995 e considerada a primeira do gênero no Brasil. De acordo com Roberto Zilles, professor e pesquisador do Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP (IEE-USP), o país teria 1,6 MW em operação de SFCR. Os dados são referentes ao período entre 1995 e outubro do ano passado.

Excluindo os SFCR, o Brasil teria outros 30 MW de energia solar ativados, porém com uma diferença: são sistemas isolados, que incluem tanto soluções que usam a energia solar para aquecer chuveiros como as instalações de painéis fotovoltaicos para bombeamento de água. Nesse segundo caso, há cerca de 3 mil dessas soluções ativadas, em que a energia solar movimenta um grupo motobomba, fornecendo água em regiões sem suprimento ou com suprimento deficiente de energia elétrica tradicional. Além de viável, esse tipo de aplicação elimina o uso de geradores a diesel.

Apesar dos primeiros passos, a energia solar fotovoltaica integrada à rede é insignificante em relação às outras fontes renováveis, mesmo em comparação com a eólica, que já ultrapassou os 1,5 GW de geração (contra os 1,6 MW citados acima do SFCR). Mas há uma série de incentivos para a modalidade solar, com destaque para as resoluções mais recentes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Uma das mais importantes é a Resolução Normativa 482, de abril desse ano, que estabelece as condições para acesso de microgeração (até 100 kW) e minigeração (de 100 kW até 1 MW) aos sistemas de distribuição de energia elétrica. A norma também cria o mecanismo de compensação de energia. A legislação já deu um novo impulso aos fabricantes de olho nesse mercado, a exemplo da Windeo e da Tecnometal (veja reportagem nessa edição).

E já há mudanças visíveis no perfil dos empreendimentos, embora a ligação desses projetos com iniciativas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) ainda não possa ser descartada por completo. Os dados do professor Zilles, da USP, indicam que havia 64 instalações de SFCR em operação (de 67 instalados) até outubro do ano passado, sendo a maioria delas com o cordão umbilical de P&D. São projetos como o do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica da Eletrobras (Cepel), de 16 kWp, no Rio de Janeiro, ou o da Chesf, de 11 kWp, o pioneiro do país. A diferença é que eles passaram a ter a companhia de iniciativas de maior peso, como o empreendimento Tauá, do grupo MPX, instalado no ano passado no Ceará e com capacidade para 1 MW. Ele faz parte da chamada 13, ou melhor, do Projeto de P&D Estratégico 13 – Arranjos Técnicos e Comerciais para inserção da Geração Solar Fotovoltaica na Matriz Energética, lançado pela Aneel em agosto de 2011.

O porte dos empreendimentos inclui plantas de Furnas, Chesf e da Tractebel (3 MW cada), da Copel (um de 3 MW e outro de 1 MW), e de outras empresas, todos eles entre 500 KW e 1,5 MW de potência instalada. De acordo com os registros da Aneel (novembro de 2011), havia 30 projetos listados na agência, sendo que apenas o de Tauá aparece como operacional, com 1 MW. Aqui novamente há outra mudança no perfil dos empreendimentos, que passam a ter, em média, 30 MW de capacidade. Eles são 26 do grupo dos 30 citados acima. Resultado: se todos fossem ativados, teríamos 785 MW de capacidade, um salto realmente quântico em relação à potência atual dos SFCR.

“A geração solar fotovoltaica não compete com outras fontes, caso da hidrelétrica, que é preponderante na nossa matriz. Ela complementa o sistema e permite o desafogo de investimentos”, avalia Passos, do Instituto Ideal. Como exemplo, ele detalha que o pico de consumo de energia em shopping centers acontece exatamente no momento do dia em que o sol está mais intenso. “Adotar a geração solar para ativar os equipamentos de arcondicionado é uma das alternativas que mostra a viabilidade da energia solar como complemento às fontes tradicionais”, detalha. Segundo o executivo, há casos de distribuidoras de energia brasileiras que já investigam um programa de aluguel de telhados para usar como base de instalação de sistemas de geração solar fotovoltaicos. “Nada mais sensato do que isso, considerando que temos perdas entre 15% e 20% na transmissão de energia conven- cional entre as fontes de geração e os centros de consumo”, argumenta. Ele lembra que somente na Alemanha, líder na adoção da matriz solar, há mais de um milhão de telhados solarizados.

Projetos híbridos – Passos agrega exemplos mais recentes, como o da Eletrosul, que vai ativar uma usina de 1 MW, usando seus prédios na capital catarinense como base, e ainda ao já citado Tauá, da MPX, cuja estimativa final de capacidade estaria por volta de 50 MW, formando uma grande usina solar de energia urbana, interligada à Coelce, a distribuidora de energia cearense. Para o especialista, todos os projetos atuais estão mapeando os principais desafios da interligação de fontes solar fotovoltaicas às redes de distribuição, daí o cordão umbilical não ter sido cortado ainda. Para Zilles, os estudos, as normas técnicas etc., que parecem ser um caminho mais lento, na verdade, representam o caminho seguro para o país avançar na adoção do SFCR. A própria integração de usinas solares aos parques eólicos é um dos desdobramentos possíveis.

“Podemos ter aplicações de geração fotovoltaica em parques eólicos, o que tornaria mais competitiva a participação de quem detém uma infraestrutura eólica, ou seja, os sistemas de transmissão já instalados”, argumenta o pesquisador da USP. Além disso, as duas formas de geração também são complementares, principalmente considerando a alta capacidade dos parques eólicos durante a noite e o pico de produção de usinas fotovoltaicas durante o dia. Zilles levanta até os cálculos que avaliam o nível de ocupação de áreas no entorno de parques eólicos para a instalação de usinas solares. O Nordeste seria favorecido em casos de integração como esses, pois, além de ter seus parques eólicos normalmente instalados em locais inóspitos para o plantio, a região também sai na frente em potencial.

Um mapeamento da energia produzida de fonte solar, divulgado pelo Portal Solar Energy, indica que os índices podem chegar a 2.400 kWh/ m²/ano em algumas regiões. Baseado nesse material, Zilles adotou três situações para avaliar o cálculo do custo do MWh fotovoltaico no Brasil. No primeiro caso, a menor estimativa média seria de 1.570 kWh/m²/ano, o que levaria a um fator de capacidade (CF) de 13,4%. Considerando uma estimativa de 1.860 kWh/m²/ano, esse fator subiria a 15,9%. Se o valor for de 2.200 kWh/m²/ano, o CF seria de 18,8%. Os números estão próximos ao de outros índices de produtividade avaliados por instituições como a Universidade Federal de Santa Catarina (14%), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (13,8%) e Cepel (14,7%).

Considerando o fator de capacidade, o pesquisador da USP agregou outros componentes, caso dos valores de módulos solares e dos inversores. Entram nessa conta também os impostos incidentes, principalmente sobre os inversores, que pagam desde imposto de importação até PIS e Confins. Os módulos também são atingidos pelo trio, mas escapam da incidência de IPI e do ICMS. Sem entrar em detalhes dos cálculos e adotando as informações de Zilles, o quadro montado pelo pesquisador indica que o preço turn key, ou seja, de um projeto entregue pronto para ser operacional, pode oscilar entre a média de R$ 160/MWh até R$ 620/MWh.

Esses valores estão considerando os CFs já citados acima. Uma faixa realista, levando-se em conta todos os itens discutidos, seria entre R$ 500 e R$ 600 o MWh, um valor bem acima dos leilões de energia mais recentes, nos quais o custo de energia eólica tem tido como teto os R$ 100/MWh. Apesar disso, um projeto de SFCR poderia ser viável, pois a tarifa elétrica aplicada por algumas concessionárias, caso da Celmar e da Celtins, oscilam entre R$ 600 e R$ 700. Ou seja, um consumidor que pague essas tarifas poderia, teoricamente, pensar em ativar uma solução solar e ainda acumular créditos com sua concessionária atual.

Petróleo & Energia, Rafael Takasaki Carvalho, gerente do Departamento de Planejamento de Sistema da Eletrosul, Energia Solar - Geração sustentável e próxima do consumo oferece vantagens
Rafael Takasaki Carvalho mostra telhado que receberá ainéis fotovoltaicos

Para Renata Menezes Lourenço, gerente de produto do Sistema Fotovoltaico, da Schneider Electric, o custo dessa energia ainda não pode ser comparado com outras formas de geração via recursos renováveis. Executiva envolvida com a instalação de minigeração em estádios para a Copa de 2014, entre outras iniciativas, ela lembra que sua corporação não gera energia, mas é especializada em soluções de gerenciamento da produção de projetos isolados ou de fazendas ou parques solares. “Acreditamos no crescimento progressivo e sustentável do mercado de mini e microgeração, mesmo porque há análises da Aneel que mostram a viabilidade da geração fotovoltaica no mercado residencial em vários estados”, explica.

De acordo com a executiva, a Resolução 482 também foi um passo impulsionador importante, porém as incertezas em relação à questão tributária, em torno da compensação de energia, podem ser um limitador da adoção da alternativa solar. Em relação às usinas, Renata avalia que as iniciativas devem ser incentivadas por ações como os leilões específicos de energia, ciclo combinado com outras fontes intermitentes de geração e comercialização de blocos de energia no mercado livre, todos apoiados por uma política de subsídios, como aconteceu com outras fontes renováveis.

“Economicamente, a energia solar não tem como disputar nos leilões. Novamente, a ideia é diversificar a matriz energética brasileira”, complementa Passos, do Instituto Ideal. Segundo ele, o país já funciona como uma “grande pilha”, representada pela geração hidrelétrica. “O objetivo das fontes alternativas é desonerar essa pilha quando for possível, reduzindo a necessidade de investimentos em mais redes de transmissão, quando é possível ativar a produção mais próxima da carga”, avalia. O especialista lembra que mesmo na Alemanha, onde a energia solar avançou bem, a participação dessa fonte não chega a 10% da matriz.

[box_light]MUNDO PREFERE CONEXÃO

A produção mundial de módulos fotovoltaicos deu um salto de 118% entre 2009 e 2010, segundo a revista Photon International. Os dados foram indicados por Roberto Zilles, professor do Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos do Instituto de Eletrotécnica e Energia, da USP. No total, o volume de módulos geraria cerca de 27.213 MWp (megawatt pico). Já em 2011, a produção de módulos continuou crescendo, mas não no mesmo ritmo: 36%. Com isso, no ano passado, seria possível gerar 37.185 MWp. Se compararmos a potência que poderia ser gerada com o volume de painéis fabricados com os novos sistemas conectados à rede, somente em 2011 – com 27.700 MWp –, houve um excedente de cerca de 10.000 MWp. Considerando a somatória atual, observa-se que o mercado europeu responde por 75% da potência instalada mundial, que é de 67.400 MWp. Além de majoritariamente europeia, a energia solar produzida também está conectada à rede. Dados mundiais de 2009 indicam que esse índice chega a 96%. Zilles avalia que essa alta taxa esteja relacionada aos fortes incentivos governamentais europeus.[/box_light]

Rafael Takasaki Carvalho, gerente do Departamento de Planejamento de Sistema da Eletrosul, concorda com o executivo do Instituto Ideal. Para ele, os SFCRs podem ajudar a reduzir o consumo ao longo do dia e contribuem para que o setor energético tenha menos perdas na rede, evitando a expansão do próprio sistema de transmissão. “Nossa usina, por exemplo, não vai demandar o uso de solo, mas será instalada em telhados, e fica próxima ao centro urbano de Florianópolis”, explica, referindose ao projeto da geradora de energia com capacidade para 1 MW, listado entre os novos empreendimentos de médio perfil. 

Para Carvalho, a viabilidade da compra de energia solar fotovoltaica vai além do cálculo do MWh. “Há compradores que não estão escolhendo apenas pelo custo, mas por uma questão de filosofia corporativa que prioriza o investimento em fontes limpas. Avaliamos que disponibilizar lotes pequenos de energia solar, caso de 100 kW anuais, não representaria 0,5% da energia consumida por clientes médios, o que é quase insignificante, mas atenderia a uma demanda de sustentabilidade dessas empresas e poderia viabilizar outros projetos de geração solar fotovoltaica”, argumenta o especialista da Eletrosul. De acordo com ele, a estatal está analisando a venda – via leilão e no mercado livre – da energia solar gerada a partir de outubro, usando os mecanismos da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Em Salvador-BA, a Coelba (empresa do grupo Neoenergia) aproveitou superfícies livres do Estádio Metropolitano de Pituaçu para instalar painéis fotovoltaicos para tornar a praça esportiva autossuficiente em eletricidade. Fruto do investimento de R$ 5,5 milhões, divididos entre Coelba (52%) e Estado da Bahia (48%), o sistema foi inaugurado em abril e tem capacidade nominal de geração de pico de 400 kW. A energia não aproveitada pelo estádio será repassada para prédios administrativos daquele estado. O projeto foi desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina, com apoio técnico da agência alemã GTZ.

Mapeando a qualidade da energia – Construindo a usina com orçamento próprio, a Eletrosul vai investir os recursos incentivados pela Chamada 13, da Aneel, para estudar os desdobramentos da conexão à rede. No caso dela, a interligação à infraestrutura da Celesc, distribuidora regional de Santa Catarina, vai acontecer mediante uma subestação já ativa na Eletrosul, distante 150 metros do prédio da empresa onde serão alocados os painéis solares. “Temos uma conexão física direta, um ramal de distribuição, como se fosse um condomínio”, explica Carvalho. Mesmo sem essa infraestrutura já ativada, ele avalia que a interligação entre uma usina solar e a distribuidora não seria um desafio de grande envergadura.

Petróleo & Energia, Roberto Zilles, professor e pesquisador do Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP (IEE-USP), Energia Solar - Geração sustentável e próxima do consumo oferece vantagens
Roberto Zilles: energia solar poderá complementar parques eólicos

“Vamos estudar a questão da qualidade da energia, envolvendo análise de tensão e de equipamentos como inversores, presentes nas instalações solares fotovoltaicas e que podem ‘poluir’ a rede”, detalha. De acordo com ele, a dispersão harmônica, provocada por essa “poluição”, pode até levar à queima de equipamentos, em casos mais graves. Entre os objetivos da Eletrosul, está a análise dos cenários pré e pós-instalação da nova usina sobre a rede de distribuição. Isso, de certa forma, pautará as exigências adicionais para fabricantes de inversores, por exemplo.

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SP SEDIA CONGRESSO DO SETOR

Promovido pelo Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos do IEE-USP e pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Energias Renováveis e Eficiência Energética – INCT-EREEA, o IV Congresso Brasileiro de Energia Elétrica tem uma pauta ampla. O evento acontece paralelamente à V Conferência Latino-Americana da ISES (International Solar Energy Society), de 18 a 21 de setembro deste ano, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Vinte sessões técnicas fazem parte dos dois eventos, incluindo temas que vão desde os dados meteorológicos, como os que falam da estimativa de iluminância para algumas cidades do Brasil, até biomassa e outros componentes de sistemas de fontes renováveis. Cinco grandes sessões plenárias também serão organizadas, com forte participação de palestrantes internacionais. Oito workshops completam a programação, ao lado dos chamados minicursos. Neste último caso, a lista inclui sete deles, com duração média de um período do dia, especialmente dedicados a profissionais e não tanto ao público acadêmico. Veja mais informações em: www.ivcbens.com.br. [/box_light]

Uma instalação adicional, com capacidade para 8 kW, será montada em outra área da Eletrosul para testar novas tecnologias, complementando os testes a serem executados na nova usina e servindo como base para projetos experimentais. Carvalho ressalta que a empresa tem expertise na área elétrica, uma vantagem considerável em relação aos investidores fora do setor e que estão pensando em ingressar na geração solar. Outro ganho do projeto atual é que ele está sendo construído pela Efacec, empresa que detém know-how no setor, com projetos similares e maiores na Espanha e em Portugal, queimando etapas e evitando correções de rotas no Brasil.

Em relação à usina em si, apesar da sua inicialização acontecer em 2012, os estudos para viabilizá-la começaram bem antes. A estatal usa, por exemplo, dados da Universidade Federal de Santa Catarina, que tem um histórico de medição de radiação solar desde 1987, vinte anos antes de a empresa começar a avaliar a possibilidade de construir a planta de 1 MW. Com 25 anos de observação sobre as condições da região, o projeto da Eletrosul sai na frente, principalmente na avaliação das variações sazonais de produção de energia.

O mesmo pensamento de viabilidade da Eletrosul faz parte da cartilha do diretor do Departamento de Meio Ambiente, Energias Renováveis e Eficiência Energética da Câmara de Comércio e Indústria Brasil- Alemanha (AHK), Ricardo Rose. Jornalista especializado em meio ambiente, ele foi o coordenador do relatório “Das renováveis à eficiência energética”, edição bilíngue português- alemão distribuída em formato de CD pela AHK. O documento destaca o projeto da Eletrosul, que conta com a participação do banco de desenvolvimento alemão KfW, com um aporte de 2,8 milhões de euros. Os recursos são provenientes da Iniciativa Internacional de Proteção ao Clima (IKI), do governo alemão.

Petróleo & Energia, Ricardo Rose, Jornalista especializado em meio ambiente, Energia Solar - Geração sustentável e próxima do consumo oferece vantagens
Ricardo Rose: Alemanha incentiva debate sobre novas fontes de energia

“A ideia principal por trás desta iniciativa-piloto do banco KfW, em cooperação com a estatal Eletrosul, é levar o tema da energia solar fotovoltaica até o centro das atenções e das discussões públicas, abrindo assim o caminho para outros projetos e medidas de incentivo”, ressalta o documento. Rose destaca também que os incentivos de adoção da energia solar fotovoltaica na Alemanha aconteceram principalmente para reduzir a participação da geração termelétrica na matriz de energia. “Havia um planejamento de longo prazo, que incentivou o aparecimento de um grande número de pequenas e médias empresas”, completa.

[box_light]NORMAS EXIGEM QUALIDADE

As normas que favorecem a maior adoção de SFCR não se limitam à Aneel. O Inmetro também está ativo e seu foco são os inversores usados no país. Em janeiro do ano passado, o órgão divulgou a Portaria MDIC 004, que trata da revisão de avaliação de conformidade para sistemas e equipamentos para energia fotovoltaica. Com a ação do Inmetro, 246 modelos de componentes fotovoltaicos, de 40 marcas diferentes, foram avaliados quanto à relação entre consumo e eficiência energética.

A análise envolveu módulos com tecnologia de silício cristalino e filmes finos. No caso da primeira, a maioria (56%) deles foi classificada no nível A, ou seja, de melhor eficiência, sendo os demais distribuídos entre as outras quatro classes (B a E), com 12,2% no fim da fila. Dos oito painéis com tecnologia de filmes finos, metade foi enquadrada na classe D, seguido de três na classe B. Com isso, pode-se dizer que a maior parte dos módulos certificados no Brasil (97%) usa tecnologia de silício cristalino e estaria classificada entre A e B (eficiência energética).

O aperto de qualidade para os sistemas também vem da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), com a edição de três normas: a PN 03:082.01-001, que trata dos requisitos elétricos do inversor para a interconexão de sistemas fotovoltaicos à rede elétrica de distribuição; e a PN 03:082.01-002, sobre antiilhamento para inversores do SFCR. Neste último caso, a norma estabelece um procedimento de ensaio para avaliar o desempenho das medidas de prevenção de ilhamento utilizadas em sistemas fotovoltaicos conectados à rede elétrica. “É uma garantia clara para a segurança das concessionárias de energia”, explica Zilles, da USP.

A terceira é a PN 03:082.01-003, que estabelece procedimentos de ensaios para inversores para sistemas fotovoltaicos conectados à rede elétrica. A ABNT mantém uma comissão de estudos para tratar de instalações elétricas de sistemas de alimentação fotovoltaica, que vai abordar as instalações elétricas principais.[/box_light]

A Windeo Green Futur não é alemã, e sim belga, mas aposta no momento da energia solar fotovoltaica no Brasil, de acordo com o seu diretor operacional local, Alexandre Bretzner. Com investimentos iniciais de R$ 2,5 milhões, o mercado da empresa é a microgeração e a minigeração. O valor aportado no Brasil envolve basicamente o estoque de componentes para usinas eólicas e solares – ou projetos híbridos. Enquanto as torres eólicas serão importadas dos Estados Unidos, os painéis solares virão da China. “Precisamos incentivar a indústria local. Mesmo com impostos, os módulos solares importados ainda estão, em média, 70% mais baratos”, explica.

Bretzner aposta em projetos que adotem a energia solar em horários de pico, com foco em instalações comerciais e industriais e em residências de alto padrão. Com payback médio de dez anos no Sudeste, o especialista acredita que a tecnologia da Windeo possa se pagar em menos tempo nos estados do Nordeste, dependendo do tipo de instalação. Para avançar no Brasil, a empresa criou uma base de atendimento no Sul-Sudeste, com equipe própria e modelo turn key, e está fechando uma parceria com instaladores para atender outras regiões do país.

Parte do entusiasmo do executivo da Windeo é compartilhada por Renato Mangussi, diretor da divisão de energias renováveis da Tecnometal. A empresa é a primeira corporação brasileira a iniciar a produção de módulos fotovoltaicos no Brasil, com base na sua operação em Campinas-SP. Com know-how da norte-americana Spire (maquinários), a companhia mineira (tem sede em Vespasiano-MG) montou linha com capacidade instalada para produção de módulos equivalente a 25 MW anuais. Hoje, ela opera entre 15% e 20% desse volume, o que já era esperado, segundo ele. Na avaliação do executivo, a capacidade máxima deve ser atingida no final do ano que vem, justamente quando entra em vigor a legislação de micro e minigeração preparada pela Aneel.

O diretor da Tecnometal aposta no incremento de projetos futuros de mais de 1 MW de potência, fato que deve reduzir o preço atual da tecnologia, viabilizando projetos industriais e privados. “Existem consumidores de energia elétrica que pagam uma tarifa mais elevada e têm interesse em produzir energia limpa”, argumenta Mangussi. Para ele, a concorrência com empresas chinesas, algumas delas praticando dumping, na avaliação dele, deve ser combatida pelo suporte da companhia brasileira. “Não vamos competir por preço, mas por atendimento diferenciado, com assistência técnica local”, explica. Ele destaca que o posicionamento da Tecnometal será o de provedor completo, em regime turn key. A meta da divisão comandada por Mangussi é agressiva: atingir de 40% a 50% do faturamento do grupo até 2014, percentual hoje na casa de 5%. O que não será obtido nem na sombra e nem com pouca brisa.

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