Energia

Aerogeradores – BNDES fiscaliza índice de nacionalização e estimula a fabricar mais no país

Nelson Valencio
14 de outubro de 2012
    -(reset)+

    Os fabricantes de aerogeradores com negócios no Brasil têm tudo para contestar o velho ditado de que ninguém vive de vento. Pelas estatísticas da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), o país teria 1.342 desses equipamentos instalados até agosto deste ano, distribuídos em 71 parques. Até 2017, outros 5 mil poderão ser acrescentados, adicionando cerca de 2 GW de capacidade de geração anual à matriz energética. Todos esses dados, no entanto, precisam ser tomados com cuidado, pois há algumas pedras no meio do caminho, sendo a principal delas a interligação dos parques à rede de transmissão nacional de energia elétrica. De acordo com reportagem de O Estado de S.Paulo, publicada no último dia 30 de setembro, as obras de interligação de metade dos parques ainda não foram realizadas, portanto parte dos aerogeradores está parada neste momento.

    É preciso lembrar que esse atraso atinge os parques eólicos licitados no leilão A-3, de 2009, que previa a ativação dos projetos ainda este ano. Embora eles estejam prontos, a transmissão – licitada separadamente – não conseguiu atender os seus prazos. Responsável por essas obras, a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf), estatal do grupo Eletrobras, não teria iniciado algumas delas, de acordo com o jornal paulista. O mesmo veículo informa que especialistas do setor preveem a interligação somente para julho de 2013. Além dos parques leiloados em 2009, é provável que o atraso afete também o leilão A-3 de 2010, amplificando o problema, uma vez que o cronograma inicialmente estabelecido, neste último caso, para setembro de 2013, só deverá ser realizado, provavelmente, em janeiro de 2015.

    Para Eduardo Lopes, superintendente Comercial da Wobben, fabricante de aerogeradores, pás e torres, o segmento eólico tem sido afetado pelo cenário geral do setor elétrico. Isso incluiria desde a redução do crescimento econômico e até a renovação das concessões no setor de transmissão. “Vivemos um momento de espera”, informa. Para ele, a consolidação de uma política anual de leilões daria mais estabilidade ao setor e seria uma das formas de fortalecê-lo. Acrescente-se à avaliação do executivo um terceiro fator: o realinhamento dos fabricantes de aerogeradores no mercado brasileiro. Para os entrevistados ouvidos nesta reportagem, a demanda local de equipamentos acomodaria os 11 players atuais. Airton Silveira, assessor da diretoria da Eletrosul, avalia que encomendas anuais médias entre 150 MW e 180 MW para cada um deles tornariam viáveis sua atuação no país. “Obviamente, uma carteira de 500 MW/ano seria mais confortável”, completa.

    Esse realinhamento, por outro lado, passa por um crivo importante: o credenciamento do BNDES para acesso ao Finame (Agência Especial de Financiamento Industrial do BNDES). Cinco fabricantes teriam sido descredenciados por não atingirem os 60% de conteúdo nacional determinados pela instituição financeira. Sobre esse processo o banco não se pronuncia, de forma que as informações disponíveis são as publicadas pelos jornais de grande circulação e sites especializados (veja quadro). Petróleo e Energia, no entanto, entrevistou Luís André Sá D’Oliveira, gerente do Departamento de Energias Alternativas do BNDES, setor responsável pelos financiamentos no segmento eólico. O executivo explica que o critério de conteúdo nacional compreende 60% do peso e mesmo percentual do valor em relação ao aerogerador (e outros equipamentos cujos fabricantes queiram submeter ao Finame). “A determinação do conteúdo precisa atender aos dois requisitos paralelamente”, ressalta. Com isso, um equipamento com 61% de seu peso fabricado no Brasil, mas cujas notas fiscais de importação indiquem que 59% do seu valor veio de fora, não será considerado apto para financiamento.

    A dupla checagem atenderia a meta de desenvolver a cadeia produtiva do aerogerador no Brasil. Isso não impede que o fabricante terceirize parte de sua produção, desde que atenda às regras do Finame. “Quando os projetos chegam até a minha área, essa questão de credenciamento já foi resolvida”, explica Oliveira. Ele destaca que os aerogeradores respondem por entre 65% e 70% dos valores financiados num parque eólico, mas acrescenta que o Finame também pode ser ativado para financiar o projeto como um todo, incluindo máquinas e equipamentos para as obras civis, parte de conexão elétrica e sistema de transmissão, entre outros. “Financiamos todos os gastos nacionais, sendo o aerogerador o mais crítico”, argumenta.

    Petróleo & Energia, Airton Silveira, Assessor da diretoria da Eletrosul, Aerogeradores - BNDES fiscaliza índice de nacionalização e estimula a fabricar mais no país

    Silveira: Eletrosul exigiu que fornecedor entrasse no projeto

    O histórico de desembolso do BNDES na área eólica começa em 2006, com o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), modelo adotado antes dos atuais leilões. Considerando todos os financiamentos para o segmento, a instituição avalia que assinou contratos no valor de R$ 7,7 bilhões, o que corresponderia à capacidade de geração de cerca de 2,6 GW. Outros 370 MW estariam em processo de assinatura, somando R$ 770 milhões. Com isso, o banco tem uma participação – via Finame – em aproximadamente 3 GW de capacidade de geração eólica no Brasil. “Há diversas outras operações em análise e enquadramento ou que acabaram de ser enquadradas”, explica Oliveira. Esse segundo bloco envolveria 2,4 GW de capacidade e cerca de R$ 6 bilhões em desembolsos (que seriam feitos em cerca de um ano). Grande parte do valor ainda não desembolsado, como se viu, será direcionado para o financiamento dos aerogeradores.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *