Energia eólica – Investimentos confirmam geração de 20 gw até 2015

Os atores do segmento também consideram o outro lado da moeda, os fatores contrários à geração eólica. Prova disso é a iniciativa da ABEEólica em encomendar uma pesquisa para determinar qual seria realmente o teto para a participação da fonte na matriz energética brasileira. As estimativas atuais dos especialistas, segundo Élbia, oscilariam entre 20% e 30%.

Outro fator levado em conta pelo setor está relacionado à transmissão da energia gerada pelos parques eólicos. É fato que parte da construção da infraestrutura, que começa logo após a definição dos leilões, está atrasada. Para entender o processo é necessário conhecer o mecanismo de prazo dos três leilões promovidos pelo governo a cada ano: os ganhadores do A-3 têm três anos para ativar a geração; e, no A-5, o prazo se estende por cinco anos. Um terceiro e último leilão, chamado de reserva, pode acontecer ou não. O atraso atual diz respeito às redes de transmissão para os parques licitados no A-3 de 2009, cujas usinas estão entrando em operação.

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Uma simulação realizada pela consultoria especializada Engenho indica que a substituição de usinas termelétricas a carvão por parques eólicos – no período de 2010 e 2019 – representaria uma redução de 51% na emissão de dióxido de carbono. Os números são positivos, mas estão longe de ser tão concretos como os apresentados em janeiro de 2011 pelo jornal Valor Econômico. De acordo com o publicado, o arrendamento de terras para a instalação de torres seria uma nova fonte de renda para vários agricultores do Ceará, Rio Grande do Norte e da Bahia, para ficar em apenas três exemplos.

Segundo o jornal, o arrendamento significaria um pagamento anual entre R$ 5 mil a R$ 8 mil por torre. Isso não impede que os agricultores continuem cultivando as suas propriedades. Há casos, como o do baiano Osvaldino de Souza, que vai receber R$ 900 mensais pelo arrendamento do terreno onde ficarão duas torres. Porém, a quebra do contrato pode representar uma multa de R$ 5 milhões, além do valor do investimento e da correção em cima do que foi investido pelos empreendedores do parque eólico.

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“Esse atraso afeta dois parques do Rio Grande do Norte e um na Bahia, que juntos somam 622 MW”, informa Élbia. “No primeiro caso, um dos empreendimentos pertence à CPFL Renováveis e o outro à Dobreve. O parque baiano é da Renova”, completa. As chamadas centrais de geração para conexão compartilhada (IGCs), infraestrutura de transmissão que coleta a produção das usinas eólicas e a integra ao sistema brasileiro, previstas para primeiro de julho deste ano, vão efetivamente entrar em operação em novembro de 2014. Élbia reconhece o atraso, mas lembra que o governo já está fazendo a correção de rota. “É preciso lembrar que 2009 marcou um novo modelo de leilão e que o mecanismo está sendo aperfeiçoado”, argumenta.

Com o atraso, o maior parque eólico da América Latina está pronto para gerar, mas impossibilitado de transmitir essa energia para o resto do país. Trata-se da infraestrutura da Renova,em Caetité-BA. Deacordo com Pedro Boas Pileggi, diretor administrativo-financeiro e de relações com investidores, o problema não pode ser creditado ao setor eólico e sim aos construtores das ICGs, que são escolhidos por processo público promovido pela Aneel. Com 294 MW de capacidade, os parques baianos da Renova foram contratados no leilão de reserva de 2009, inaugurando a fase pós-Proinfa, programa do governo federal de incentivo a fontes renováveis de energia elétrica. Há três anos, ele deixou de ser a referência para a contratação de energia eólica, substituído por um arcabouço que inclui os leilões e, no caso dos parques eólicos, a possibilidade de construção das ICGs para os locais que não têm acesso às linhas de transmissão próximas.

Petróleo & Energia, Luís Valbusa, Diretor da Semi Industrial, Energia eólica - Investimentos confirmam geração de 20 gw até 2015
Valbusa: preços dos equipamentos de geração devem sofrer reajustes

Para Luís Valbusa, diretor da Semi Industrial e membro do Grupo de Trabalho de Pequenas Centrais Hidrelétricas (GT-PCHs), o atraso na construção de ICGs não é o único problema para os empreendedores da área eólica. Na avaliação do executivo, eles devem enfrentar um reajuste de preços de equipamentos nos próximos anos. “Foram assumidos grandes compromissos e será necessário cumpri-los”, argumenta. Embora considerada também uma fonte renovável, a geração por meio das PCHs tem um custo médio de R$ 150 por MWh, contra os R$ 101,3 (leilão A-3) e R$ 105,5 (A-5), ambos de 2011. Já o CEO da consultoria Capital Invest, Nestor Casado, presente no evento PCH 2012, realizado em abril deste ano pela Viex, acrescenta outro componente à discussão. De acordo com ele, os valores de Capex (gastos de capital) das eólicas são temporários, uma vez que os fabricantes estariam “comprando” market share no Brasil. “Recentemente a revista Veja publicou uma reportagem mostrando que todos os produtos no Brasil são mais caros. A única exceção é o que se cobra pelos equipamentos das eólicas”, constatou.

Élbia, da ABEEólica, acredita que o crescimento da geração eólica vai encontrar um ponto de equilíbrio e destaca que uma das deficiências dessa fonte possa ser usada a favor. “Temos uma sazonalidade na produção de vento, que vai de outubro a abril, exatamente quando se observa o período de secas e, portanto, uma queda na produção hidrelétrica”, argumenta. Para ela, essa “sazonalidade inversa” pode representar um aumento virtual na capacidade de armazenamento das eólicas. Ela não se refere especificamente às PCHs, mas às hidrelétricas tradicionais com reservatórios.

Petróleo & Energia, Nestor Casado, CEO da consultoria Capital Invest, Energia eólica - Investimentos confirmam geração de 20 gw até 2015
Casado: fornecedores venderam barato para entrar no mercado

Para a executiva, quem determina a matriz atualmente no Brasil é o preço cobrado nos leilões, favorecendo a participação eólica, pois ela é, hoje, a segunda mais competitiva. “O preço é uma variável discreta no tempo, não é necessariamente o custo de produção, isso inverte os sinais de médio e longo prazo. Será interessante para o país que os leilões sejam pensados com um modelo multicritério, envolvendo preço e qualidade, levando-se em conta a matriz planejada pela EPE”, argumenta. “No setor elétrico falamos muito em custo marginal da expansão da energia, que não é o preço do leilão. São valores que diferem entre si e que precisam ser aproximados”, detalha a executiva.

De acordo com ela, um dos fatores que contribuem para essa diferença é a impossibilidade de se calcular na matriz, no momento do leilão, as eficiências econômicas em torno daquele investimento. “Isso pode acabar alocando projetos até menos eficientes porque se vislumbra apenas o preço naquele momento. Avalio, portanto, que um leilão multicritério, onde se explique com bastante fundamentação o porquê dessa escolha, pode ser a solução para mantermos uma matriz equilibrada e com fontes renováveis”, finaliza.

 

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