Cresce a procura por tratamento Off-Site de efluentes industriais

Química e Derivados - Tancagem para efluentes a tratar na Attend, em Barueri-SP
Tancagem para efluentes a tratar na Attend, em Barueri-SP

O mercado de tratamento de efluentes off-site, na expectativa de que finalmente ocorra uma retomada da atividade industrial no país, começa a se fortalecer para receber mais pedidos de empresas que terceirizam a operação dessas estações.

Não chega a ser um movimento com grandes investimentos, de novas instalações, mas ações pontuais em algumas das unidades que prestam esse tipo de serviço e demonstram que há um clima de expectativa de retomada da produção em algum momento do futuro próximo, gerando mais efluentes a serem tratados.

Um exemplo disso ocorre na Attend Ambiental, de Barueri-SP, empresa nascida da união entre Sabesp e Estre, que conta com linhas dedicadas para vários tipos de efluentes, os quais são, ao final do tratamento, encaminhados via tubulação para o sistema biológico da ETE Barueri, em cujo terreno a Attend está implantada desde dezembro de 2014.

Em março, a Attend conseguiu a licença de operação de suas duas últimas linhas de tratamento: a azul, para efluentes orgânicos voláteis e produtos biodegradáveis, como compostos fenólicas, corantes e solventes provenientes das indústrias têxtil, farmacêutica e química, e a linha vermelha, para tratar lamas bentoníticas e lodos de ETE, oriundos de perfuração de poços, escavação e do tratamento de esgoto.

Reforço na equipe – Segundo o gerente comercial da Attend, Sylvain Maïs, para vender a nova solução das linhas, houve inclusive um reforço na equipe, entre julho e agosto de 2018, com o propósito de buscar novos contratos em indústrias que geram esses tipos de efluentes. A linha azul conta com o processo oxidativo avançado Fenton, com sulfato de ferro e peróxido de hidrogênio, para quebrar as cadeias moleculares, por exemplo, de efluentes de reatores de produção de defensivos agrícolas e residuais de tanques e embalagens de produtos químicos. A linha tem capacidade para tratar 120 m³/dia. Já a linha vermelha é um sistema de desidratação por filtro-prensa (375 m³/dia).

Química e Derivados - Instalação coberta da Attend recebe cargas 24 horas por dia
Instalação coberta da Attend recebe cargas 24 horas por dia

No fim de 2018, haviam também entrado em operação outras duas linhas: a amarela e a cinza. A amarela é para efluentes inorgânicos, como metais pesados e substâncias ácidas e alcalinas, vindos das indústrias metalomecânica e de galvanoplastia. O tratamento é voltado principalmente para soluções aquosas de desengraxantes e decapantes, efluentes de sistemas de exaustão de fundição, da produção de baterias automotivas, de limpeza de elementos gráficos e processos de revestimento metálico em geral. O tratamento envolve floculação, flotação por ar dissolvido, homogeneização e ajuste de pH, reação de precipitação e filtração. Com seis baias, tem capacidade para 345 m³/dia (23 caminhões).

A linha cinza é para efluentes com alta concentração de óleo, graxas, borras oleosas de origem animal, vegetal ou sintética. Além da remoção de sólidos por gradeamento manual, os óleos sobrenadantes são removidos por skimmer, que precede a floculação e a flotação por ar dissolvido, antes do encaminhamento para a ETE Barueri para o tratamento biológico, como se dá com todos os efluentes tratados pela Attend. A capacidade dessa linha é de 240 m³/dia, em três baias.

Desde o fim de 2014, a Attend opera com a linha verde, para tratar altar carga orgânica, chorume de aterros, que representam o maior volume do tratamento. Praticamente todos os grandes aterros da região metropolitana enviam chorume para lá, como o Aterro Caieiras e o CDR Pedreira. Com 12 baias para descarregamento simultâneo, isso significa capacidade para 216 carretas de 30 m³/dia e vazão média de 6.480 m³/dia.

Na linha verde, o tratamento inclui gradeamento para remoção de resíduos sólidos grosseiros, tanque de separação de óleos e graxas por gravidade. Com os resíduos sólidos separados e descartados em aterros, o efluente final passa por medidor de vazão (calha Parshall), antes de seguir para a ETE Barueri via tubulação, onde há remoção de carga orgânica por tratamento biológico.

Outra linha que também já estava em operação é a marrom, para efluentes com alta carga de sólidos, como os oriundos de fossas e autofossas residenciais e industriais, de caixas de gordura, de banheiros químicos, efluentes industriais não-perigosos e da indústria de alimentos. Conta com 12 baias para descarregamento automático e capacidade para tratar uma média de 4.800 m³/dia, o equivalente a 320 caminhões de 15 m³/dia. Seu tratamento inclui remoção de sólidos grosseiros por gradeamento e remoção de areia, sólidos mais finos e gorduras por meio de roscas rotativas.Os tratamentos das linhas da Attend que recebem os efluentes industriais com o processo físico-químico, segundo Sylvain Maïs, têm preços que variam conforme a dinâmica a ser adotada, por sua vez determinada com as análises do laboratório interno a partir de amostras. “Mas o nosso preço é muito competitivo, por conta da flexibilidade operacional e capacidade de armazenamento que temos”, explica. Isso significa, grosso modo, que há a possibilidade de criar blends entre os efluentes para minimizar o custo do tratamento. “Um tipo de efluente pode corrigir o pH de outro, servindo como pré-tratamento, por exemplo”, diz. O custo de tratamento para um efluente industrial, que demanda físico-químico, pode ir de R$ 140 a R$ 350/t.

A Attend Ambiental opera 24 horas por dia, o que é considerado um diferencial no mercado, pois não são muitas as estações off-site com essa característica. A central de tratamento tem capacidade de recebimento de 611 caminhões por dia no pátio coberto do ponto de descarga. A empresa também oferece suporte técnico para obtenção de autorizações de transporte e destinação e indica transportadoras certificadas para a operação.

24 horas em Salto – Também se movimenta para a possível melhora no ambiente de negócios a Sanetrat, de Salto-SP, que opera uma estação de tratamento de efluentes industriais e também de chorume e fossa séptica com capacidade para 6 mil m³/mês. Segundo revela o diretor da Sanetrat, Francisco Faus, no fim de 2018 a central passou a operar também 24 horas. Além disso, o laboratório da estação foi acreditado pelo Inmetro, com a norma ISO 17025, permitindo que as análises das amostras dos clientes sejam aceitas pelos órgãos ambientais na emissão de certificados de destinação e transporte.

Química e Derivados - Ensaio de precipitação de sólidos realizado pela Sanetrat
Ensaio de precipitação de sólidos realizado pela Sanetrat

Instalada desde 2008, a Sanetrat, empresa do grupo Conasa, que tem a concessão de saneamento em Salto (Sanesalto), em 2015 tinha ampliado e adequado a estação para atender vários tipos de efluentes, como oleosos, ácidos, com DQO, com metais, com cromo hexavalente ou alcalinos concentrados.

O maior volume recebido pela estação é de chorume, mas há uma grande diversidade de efluentes de indústrias sendo tratados, responsáveis pela maior parte dos 200 contratos da Sanetrat. Há um tratamento físico-químico, com floculador, flotador de ar dissolvido para óleos, espessador de lodo e uma etapa de quebra-químico. Também há tratamento biológico por ar dissolvido com difusores de ar de bolha fina. Todos os efluentes tratados são descartados na rede de esgoto da Sanesalto, dentro das exigências do artigo 19-A para lançamento.

Segundo Faus, boa parte das indústrias atendidas são dos setores metalomecânico, químico, alimentício, têxtil e de galvanoplastia. As empresas são de todos os portes, pois mesmo grandes indústrias contam com alguns tipos de efluentes cujo tratamento preferem terceirizar, caso das produtoras de agroquímicos.

Embora julgue acirrada a competição entre os fornecedores das áreas, na opinião do diretor da Sanetrat, a alta ilegalidade no setor, ou seja, de empresas que optam por descartar os efluentes sem tratamento, é outro “concorrente” importante. “A Cetesb precisaria aumentar a fiscalização”, diz. Para ele, uma iniciativa que pode brecar as práticas ilegais é a adoção do Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR) Eletrônico, que alguns estados estão usando e que o Ministério do Meio Ambiente estuda aplicar nacionalmente.

O MTR Eletrônico, adotado primeiro por Santa Catarina, é um sistema de rastreabilidade do resíduo. Em resumo, o sistema se baseia em manifesto de destino por código de barras emitido pelo gerador na hora do envio via transportadora, que receberá a baixa apenas na hora de recebimento pelo tratador-destinatário. Toda essa movimentação gera relatórios de destinação, que seguem on-line para o órgão ambiental.

Off e depois on – Com foco tanto no modelo off-site, como no on-site (quando a fornecedora monta e/ou opera uma estação dentro do cliente), a Opersan, de São Paulo-SP, percebe um momento de retomada dos negócios que se reflete nas duas áreas.

A análise é do gerente comercial da Opersan, Antonio Fréo, que tem recebido ultimamente pedidos com características comuns. Segundo explica, há clientes desengavetando projetos de ampliação na produção, mas que preferem de início não investir no tratamento de efluentes on-site, terceirizando a operação na fase inicial, para não aumentar o investimento. Mas a ideia deles, continua Fréo, é no médio prazo optar por novas ETEs dentro dos complexos industriais. De acordo com o gerente, esse movimento começou por volta de outubro de 2018.

“Dessa forma, também cativamos o cliente, dando a ele primeiro a solução off-site e, depois, com a oferta de uma solução de BOT, por exemplo, na qual investimos, montamos e operação a planta”, diz. Segundo ele, trata-se de uma evolução natural, na medida em que a nova produção começa a ganhar corpo. “Quando o volume de efluentes fica muito grande, o próprio custo logístico da operação off-site passa a se tornar inviável”, complementa Fréo.A movimentação nas estações da Opersan espalhadas pelo país – Jandira, Indaiatuba e Jundiaí (em SP), Rio de Janeiro-RJ, Blumenau-SC e Camaçari-BA – começaram a melhorar no ano passado, afirma Fréo. Embora não detalhe os números, o gerente afirma que houve crescimento de um dígito e, para 2019, a expectativa é de que seja de dois dígitos. Uma sinalização positiva é a retomada da Petrobras em sondagem e perfuração, o que gera grandes volumes de efluentes destinados a estações off-site. “Estamos participando de várias licitações da estatal no Rio de Janeiro e na Bahia”, revela.

Química e Derivados - Descarga de rejeitos na linha de tratamento da Sanetrat
Descarga de rejeitos na linha de tratamento da Sanetrat

Com tratamento físico-químico em todas as estações e biológico em Blumenau, as centrais paulistas e da Bahia contam também com o sistema de termocompressão a vácuo, processo que promove a destilação dos efluentes contaminados por sulfetos, sulfatos, óleos e graxas, metais pesados e com altas cargas de DBO e DQO.

As unidades da Opersan tratam efluentes ácidos e alcalinos, biológicos e chorume, contaminados com metais pesados e com óleos diversos. Conforme explica Fréo, a operação começa com o estudo do efluente a ser tratado, que pode ter algum componente removido para tornar o tratamento mais viável economicamente na estação. Depois disso, com a análise da amostra nos laboratórios da empresa, a rota é definida, assim como o custo proposto ao cliente.

NOTAS

Na gaveta 1

O anteprojeto de lei que dispõe sobre o inventário, a avaliação de risco e controle de substâncias químicas do Brasil, que estava na Casa Civil da Presidência da República desde janeiro, foi reenviado para o Ministério do Meio Ambiente. A atitude pegou de surpresa os envolvidos na SUA elaboração, que levou mais de quatro anos de trabalhos comandados pela Comissão Nacional de Segurança Química (Conasq). A informação no mercado é a de que o novo ministro Ricardo Salles “congelou” o processo até segunda ordem, o qual segue em reavaliação pelo menos até o fim do ano.

Na gaveta 2

Se seguisse o ritmo anterior, que já estava atrasado, o anteprojeto que estabelece controle sobre as substâncias químicas no país iria da Casa Civil para o Congresso Nacional, seguindo os trâmites legislativos até a sua regulamentação. Como sofre esse revés, o país corre até mesmo o risco de não ser aceito na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), como vem pleiteando nos últimos anos. Isso porque para se tornar membro da OCDE o Brasil precisa se comprometer com 20 requisitos apenas para o setor químico, sendo que o anteprojeto de lei preenche nove deles.

Na gaveta 3

O anteprojeto de lei é parte do desenvolvimento de ações para gestão segura de produtos químicos, que se alinham com o compromisso brasileiro firmado como signatário do Strategic Approach to International Chemicals Management (SAICM). A determinação do SAICM é a de que até 2020 as substâncias químicas dos países signatários estejam dentro de parâmetros de uso e produção que reduzam efeitos à saúde humana e ao meio ambiente. A indústria química mundial está fazendo o seu “dever de casa”, como ocorreu com a Europa, com o Reach, com os Estados Unidos, com o seu TSCA (Toxic Substances Control Act) e o Canadá, com o CMP (Chemicals Management Plan). O Brasil, apesar de ter deixado para a última hora o compromisso, estava no caminho certo. Falta agora combinar com o novo governo federal.

Brexit e o Reach

Com o Brexit previsto para ocorrer em outubro, depois vários adiamentos, as indústrias químicas britânicas estão correndo para transferir para algum dos outros 27 países-membros da União Europeia os registros de suas substâncias químicas feitas no Reino Unidos de acordo com a regulamentação europeia Reach. A agência de controle Echa, de Helsinki, na Finlândia, determina a ação como forma de os registros – custosos e trabalhosos – não perderem o efeito depois que o Reino Unido sair definitivamente da comunidade. São estimados 12 mil registros de origem britânica nesse processo.

Saneamento na mesma

Estudo da consultoria KPMG, que usa como base a meta de universalização do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), aponta a necessidade de mais de R$ 40 bilhões anuais de investimentos, entre 2019 e 2033, para o seu cumprimento. Esse montante é muito maior do que a média de investimento do setor nos últimos anos. Em 2017, por exemplo, foram aplicados apenas R$ 10,4 bilhões. E o pior: os aportes vêm caindo. Em 2016, foram R$ 11,9 bilhões, em 2015, R$ 13,6 bilhões e, em 2014, R$ 15,1 bilhões.

MP 868

Com o cenário desolador do saneamento, representado pelo já mais do que conhecido dado de que metade da população não tem acesso à coleta e tratamento de esgoto, a aprovação da MP 868 neste ano, que facilita a participação privada no setor, é vista como uma luz no fim do túnel. Mesmo sob pressão principalmente das companhias estaduais, a expectativa é de que a MP seja aprovada com algumas concessões, como por exemplo a retirada do artigo 10 C, que exige chamamento público dos municípios ao término dos contratos de programa (sem licitação) com as companhias estaduais. Para resolver o imbróglio, o artigo foi retirado na última versão da MP em troca da transformação dos contratos de programa, em caso de privatizações de companhias, em contratos de concessão. Isso faz com que esses contratos sejam transferidos para o grupo privado adquirente das estatais.

Aegea cresce

Prova do dinamismo do setor privado no saneamento é o desempenho da Aegea, grupo com contratos de concessão em 50 municípios em 11 estados brasileiros. Com 36,4% de participação entre as concessionárias privadas, o Ebitda da empresa cresceu em média nos últimos cinco anos 29,3%, registrando R$ 800 milhões em 2018. A receita líquida no ano passado foi de R$ 1,7 bilhão, crescimento médio anual de 28,6% no período. O desempenho de 2018 acrescenta novos contratos importantes, em Teresina-PI, Vila Velha-ES e Manaus-AM.

EIA-Rima para GNL

A Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo aprovou o estudo de impacto ambiental (EIA-Rima) do terminal de regaseificação (GNL) na Baixada Santista da distribuidora Comgas. Trata-se de navio de regaseificação que fica sobre a lâmina de água, sem interferência em áreas terrestres costeiras. Para preservar a biota aquática, a Comgas fará um furo direcional abaixo de 25 metros de profundidade para instalar a tubulação que levará o gás até a rede distribuidora, no planalto. Serão instalados 8,5 km de dutos para ligar o navio ao city-gate de controle e distribuição do gás. O projeto do sistema de recebimento, regaseificação e conexão com a rede visa ampliar a oferta da distribuidora paulista e conta com volume total de dragagem de 1.985.000 m³.

Biometano em SP

A distribuidora GasBrasiliano, cuja área de concessão é no noroeste paulista, e a Usina Cocal, de Narandiba-SP, firmaram parceria para construir a primeira rede independente de biometano para distribuição nas cidades de Presidente Prudente e Pirapozinho. O biometano será gerado a partir do processamento dos resíduos da cana-de-açúcar da usina (vinhaça, palha e bagaço). A estimativa é de que, na primeira etapa, 230 mil pessoas sejam atendidas com gás natural renovável (biometano), que é purificado a partir do biogás gerado por biodigestores. A distribuidora vai investir R$ 30 milhões e a usina, outros R$ 130 milhões. A GasBrasiliano construirá rede de distribuição de 65 km, da usina até Presidente Prudente, para atender residências, comércios, indústrias e para o abastecimento de carros leves e pesados movidos a GNV, em postos de combustíveis. A previsão é de concluir o projeto e colocá-lo em operação no segundo semestre de 2020. A região não conta com rede de distribuição, por estar longe do Gasoduto Bolívia-Brasil, e tem o apoio do governo paulista, que pretende ajudar a replicar o projeto em outras regiões do estado.

Onça Pintada

A empresa de engenharia Pöyry está desenvolvendo o projeto da Usina Termelétrica (UTE) Onça Pintada, de Três Lagoas-MS, da Eldorado Celulose, que utilizará como combustível a biomassa proveniente de raízes e tocos e também resíduos florestais descartados do processo de fabricação de celulose. Com capacidade de 50 MW, usina venderá a energia para a rede pública e foi uma das vencedoras de leilão A-5 de 2016 da Aneel. Para tanto, a usina precisará estar pronta até 2021.

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