Energia eólica – Investimentos confirmam geração de 20 gw até 2015

O Brasil ultrapassou o patamar de 1 GW de geração eólica em maio de 2011 e, um ano depois, essa capacidade foi incrementada em 50%. Se o cenário de crescimento for mantido, é provável que o país chegue aos 20 GW em 2015. Pela estimativa da Empresa de Planejamento de Energia (EPE), tal nível só deveria ser atingido em 2020, ou seja, estaríamos cinco anos à frente do planejado. A antecipação é prevista pela Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), instituição que reúne a cadeia produtiva do setor. Dados mais recentes mostram que, além dos 1,5 GW em operação, existem outros 1,3 GW em construção e mais 5,9 GW que foram contratados nos últimos leilões e devem ser finalizados até 2016. Para 2012 estão previstos pelo menos dois certames promovidos pelo governo (A-3 e A-5, veja quadro), o que deve acrescentar uma dinâmica maior ao já acelerado segmento.

Doze estados fazem parte do mapa estratégico da geração eólica, com destaque para três no Nordeste (Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia) e para o Rio Grande do Sul. Os potiguares logo vão assumir o primeiro posto do ranking: têm 236.6 MW em operação e outros 686 MW em construção (a metade dos projetos do Brasil nessa fase). Além do mais, o Rio Grande do Norte possui 2,18 GW de potência contratada nos últimos leilões. Hoje, o estado ainda não aparece na liderança, pois a maior operação de parques em atividade se concentra no Ceará, com 519 MW de potência. Os cearenses têm 67,2 MW previstos em construção e 1,37 GW de potência contratada.

A terceira colocação fica com a Bahia, que não possui projetos em construção atualmente, mas detém 422,5 MW em operação e 1,15 GW em projetos contratados nos leilões mais recentes. O quarto estado mais importante no mapa da produção eólica brasileira é o Rio Grande do Sul, com 340 MW em operação, 70 MW de projetos em construção e 993,8 MW em potência contratada. O Paraná não possui nem projetos em construção e nem energia contratada dos leilões mais recentes, mas apresenta uma capacidade de geração de 236,4 MW.

[toggle_simple title=”Bons ventos para leilões” width=”Width of toggle box”]

Os dois novos leilões previstos para 2012 (A-3 e A-5) sinalizam para uma forte participação das eólicas. Se todos os projetos inscritos fossem aceitos, o certame somaria uma capacidade de 27 GW, com 663 projetos, sendo 583 de eólicas (gerando 14,2 GW). As termelétricas a gás natural ficam em segundo lugar, com 10,3 GW ofertados. O início de suprimento seria 2015, com contratos de 20 anos. Já o A-5 desse ano tem 585 projetos cadastrados, sendo 508 de eólicas. No total seriam 25 GW ofertados, com 12,6 GW oriundos de eólicas.

A soma da capacidade de oferta dos projetos cadastrados é grande, mas a contratação efetiva obviamente será menor. A participação das eólicas tem sido forte desde 2009, quando foram inscritos projetos que somavam 13 GW (todas as fontes). A geração eólica levou 753 MW (exigindo uma capacidade instalada de 1,8 GW). Em 2010, os inscritos somaram 11 GW, com a contratação de 899 MW de eólica (2 GW de potência instalada). No ano passado, os projetos inscritos nos leilões A-3 mais os de reserva somaram 10,5 GW e as eólicas levaram 832 MW (potência instalada de 1,9 GW). Finalmente, o A-5 teve 7,5 GW de inscrição e contratou 487,5 MW médios em geração eólica, demandando uma potência instalada de 978,5 MW dos parques ganhadores.

A favor das usinas eólicas conta o aumento do fator de capacidade, ou seja, quanto efetivamente uma usina pode gerar. No leilão A-3, de 2011, o valor apontado foi de 45%, enquanto o A-5 indicou um fator de capacidade médio de 49%. Esses números são apontados pelos empreendedores nos projetos que venceram os dois certames e indicam uma confiança maior na tecnologia.

[/toggle_simple]

Além da tradução em potência instalada, essa indústria também pode ser vista pela geração direta de empregos – cerca de 12 mil postos de trabalho na fabricação de aerogeradores, segundo a ABEEólica –, além de outros 20 mil diretos na construção de parques até 2016, grande parte deles usando mão de obra local. Das sete fábricas com operação no Brasil, duas produzem a cadeia completa de equipamentos – Wobben e Impsa. As demais estão em processo de entrada no país, sendo que chegaram de forma significativa a partir de 2010. O fato de várias delas já terem iniciado a produção local comprova o interesse em atuar no longo prazo. O modelo de negócio predominante é a oferta do pacote, com componentes que podem vir de outras empresas. A brasileira Tecsis, por exemplo, é um desses fornecedores, confeccionando as pás dos aerogeradores para a maioria dos fabricantes em atuação no Brasil.

Petróleo & Energia, Pedro Boas Pileggi, Diretor administrativo-financeiro e de relações com investidores, Energia eólica - Investimentos confirmam geração de 20 gw até 2015
Pileggi: parque de Caetité-BA espera parado por linhas de transmissão

O crescimento vertiginoso da geração eólica pode ser explicado por vários dados positivos, a começar pela demanda anual por energia no país – cerca de 3,2 GW médios por ano –, em sintonia com um planejamento que prioriza as fontes renováveis, cuja média de expansão seria de 12%, considerando eólica, pequenas centrais hidrelétricas e biomassa. As duas últimas têm vivido um inferno particular, mas a eólica navega em céu de brigadeiro, cenário explicado por Élbia Melo, presidente executiva da ABEEólica, com base em fatores conjunturais e estruturais.

“O Brasil atual é um ambiente favorável para investimentos em infraestrutura e praticamente o único país no mundo que está investindo em energia eólica, importando cerca de 40% dos bens de capital”, informa. Com a Europa e os Estados Unidos puxando o freio de mão nessa área e a China e a Índia priorizando seus próprios fornecedores, os players mundiais vieram em massa para cá. Isso explica a agressiva política dos fabricantes para ganhar mercado (um especialista do segmento que prefere não se identificar avalia que os preços estejam entre 25% e 30% abaixo da tabela). Os fatores positivos incluem ainda a desoneração de impostos, como ICMS e IPI, as condições amenas de financiamento e o modelo de leilão e de contratos. Nesse último caso, os prazos são de 20 anos, com aplicação do IPCA como mecanismo de reajuste.

Se não bastasse esse rol de benefícios, dois outros fatores conjunturais reforçam a musculatura da geração eólica: tecnologia e condições de vento. Ao contrário das pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), que apresentam uma tecnologia amadurecida, a eólica tem passado por vários aperfeiçoamentos. As torres, que antes tinham uma altura de40 m, hoje são construídas com100 m, incrementando o aproveitamento do vento. Há quem fale em120 m, o que poderia aumentar ainda mais a geração.

Ao mesmo tempo em que a altura das torres cresce, o Brasil passa a ter uma visão mais apurada da sua capacidade de geração eólica. Os 143 GW estimados no começo do ano 2000 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) hoje são avaliados em 300 GW. Acrescente-se a isso um fator de capacidade médio de 50% e temos um cenário ainda mais positivo. Esse índice significa que uma turbina projetada para produzir 2 MW poderá gerar a metade desse valor. Pouco? Não, principalmente quando se considera que a média europeia, por exemplo, é de cerca de 30%.

Os atores do segmento também consideram o outro lado da moeda, os fatores contrários à geração eólica. Prova disso é a iniciativa da ABEEólica em encomendar uma pesquisa para determinar qual seria realmente o teto para a participação da fonte na matriz energética brasileira. As estimativas atuais dos especialistas, segundo Élbia, oscilariam entre 20% e 30%.

Outro fator levado em conta pelo setor está relacionado à transmissão da energia gerada pelos parques eólicos. É fato que parte da construção da infraestrutura, que começa logo após a definição dos leilões, está atrasada. Para entender o processo é necessário conhecer o mecanismo de prazo dos três leilões promovidos pelo governo a cada ano: os ganhadores do A-3 têm três anos para ativar a geração; e, no A-5, o prazo se estende por cinco anos. Um terceiro e último leilão, chamado de reserva, pode acontecer ou não. O atraso atual diz respeito às redes de transmissão para os parques licitados no A-3 de 2009, cujas usinas estão entrando em operação.

[toggle_simple title=”Torres pagam arrendamento” width=”Width of toggle box”]

Uma simulação realizada pela consultoria especializada Engenho indica que a substituição de usinas termelétricas a carvão por parques eólicos – no período de 2010 e 2019 – representaria uma redução de 51% na emissão de dióxido de carbono. Os números são positivos, mas estão longe de ser tão concretos como os apresentados em janeiro de 2011 pelo jornal Valor Econômico. De acordo com o publicado, o arrendamento de terras para a instalação de torres seria uma nova fonte de renda para vários agricultores do Ceará, Rio Grande do Norte e da Bahia, para ficar em apenas três exemplos.

Segundo o jornal, o arrendamento significaria um pagamento anual entre R$ 5 mil a R$ 8 mil por torre. Isso não impede que os agricultores continuem cultivando as suas propriedades. Há casos, como o do baiano Osvaldino de Souza, que vai receber R$ 900 mensais pelo arrendamento do terreno onde ficarão duas torres. Porém, a quebra do contrato pode representar uma multa de R$ 5 milhões, além do valor do investimento e da correção em cima do que foi investido pelos empreendedores do parque eólico.

[/toggle_simple]

“Esse atraso afeta dois parques do Rio Grande do Norte e um na Bahia, que juntos somam 622 MW”, informa Élbia. “No primeiro caso, um dos empreendimentos pertence à CPFL Renováveis e o outro à Dobreve. O parque baiano é da Renova”, completa. As chamadas centrais de geração para conexão compartilhada (IGCs), infraestrutura de transmissão que coleta a produção das usinas eólicas e a integra ao sistema brasileiro, previstas para primeiro de julho deste ano, vão efetivamente entrar em operação em novembro de 2014. Élbia reconhece o atraso, mas lembra que o governo já está fazendo a correção de rota. “É preciso lembrar que 2009 marcou um novo modelo de leilão e que o mecanismo está sendo aperfeiçoado”, argumenta.

Com o atraso, o maior parque eólico da América Latina está pronto para gerar, mas impossibilitado de transmitir essa energia para o resto do país. Trata-se da infraestrutura da Renova,em Caetité-BA. Deacordo com Pedro Boas Pileggi, diretor administrativo-financeiro e de relações com investidores, o problema não pode ser creditado ao setor eólico e sim aos construtores das ICGs, que são escolhidos por processo público promovido pela Aneel. Com 294 MW de capacidade, os parques baianos da Renova foram contratados no leilão de reserva de 2009, inaugurando a fase pós-Proinfa, programa do governo federal de incentivo a fontes renováveis de energia elétrica. Há três anos, ele deixou de ser a referência para a contratação de energia eólica, substituído por um arcabouço que inclui os leilões e, no caso dos parques eólicos, a possibilidade de construção das ICGs para os locais que não têm acesso às linhas de transmissão próximas.

Petróleo & Energia, Luís Valbusa, Diretor da Semi Industrial, Energia eólica - Investimentos confirmam geração de 20 gw até 2015
Valbusa: preços dos equipamentos de geração devem sofrer reajustes

Para Luís Valbusa, diretor da Semi Industrial e membro do Grupo de Trabalho de Pequenas Centrais Hidrelétricas (GT-PCHs), o atraso na construção de ICGs não é o único problema para os empreendedores da área eólica. Na avaliação do executivo, eles devem enfrentar um reajuste de preços de equipamentos nos próximos anos. “Foram assumidos grandes compromissos e será necessário cumpri-los”, argumenta. Embora considerada também uma fonte renovável, a geração por meio das PCHs tem um custo médio de R$ 150 por MWh, contra os R$ 101,3 (leilão A-3) e R$ 105,5 (A-5), ambos de 2011. Já o CEO da consultoria Capital Invest, Nestor Casado, presente no evento PCH 2012, realizado em abril deste ano pela Viex, acrescenta outro componente à discussão. De acordo com ele, os valores de Capex (gastos de capital) das eólicas são temporários, uma vez que os fabricantes estariam “comprando” market share no Brasil. “Recentemente a revista Veja publicou uma reportagem mostrando que todos os produtos no Brasil são mais caros. A única exceção é o que se cobra pelos equipamentos das eólicas”, constatou.

Élbia, da ABEEólica, acredita que o crescimento da geração eólica vai encontrar um ponto de equilíbrio e destaca que uma das deficiências dessa fonte possa ser usada a favor. “Temos uma sazonalidade na produção de vento, que vai de outubro a abril, exatamente quando se observa o período de secas e, portanto, uma queda na produção hidrelétrica”, argumenta. Para ela, essa “sazonalidade inversa” pode representar um aumento virtual na capacidade de armazenamento das eólicas. Ela não se refere especificamente às PCHs, mas às hidrelétricas tradicionais com reservatórios.

Petróleo & Energia, Nestor Casado, CEO da consultoria Capital Invest, Energia eólica - Investimentos confirmam geração de 20 gw até 2015
Casado: fornecedores venderam barato para entrar no mercado

Para a executiva, quem determina a matriz atualmente no Brasil é o preço cobrado nos leilões, favorecendo a participação eólica, pois ela é, hoje, a segunda mais competitiva. “O preço é uma variável discreta no tempo, não é necessariamente o custo de produção, isso inverte os sinais de médio e longo prazo. Será interessante para o país que os leilões sejam pensados com um modelo multicritério, envolvendo preço e qualidade, levando-se em conta a matriz planejada pela EPE”, argumenta. “No setor elétrico falamos muito em custo marginal da expansão da energia, que não é o preço do leilão. São valores que diferem entre si e que precisam ser aproximados”, detalha a executiva.

De acordo com ela, um dos fatores que contribuem para essa diferença é a impossibilidade de se calcular na matriz, no momento do leilão, as eficiências econômicas em torno daquele investimento. “Isso pode acabar alocando projetos até menos eficientes porque se vislumbra apenas o preço naquele momento. Avalio, portanto, que um leilão multicritério, onde se explique com bastante fundamentação o porquê dessa escolha, pode ser a solução para mantermos uma matriz equilibrada e com fontes renováveis”, finaliza.

 

Leia mais:[box_light]Energia eólica – O papel das comercializadoras[/box_light]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios