Energia eólica: Leilões devem suprir déficit de transmissão, com atraso

Petróleo & Energia, Usina Eólica Alegria, no Rio Grande do Norte
Usina Eólica Alegria, no Rio Grande do Norte

Por Marcia Mariano

O Brasil é um dos poucos países no mundo com potencial para autossuficiência energética. Com seus 8,5 milhões de quilômetros quadrados de território e recursos naturais exuberantes, é um celeiro para utilização de todos os tipos de fontes de energia: hidrelétrica, eólica, solar, biomassa, entre outras. Entretanto, a combinação de escassez de chuvas, falta de planejamento e baixo investimento no setor está criando um ambiente de incertezas para o crescimento da economia que pode comprometer o desenvolvimento futuro.

Petróleo & Energia, TABELA 1 - Capacidade de escoamento de energia
Capacidade de escoamento de energia

Para tentar reduzir os prejuízos – acumulados com a elevação dos custos resultantes da compra de combustíveis para abastecer as usinas termelétricas (mais caras que as hidrelétricas), atualmente suprindo 24% da eletricidade do país – o governo federal decidiu antecipar os leilões para licitação de linhas de transmissão, abrangendo inclusive usinas eólicas.

A transmissão, aliás, é o principal gargalo na infraestrutura brasileira no que se refere ao setor de elétrico. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), essa antecipação dos leilões está sendo feita em áreas com grande potencial para construção de usinas.

A decisão visa evitar o descasamento que ocorreu no ano passado, quando parques eólicos do Nordeste, como no Rio Grande do Norte e na Bahia, ficaram sem funcionar por falta de linhas de transmissão para transportar a eletricidade para as centrais de distribuição e delas, finalmente, para os consumidores.

Antecipação dos leilões – A EPE enviou para Petróleo&Energia um quadro das linhas de transmissão previstas para as Regiões Nordeste e Sul do Brasil, para contemplar as usinas eólicas vencedoras dos leilões deste ano e dos próximos. Algumas redes já estão até licitadas, com previsão do início das obras em 2017, como exibe a Tabela 1.

Petróleo & Energia, Grafico 1 - Matriz Elétrica Brasileira (GW)
Matriz Elétrica Brasileira (GW)

A EPE também informa que serão realizados em 2014 mais dois leilões para geração de energia: o A-5, 28 de novembro, e o Leilão de Reserva, em 31 de outubro, que trará pela primeira vez a energia solar como produto único, ou seja, sem concorrer com outras fontes energéticas. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), por sua vez, confirma o leilão 04/2014, anunciado em agosto, para contratação de serviço de transmissão de energia elétrica nos estados do Rio Grande do Sul, Pará, Mato Grosso, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Tocantins e Amapá. Porém, antecipa que apenas o Lote A é destinado atender às usinas eólicas. Serão leiloados nove lotes, com investimentos previstos de R$ 5,6 bilhões para expansão das linhas e subestações de transmissão.

Com os novos empreendimentos, serão adicionados aproximadamente 4.600 km de linhas à rede atual. A Aneel, que não tem informação sobre o atual déficit de linhas de transmissão para suprir os parques eólicos brasileiros, confirma que a antecipação do leilão do Lote A ajudará o escoamento da energia de usinas eólicas localizadas no estado do Rio Grande do Sul. “O edital ainda não foi aprovado, precisamos da aprovação para mais detalhes”, informa a assessoria da Aneel, acrescentando que o prazo para a entrada em operação comercial das instalações é de 30 a 42 meses após o dia 15 de janeiro de 2015, data da assinatura dos contratos.

Petróleo & Energia, Grafico 2 - Energia limpa
Energia limpa

Crise hídrica – A geografia do território brasileiro, cortado por uma extensa rede de rios de planalto favoreceu o modelo hidrelétrico para geração de energia, que atualmente representa quase 70% da matriz brasileira (veja Gráfico 1).

A produção de energia nas usinas hidrelétricas, menos poluente que as térmicas alimentadas com óleo combustível, carvão e gás, é também mais econômica do ponto de vista operacional, pois usa a força cinética das quedas d’água para girar as turbinas e acionar os geradores de eletricidade. O volume de água, que aumenta periodicamente a vazão dos rios, também é favorecido pela abundância de chuvas que ocorrem nas regiões das Bacias Hidrográficas do Amazonas, Tocantins, São Francisco e Paraná. Mas, contar sempre com as dádivas da natureza pode ser arriscado, principalmente, quando surgem imprevistos meteorológicos. A baixa pluviosidade em algumas regiões brasileiras – São Paulo, a maior cidade do País, enfrenta a pior estiagem em 80 anos –, afeta não só o consumo de água potável como também o nível dos reservatórios das hidrelétricas, reduzindo a capacidade de geração de energia.

Alguns especialistas sustentam que o problema da crise não é só culpa da escassez das chuvas, mas do próprio modelo energético adotado no Brasil. Segundo eles, falta planejamento, tecnologia e recursos suficientes para suportar um plano emergencial que aposte, sobretudo, nas energias sustentáveis para compor uma nova matriz, menos dependente das águas dos rios.

Energia ecológica em debate – Rea­lizada no mês de junho, em São Paulo, a 4ª edição do Congresso de Tecnologias Limpas e Renováveis para a Geração de Energia – Ecoenergy trouxe ao debate os efeitos da crise no setor elétrico e da falta de estímulos às fontes renováveis. Podemos definir como energia renovável aquela obtida a partir de recursos naturais, capazes de se regenerar e que são virtualmente inesgotáveis, como a radiação solar ou a velocidade dos ventos. Diferem, assim, dos recursos não-renováveis como petróleo, carvão e até mesmo a água, que embora ainda abundante na natureza, tem seu ciclo de renovação cada vez mais ameaçado pelo mau uso, desperdício e fatores climáticos.

Os especialistas mostraram o potencial de mercado e a expansão das fontes renováveis, mas também apontaram obstáculos que impedem o avanço desse segmento no Brasil. Excesso de burocracia e regulamentação, falta de financiamento para alavancar os projetos, necessidade de políticas públicas mais efetivas e carência de mão de obra especializada foram descritos como principais inibidores de investimentos nesta área.

Petróleo & Energia, Modelo em 3D do parque eólico que a Honda constrói no RS
Modelo em 3D do parque eólico que a Honda constrói no RS

Elbia Melo, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica – Abeeólica, (veja entrevista na no início desta edição) destacou que, diante da perspectiva cada vez maior de escassez de chuvas, é imperativo que o Brasil consolide outras fontes que possam complementar e até mesmo suprir a demanda. Ela lembrou que a energia eólica vem crescendo no Brasil e já é uma modalidade viável em vários estados. Segundo informou, o país deu um salto no que se refere à geração de energia dos ventos, alcançando a marca média de 1,47 GW. “Desde 2004, quando foi criado o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfra), que deu impulso às novas fontes, já foram realizados vários leilões de sucesso, expandindo o uso dessa modalidade no Brasil”, comentou. A executiva defende que os parques de energia solar e eólica utilizem redes de transmissão conjunta como forma de reduzir os custos operacionais. Para dar uma ideia do que isso representa, a instalação de um km de linha de transmissão de energia pode custar até R$ 1 milhão.

Juarez Lopes, membro da coordenação executiva do Plano Na­cional de Energia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), questionou a possibilidade de geração conjunta nos parques de energia eólica e solar fotovoltaica (FV). “Um sistema depende da velocidade dos ventos e o outro da radiação solar e ambos da sazonalidade”, apontou. Lopes alertou para o que chama de “mito da complementaridade”, argumentando que na região Nordeste, por exemplo, os mapas meteorológicos mostram que na Bahia, em determinadas épocas do ano, a queda de ventos coincide com o aumento de nuvens no céu, afetando o rendimento tanto de um sistema quanto do outro simultaneamente. “Complementaridade existe em áreas do Sul e Sudeste, onde um estado sofre com chuvas torrenciais, como Santa Catarina, enquanto outro, como São Paulo, padece de uma seca histórica. Por isso, considero que nestas áreas, o ideal é instalação de usina hidrelétrica reversível para eólica, onde o aproveitamento de recursos conjuntos é mais eficaz que a combinação eólica/solar”, recomendou.

Petróleo & Energia, Grafico 3 - Energia competitiva
Energia competitiva

O diretor executivo da Associa­ção Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) Rodrigo Lo­pes Sauaia prefere apontar como um dos problemas graves no Brasil o desperdício de energia. “Como se não bastasse a falta de chuvas, o País ainda registra 16% de perdas de energia nas linhas de transmissão”, criticou. Ele também citou as barreiras tributárias como empecilho para o desenvolvimento do setor de energia solar. “Minas Gerais foi o primeiro estado a entender a importância deste sistema e abrir mão do ICMS sobre energia solar; Pernambuco também é outro exemplo na concessão de benefícios para sistemas fotovoltaicos de geração de eletricidade”, informou. Rodrigo Sauaia acredita que, devido ao incremento de demanda, a maioria dos sistemas alternativos deverá estar conectada à rede distribuidora nacional em dois anos. “Entre as fontes de energia sustentáveis, o fotovoltaico é o que apresenta maior chance de crescer: 86% contra 10% do eólico e 1% do biogás”, acrescentou.

Financiamento – Outra crítica feita pelos especialistas é a falta de financiamento do BNDES para pessoas físicas que queiram instalar geradores de energia solar em suas casas. Na Europa, por exemplo, há financiamento com prazos de até 10 anos para sistemas fotovoltaicos para aplicação residencial, com vida útil média de 25 anos. No Brasil, o prazo máximo oferecido pela rede bancária é de cinco anos.

No caso da geração centralizada, que envolve projetos mais amplos de abastecimento, a esperança do setor solar está nos leilões. O Governo Federal, por meio do Ministério de Minas e Energia, tem intenção de fomentar o desenvolvimento da cadeia produtiva fotovoltaica, a exemplo do que fez com a eólica. “O primeiro leilão específico de FV foi realizado em 2013, em Pernambuco, no qual foram contratados 122,8 MW ao preço médio de R$ 228,6/MWh. O preço é factível, mas a pergunta é: será que vai haver financiamento para estes projetos, cuja meta estipulada para fornecimento é 2017?”, indaga Rodrigo Sauaia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios