Agroquímicos: Safra recorde anima, mas entraves regulatórios freiam avanço tecnológico

 

Petróleo & Energia, Agroquímicos: Safra recorde anima, mas entraves regulatórios freiam avanço tecnológico

A atividade agropecuária brasileira continua trazendo boas notícias para o país. O recém-divulgado 9º Levantamento de Safra da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê um incremento da produção brasileira de grãos de 25,6% na safra 2016/2017, em comparação com a anterior (2015/2016). Com isso, serão produzidas 234,3 milhões de toneladas de grãos, um recorde histórico, ultrapassando as 207,7 milhões de t colhidas em 2014/2015.

O estudo prevê aumento de 20% para a produção de soja, muito embora a área plantada com essa cultura tenha sido ampliada em apenas 1,9%. A lavoura do milho terá aumento de safra ainda mais expressivo, de 41%. Nesse caso, a chamada safrinha responderá por 63,5 milhões de t neste ano, do total de 93,83 milhões de t esperadas.

No entanto, esse aumento de oferta, somado à variação cambial, deverá produzir uma receita bruta total menor, de R$ 168,26 bilhões, quase 10% inferior à de 2015/2016, que somou R$ 187,56 bilhões, nas estimativas da Conab. A companhia aponta queda de receita de 7% para a soja e de 50,8% para o milho.

Os produtores rurais estão animados com esse quadro. Isso pode ser verificado pela venda de tratores e colhedeiras agrícolas. Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) registraram aumento de vendas de 45% nessa categoria de máquinas na comparação entre os primeiros trimestres de 2017 e 2016.

Petróleo & Energia, Bojanic: produtividade agrícola precisa crescer
Bojanic: produtividade agrícola precisa crescer

Produtividade expandida – Nos últimos 40 anos, da safra 1976/77 até a 2016/17 (conforme estimativa da Conab), a produtividade agrícola nacional terá crescido impressionantes 207,9%, pulando de 1.258 kg de grãos por hectare para 3.874 kg/ha. Há 40 anos, a produção nacional somou 46,9 milhões de t, ocupando 37,3 milhões de ha. A safra em andamento deverá produzir 234,3 milhões de t em 60,5 milhões de ha. Enquanto a oferta de grãos foi multiplicada em quase cinco vezes, a área plantada nem chegou a ser duplicada, cresceu 62%. Ao todo, a produção de grãos ocupa apenas 9% do território nacional.

Esse é o efeito local da chamada Revolução Verde, resultado da aplicação intensiva de tecnologia à produção agrícola, indispensável para garantir o suprimento de alimentos para a população mundial, com projeção de chegar a 11 bilhões de habitantes em 2050. Representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, da ONU), Alan Bojanic salientou que o Brasil terá 300 milhões de habitantes até 2050, com o incremento de um terço na população atual. “É preciso aumentar a produção, a safra recorde anunciada pela Conab ajuda, mas ainda é pouco em relação à demanda mundial”, afirmou. Ele salientou que, além da ampliar a oferta, é fundamental investir para reduzir as perdas durante e após a colheita, que representam 30% da produção mundial. “E também é preciso ser mais eficiente no aproveitamento dos insumos, como água, solo e energia.”

Deve-se considerar que o recorde de produção esperado pela Conab é precedido por uma safra ruim. Em 2015/16 o clima prejudicou muito a atividade agrícola e foi o maior responsável pela produção de apenas 186,6 milhões de t, quase 10% abaixo das 207,7 milhões de t de 2014/2015.

Petróleo & Energia, Leduc: dependência de ativos importados é risco para país
Leduc: dependência de ativos importados é risco para país

O sistema atual de produção oferece várias ferramentas ao agricultor para aumentar sua produtividade: máquinas, fertilizantes sintéticos, defensivos agrícolas, além de tecnologia de campo mais apurada. Nesse contexto, a indústria química contribui com importantes insumos, com destaque para os agroquímicos, também referidos como defensivos ou agrotóxicos.

Embora sua importância seja inegável, os agroquímicos encontram ambiente hostil na burocracia governamental brasileira. “A aprovação de uma nova molécula ou de uma formulação modificada demora, em média, 7,5 anos no Brasil, isso significa um atraso de pelo menos cinco anos em relação aos demais países”, criticou Eduardo Leduc, presidente da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef). Ele explicou que a incidência de pragas (insetos, fungos, bactérias e plantas invasoras nocivos à agricultura) tem uma dinâmica específica. Ou seja: depois de amargar sete anos de fila, um produto químico pode ter deixado de ser útil ao setor, porque a praga mudou. “Isso compromete a segurança do produtor e também a rentabilidade dos fabricantes que investem no desenvolvimento de moléculas inovadoras”.Embora a previsão de safra deste ano seja animadora, Leduc comenta que as compras de defensivos pelos agricultores estão atrasadas. “O mercado tem estoques, além disso, a comercialização dos grãos também está lenta e já começam a aparecer problemas logísticos, pois os silos ainda estão cheios com a soja e o milho está chegando”, comentou. Ele admite que não era esperado um aumento tão grande na produção de soja e milho, reflexo do clima muito favorável. A indústria de agroquímicos projeta melhores resultados a partir do segundo semestre deste ano.

Leduc também considera que a variação cambial ajudou os produtores rurais em 2016. Os defensivos ficaram quase 15% mais baratos, enquanto os grãos registraram aumento de preço em reais. “Neste ano, a situação se inverteu, demonstrando que as operações de barter [venda de insumos com base em produto agrícola] são uma boa forma de reduzir o risco financeiro da atividade”, ressaltou.

O dirigente também observa que a relação entre quantidade de agroquímicos vendidos e área plantada não sofreu redução nos últimos anos, mas está em queda quando considera a produção obtida no campo. “O Brasil está usando menos defensivos por tonelada de grãos colhidos”, afirmou Leduc. Os agricultores europeus usam seis vezes mais agroquímicos por tonelada produzida que os brasileiros. Os japoneses, dez vezes mais. Isso atesta que o país usa de forma comedida esses insumos, pois, por estar em região tropical, tende a apresentar maior incidência de pragas e doenças nocivas às lavouras.

A indústria de defensivos agrícolas se esforça para suprir as necessidades dos produtores rurais. Em todo o mundo, o lançamento de novas moléculas está sob pressão, pois os custos de aprovação pelas entidades oficiais se tornaram muito elevados, quase proibitivos. “Basta ver que o setor está vivendo uma fase de concentração empresarial sem precedentes, com muitas fusões e aquisições que envolvem até grandes players mundiais”, comentou. “Isso é um sinal de que as coisas não estão indo bem.”

Bojanic, da FAO, aponta que a produtividade dos cultivos está estagnada em todo o mundo, exigindo novos esforços para dar um salto semelhante ao obtido na Revolução Verde. “Estamos ingressando na quarta fase da Revolução Industrial, a chamada Era 4.0, vamos ver como as inovações cibernéticas e de tecnologia da informação podem contribuir para o novo avanço”, afirmou.

Em todo o mundo, as indústrias buscam formar parcerias com a academia, como forma de acelerar seus desenvolvimentos. “No Brasil, essa aproximação é muito difícil, há preconceitos que atrapalham a relação, até mesmo no tocante a patentes”, considerou Leduc.

Com ambiente regulatório hostil para inovações, a indústria procura alternativas para suprir demandas mais críticas. “Nos casos mais críticos, verdadeiras emergências, como os da lagarta da Helicoverpa e da ferrugem asiática, o governo precisou usar um fast track para liberar os produtos adequados para esses casos, mas essa não é a situação ideal”, avaliou. A alternativa de recorrer às misturas de ativos tem dado bons resultados, mas também exige aprovação lenta e custosa.

Além de impedir aos agricultores o acesso a produtos mais modernos e com menor impacto ambiental, a demora em liberar ativos e formulações promove outros problemas sérios: o contrabando e a fraude de produtos. “São crimes praticados por quadrilhas perigosas, quem usa esses produtos está contribuindo para o aumento da violência no campo”, advertiu Leduc. No caso das fraudes (produtos fabricados sem o menor controle, geralmente com baixa qualidade e efeitos nulos no campo), o produtor coloca em risco a sua lavoura, pois não há garantia alguma de eficácia.

Na atual situação do mercado brasileiro, Leduc aponta um risco estratégico muito grande para a agricultura. “Hoje, importamos cerca de 90% dos princípios ativos agroquímicos aplicados no campo, mas entendemos que a América do Sul deveria produzir pelo menos 30% dessas moléculas na região, evitando uma dependência perigosa de outras origens”, avaliou. “Nas atuais circunstâncias, porém, não conseguimos justificar investimentos em fábricas no Brasil, falta previsibilidade.”

Dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) corroboram essas informações. De janeiro a dezembro de 2016, as vendas de defensivos agrícolas caíram 1%, somando US$ 9,56 bilhões, em relação aos US$ 9,6 bilhões de 2015. Caso a comparação fosse feita com 2014, o resultado seria ainda pior, com uma queda de 22%. O Sindiveg atribui essa variação à flutuação cambial, aos efeitos climáticos e à diferente incidência de pragas nas lavouras.

As estimativas de vendas para 2017, segundo Silvia Fagnani, diretor executiva do Sindiveg, são conservadoras e com possível registro de queda, justificada pela existência de estoques anteriores, do risco de crédito para a indústria e também pela maior presença de produtos ilegais. A indústria financia perto de 70% das vendas aos agricultores. O Sindiveg estimou em 20% a participação de produtos contrabandeados nas vendas do setor no Brasil em 2015.
Em 2016, os fungicidas se tornaram a classe de produtos mais vendida no país, acompanhando a incidência maior da ferrugem da soja, respondendo por 33% do mercado. Os herbicidas chegaram perto, com 32,5% das vendas, com aumento de participação dos produtos seletivos, fato relacionado ao aumento de plantas invasoras de difícil controle na soja.

Por sua vez, os inseticidas sofreram queda de 12% nas vendas, representando 29% do mercado. Esse segmento é o mais afetado pelo contrabando, segundo o Sindiveg.

Em 2016, as importações de agroquímicos cresceram 5,72% em relação a 2015, totalizando 414.975 toneladas, equivalentes a 85% do mercado nacional. Desse total, 56,5% corresponderam a produtos técnicos (ativos) e 43,5% aos formulados. A China foi o maior fornecedor de agroquímicos para o Brasil (32,75% do total importado), seguida pelos Estados Unidos (17,51%), Índia (11,95%), Argentina (4,99%), Inglaterra (4,27%), Israel (4,2%) e Alemanha (3,6%). Os produtos mais importados são os herbicidas (243 mil t, com 3,76% de crescimento), mas 2016 registrou forte aumento (59%) nas importações de fungicidas, enquanto os inseticidas baixaram as importações em 22,87%.

Petróleo & Energia, Benavides: outros países têm sistemas mais ágeis e seguros
Benavides: outros países têm sistemas mais ágeis e seguros

Ruim para a indústria – A demora em obter o registro de novos princípios ativos ou formulações de moléculas já conhecidas prejudica os agricultores, afastando-os de tecnologias mais modernas, capazes de melhorar sua eficiência produtiva e a sustentabilidade das lavouras. Prejudica também a indústria química, que poderia colocar sua criatividade a serviço dessa atividade econômica, cujo desempenho positivo contrasta com o modorrento andar da economia nacional.

“Os ingredientes de formulação chamados inertes, porque não se confundem com os ativos, diferenciam o desempenho dos produtos e a sua aplicação”, explicou Tlacaelel Benavides, gerente e marketing de soluções industriais da Dow para a América Latina. “O ciclo de uso de tecnologias no Brasil é muito longo, outros países são mais ágeis, isso limita o desenvolvimento de produtos por aqui.”

Entre as qualidades que os inertes podem agregar às formulações de agroquímicos constam a redução de deriva (desvio do produto para fora do alvo desejado durante a aplicação), compatibilização de substâncias da mistura, aumento de concentração de ativos, formulação de combos, entre outros. O portfólio oferecido pela Dow para esse mercado é amplo e compreende solventes sintéticos, surfactantes (com efeito emulsificante, umectante, dispersante e estabilizante), aminas neutralizantes, modificadores reológicos, anticongelantes e biocidas. Parte desses itens tem produção local, em Aratu-BA e Guarujá-SP, enquanto os demais são importados dos Estados Unidos.

“Aqui no Brasil, qualquer modificação nos inertes da formulação, ainda que o princípio ativo seja exatamente o mesmo, exige passar pelo mesmo rigoroso processo de registro, que demora mais de sete anos”, lamentou Benavides. Ele salientou que mudanças de formulação com o mesmo ativo são registradas em 48 horas nos Estados Unidos. “Eles trabalham com uma lista negativa, contendo as substâncias que não podem ser usadas, as restantes estão liberadas, é muito rápido e seguro”, comentou. “A Europa é menos liberal que os EUA, mas os registros nesse caso também são muito mais rápidos do que no Brasil.” Segundo ele, a vizinha Argentina não demora mais do que seis meses para registrar novos produtos e isso resultará em vantagens para sua produção agrícola.

Benavides salienta que a introdução ou substituição de inertes é feita mediante estudos específicos para cada caso. “Não são modificações triviais, temos laboratórios nos Estados Unidos e no Brasil para estudar as solicitações que, depois, os formuladores precisarão testar no campo antes de iniciar a produção em escala comercial”, ressaltou. Como disse, a química oferece muitas possibilidades, mas é preciso traduzir os benefícios para os clientes.

Petróleo & Energia, Santos: formulações avançadas reduzem as perdas por deriva
Santos: formulações avançadas reduzem as perdas por deriva

Um dos aspectos que ainda se mantém entre as tendências mundiais do setor é a substituição dos solventes aromáticos nas formulações de defensivos agrícolas. “São substâncias com elevado poder de solvência e baixo custo, que funcionam muito bem com vários ativos, mas há uma preocupação internacional com sua toxicidade, embora ainda não exista uma solução única para todos os casos”, comentou Luís Gustavo dos Santos, especialista técnico de soluções industriais da Dow para a América Latina.

Outra tendência, essa mais recente, é a preocupação com formulações que reduzam a ocorrência de deriva durante as aplicações. “Isso se consegue controlando o peso e o tamanho da gota e também da reologia da formulação; estão sendo obtidos bons resultados de uns cinco anos para cá”, afirmou Santos, enfatizando a disponibilidade de produtos no mercado internacional para esse objetivo.

Benavides chama a atenção para a falta de regulamentação específica para os produtos coadjuvantes de uso agrícola. São os óleos minerais, agentes umectantes ou espalhantes adesivos, entre outros, comercializados separadamente das formulações de defensivos. “Assim, embora não contenham nenhuma substância ativa contra pragas, essa classe de produtos precisa seguir o processo de registro dos defensivos, passando pelos mesmos ensaios complexos”, lamentou. “Esse seria um grande campo para introduzir inovações químicas que oferecessem características e propriedades diferentes para melhorar o desempenho dos defensivos.”

Outra tendência internacional que está atrasada no Brasil é o uso de apresentações sólidas como alternativa para os defensivos vendidos na forma líquida. “Os sólidos são mais concentrados, reduzem o espaço de armazenagem, custo de embalagem e transporte, além de apresentar mais facilidade no manuseio”, afirmou. Porém essa opção exige investimentos em equipamentos diferentes de produção, feita mediante outros processos industriais. Além disso, nem todos os ativos são adequados para esses processos.

Benavides considera que os órgãos oficiais de controle no Brasil estão atentos aos problemas regulatórios e já começaram a fazer consultas públicas e esforços para mudar as normas que regem esse sistema. “De qualquer forma, nós da indústria química não podemos desanimar e parar de pesquisar, porque o mercado é dinâmico”, completou.

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