Aumento da produção de petróleo no Brasil pode anular ganhos com desmatamento zero

Um novo cálculo revela que as emissões provenientes da queima de óleo na Margem Equatorial são três vezes maiores do que a meta assumida para 2030

O governo Lula está participando da Conferência do Clima da ONU (COP28) em Dubai, destacando os avanços alcançados pelo Brasil em seu terceiro mandato, como a redução do desmatamento da Amazônia em 50% nos primeiros dez meses do ano em comparação com o ano anterior, o chamado “desmatamento zero”. Essa redução é um resultado significativo para apresentar na cúpula, que busca acelerar as ações dos países para combater o aquecimento global.

No entanto, o anúncio de que o Brasil se unirá à Opep + e abrirá uma nova frente de exploração de petróleo na Margem Equatorial levanta a questão de quanto esse movimento em direção aos combustíveis fósseis pode comprometer os esforços contra a crise climática. Pesquisadores concluíram que se todo o petróleo previsto estiver disponível no fundo do mar na faixa entre o Amapá e o Rio Grande do Norte for explorado, as emissões de gases de efeito estufa provenientes de sua queima anulariam os ganhos obtidos com a redução do desmatamento da Amazônia.

As emissões referentes à queima do petróleo da Margem Equatorial seriam, no mínimo, o triplo do quanto o Brasil se comprometeu a emitir em 2030. Se o país também tem como meta zerar o desmatamento da Amazônia até o fim da década, fica mais evidente o potencial de não só anular ganhos, como de inverter a curva.

Neste caso, a emissão de petróleo se torna ainda mais alarmante, com 4 bilhões de toneladas de CO2 sendo 4,4 vezes mais do que a emissão que teríamos se o desmatamento da Amazônia acabasse. De acordo com David Tsai, coordenador do Seeg, “esse montante de emissões seria equivalente, grosso modo, a continuarmos desmatando até 2035 ou até 2060 (considerando que cumpriremos com a NDC em 2025 e depois vamos freando linearmente o desmatamento).” Ele complementa que explorar a Margem Equatorial seria equivalente ao dano causado pela postergação entre 5 anos e 30 anos da meta de desmatamento zero.

Outra maneira de entender o potencial de queima de combustível fóssil na Margem Equatorial é olhar para trás. O governo Lula acredita que pode zerar o desmatamento até 2030 porque algo próximo disso já foi feito no passado. Entre 2004 e 2012, a taxa caiu 83%, chegando à menor já medida desde 1989. Na COP, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, afirmou que, com essa redução, o Brasil evitou lançar na atmosfera 5 bilhões de toneladas de CO2e naquele período.

No entanto, o cálculo sobre as emissões potenciais do petróleo não significa que necessariamente esse carbono vai se somar à contribuição que o Brasil faz ao aquecimento global. Pode não entrar na nossa conta, visto que ele pode não ser consumido no país, mas ser exportado.

Isso contrasta com o próprio posicionamento oficial do governo em Dubai, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez questão de frisar a redução de 50% no desmatamento da Amazônia nos primeiros dez meses do ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, para cobrar os demais líderes. No entanto, como comenta Tsai, “vai ser um dano para o mundo de todo jeito”.

“O desmatamento em todo mundo só responde por 10% das emissões globais. Mesmo que não derrubemos mais nenhuma árvore, a Amazônia poderá atingir seu ponto de não-retorno se outros países não fizerem sua parte”, declarou, indicando reconhecer que o consumo de combustíveis fósseis é o principal vetor do aquecimento global em todo o mundo.

desmatamento zero
Imagem ilustrativa

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